Funcionários dizem não saber que ganhavam mais que o teto

Apesar de receberem mais de R$ 30 mil por mês, servidores do Senado ignoram valor do contracheque

Alguns servidores do Senado com salários acima do teto constitucional afirmaram que sequer sabiam que a remuneração deles extrapolava o limite legal. “Está sendo uma novidade para mim. Eu nem sabia que fazia parte dessa lista”, afirmou o diretor da gráfica do Senado, Florian Madruga, que recebia quase R$ 31 mil mensais em valores brutos, de acordo com auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU).  Ele disse que não observa o contracheque, onde consta o salário bruto. Madruga argumenta que observa apenas o salário líquido depositado em conta corrente, que é menor que o teto, mas que, mesmo assim, ficou ainda menor com o corte promovido pela Casa por ordem judicial.

O mesmo espanto disse ao site ter o diretor-executivo do Instituto Legislativo Brasileiro, Carlos Roberto Stuckert. “Eu só via pelo líquido. Nunca me preocupei com isso”, afirmou.

Dono do maior salário da lista, de R$ 35 mil mensais, o jornalista Manoel Vilela afirmou que tudo que recebeu está dentro da legalidade e que jamais estourou o teto constitucional. Confrontado com a auditoria do TCU, ele recuou. “Ah, não sei, não. Realmente eu não estou sabendo. Não tenho nenhuma informação. O Senado sempre faz corretamente”, afirmou Vilela, antes de encerrar o telefonema.

Ex-professor da Universidade Brasília, o jornalista trabalhou para o ex-senador Arthur Virgílio, que o considerava um exemplo de diretor-geral. “Conduziu esta Casa com a lisura com que os homens públicos devem se portar”, afirmou o senador no plenário da Casa em julho de 2009.

Medalha

A ex-secretária geral da Mesa Sarah Abrahão disse ao site que, até junho passado recebia R$ 35 mil por mês, mas havia descontos de mais de R$ 11 mil, o que deixava seu salário líquido menor do que o teto do funcionalismo.  Ela preferiu não responder sobre o fato de – segundo o entendimento da Justiça, que utilizou como base os salários brutos – receber mais que os ministros do STF e até do que o subsídio pleiteado por eles em projeto de lei. Sarah pediu ao Congresso em Foco para a procurá-la na semana seguinte no Senado, mas o site não a localizou na Secretaria Geral da Mesa. Ela também não retornou os recados deixados ali.

Sarah e Antônio de Araújo Costa, outro servidor com salários além de R$ 30 mil, foram homenageados no ano passado. Os dois receberam uma medalha por completaram 50 anos de serviço público cada um. “A entrega das medalhas (...) é o cumprimento com o dever de reconhecimento. São os funcionários que, no passado, construíram a qualidade de serviços do Senado”, afirmou o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), na solenidade.

Sarah Abrahão presenteou Sarney com a caneta com que ele, em 15 de março de 1985 assinou seu termo de posse como presidente da República. O hoje presidente do Senado relata que Sarah lhe deu apoio quando ele ficou emocionado por substituir Tancredo Neves no cargo, àquela altura gravemente doente e sem condições de assumir.

Já Antônio Costa trabalhou na Casa Civil da Presidência durante o governo de Sarney. Funcionário de carreira, ele se aposentou de vez em janeiro deste ano. Costa disse que, naquele mês, recebeu os mesmos R$ 32 mil mensais apurados pelo TCU em agosto de 2009. Ele se aposentou em 1979 como chefe de gabinete do presidente do Senado à época, Petrônio Portela, mas voltou à ativa depois como ocupante de cargos comissionados. Costa disse que sua remuneração sempre foi lícita. “Depois de minha aposentadoria, não tive outra. Era fruto do meu trabalho. Ganhava o meu de aposentado, mas trabalhava. Eu trabalhei todo o tempo integralmente”, afirmou.

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