Frei Gilvander: “No telefone, diziam que eu seria morto”

Ameaçado há 15 anos, defensor dos sem-terra e dos sem-teto diz que violência está disseminada até nas regiões mais ricas do país. Ele critica programa de proteção a defensores de direitos humanos, no qual está incluído

Um dos principais interlocutores dos sem-teto e dos sem-terra em Minas Gerais, o frei Gilvander Luís Moreira não é homem de esmorecer, mas se aflige com as batalhas que compra. “O Pará e a Síria são aqui. Há muitas denúncias em Belo Horizonte e até no desenvolvido sul do estado. Esses problemas estão disseminados por todo o Brasil”, aponta.

Gilvander conta que começou a receber ameaças há 15 anos. Mas as intimidações ficaram mais graves nos últimos dois anos. Após acompanhar a desocupação de uma terra em Itabira, foi aconselhado a nunca mais pisar na região. “Gravei vídeos, reuni fotos, escrevi sobre o terrorismo de Estado em cima dos mais pobres. No telefone, diziam que eu seria morto”, diz.

No segundo semestre do ano passado, nova onda de ameaças. De telefones públicos instalados na zona sul da capital mineira, uma voz masculina sussurrava: “Seus dias estão contados. Você vai amanhecer com a boca cheia de mosquitos”. Frei carmelita há 29 anos e padre há 19, Gilvander acompanha mais de dez ocupações urbanas na região metropolitana de Belo Horizonte. Há dois anos integrado ao Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, o religioso não tem escolta policial, mas recebe apoio psicológico.

Para ele, no entanto, o programa ainda é falho. “Precisaria ter mais fôlego e o principal: atacar as causas das ameaças. As reformas agrária e urbana não saem. A política habitacional é injusta, só beneficia os grandes construtores. O povo fica imprensado”, considera.

As lutas do frei não se resumem à moradia e à terra. No ano passado, um juiz mandou prendê-lo por ele divulgar na internet um vídeo em que associava a elevada incidência de câncer em Unaí (MG) ao uso excessivo de agrotóxico no feijão produzido na região. Graças a um recurso, Gilvander não foi preso e acabou absolvido. Mas o caso, que envolve também o Google e o YouTube, que não retiraram o vídeo do ar imediatamente, ainda corre na Justiça.

Ele responde ainda a um processo canônico no Vaticano, que pode lhe render a expulsão da Igreja por ter defendido o direito dos homossexuais de se unirem civilmente. “Defendo direitos humanos de todas as minorias oprimidas, os negros, os índios, os homossexuais. Seria incoerente defender a dignidade dos sem-terra e ser cúmplice dessa imensa homofobia”, afirma. Com a ascensão do Papa Francisco, que tem se revelado menos conservador em relação ao tema, o frei de 50 anos acredita que escapará da punição eclesiástica.

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