Família se ‘perpetua’ há dois séculos no Congresso

Em seu décimo mandato na Câmara, Bonifácio de Andrada representa a quinta geração de um clã que já teve outros 14 representantes no Parlamento brasileiro nos últimos 194 anos. "É mais amor à política do que ao dinheiro", diz

De pai para filho, de filho para neto, de neto para bisneto, e assim sucessivamente. A saga de um clã político parece não ter fim no Parlamento brasileiro. Desde 1821, antes mesmo de D. Pedro I proclamar a Independência do Brasil, a família Andrada se perpetua no Congresso. E parece ter fôlego para manter o sobrenome por mais gerações. Em seu décimo mandato na Câmara, Bonifácio de Andrada (PSDB-MG) representa a quinta geração de uma família que já teve outros 14 representantes no Parlamento brasileiro nos últimos 194 anos. O precursor dessa história e o famoso deles é José Bonifácio de Andrada e Silva, conhecido como o “patriarca da Independência”.

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Aos 85 anos, Bonifácio de Andrada é o mais idoso entre os 594 congressistas e só perde em número de legislaturas para Miro Teixeira (Pros-RJ), que está em sua décima-primeira. Mas nenhum o supera em número de mandatos políticos: são 15, somados os deputado estadual e vereador. Em 2009, ele chegou a anunciar a aposentadoria na política e a passagem do bastão a um de seus filhos. Porém, desistiu da ideia.

Desde 1954, quando o então presidente Getúlio Vargas acabou com a própria vida em meio a uma grave crise política, o mineiro nunca passou um ano sequer sem exercer cargo eletivo. Enquanto o país se comovia com o suicídio de Getúlio, Bonifácio era vereador em Barbacena (MG), sua cidade natal e reduto eleitoral. "Sou um homem cheio de entusiasmo ainda, para disputar as eleições a essa altura dos acontecimentos”, conta Bonifácio, dono de uma faculdade e professor universitário aposentado.

Aristocracia portuguesa

Bonifácio diz considerar “curiosa” a perpetuação hereditária e fala com orgulho do início desta história familiar, que tem raízes na monarquia portuguesa. Os Andrada desembarcaram no Congresso Nacional antes mesmo de ele existir. Era a época das Cortes Portuguesas, em 1821, o legislativo do Brasil Colônia. Nos últimos 194 anos, produziu 15 deputados e senadores, quatro presidentes da Câmara, oito ministros de Estado e dois ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), além de governadores, prefeitos e vereadores. Ao todo, rendeu mais de 20 políticos e ocupantes de altos cargos públicos.

O tucano é filho do ex-presidente da Câmara Zezinho Bonifácio, neto do ex-deputado e diplomata José Bonifácio de Andrada e Silva. Uma tradição iniciada pelos irmãos José Bonifácio, Antônio Carlos e Martim Andrada. Na Câmara desde 1979, o deputado tucano diz que o país precisa reformar seu sistema político para renovar as práticas políticas. “Hoje, o Brasil é outro. É preciso renovar as exposições políticas, para se adaptar aos novos tempos”, afirmou, comparando ao período em que entrou para a política.

O deputado começou sua trajetória política na conservadora UDN, de Carlos Lacerda. Durante a ditadura militar, tomou partido do regime, filiando-se à Arena, legenda de sustentação do governo. Seu pai foi líder do governo do general Ernesto Geisel na Câmara.

Desde 1894, não houve uma única legislatura em que os herdeiros do "patriarca" não estivessem presentes no Congresso. A sucessão da dinastia chegou a ficar ameaçada nas eleições de 2010, quando o próprio Bonifácio de Andrada ficou na segunda suplência. E só voltou ao Congresso porque o então governador de Minas e atual senador Antonio Anastasia, seu colega de partido, chamou dois deputados para seu secretariado, garantindo o prosseguimento da série histórica da família.

"Morreu pobre"

Bonifácio nega que o gosto pela riqueza tenha acompanhado o pendor da família para a política. Ele cita como exemplo o “patriarca da Independência” José Bonifácio de Andrada e Silva, “que morreu pobre”, nas palavras dele. “A família tinha uma vocação política muito ativa, mas não tinha vocação para ganhar dinheiro. Passava era dificuldades financeiras”, diverte-se o deputado, lembrando que o ancestral apoiava a monarquia para manter a unidade do Brasil, “mas no fundo era republicano”.

De pobreza, Bonifácio não pode se queixar. O deputado declarou à Justiça eleitoral ter um patrimônio de R$ 9 milhões no ano passado. O deputado é dono e reitor licenciado da Universidade Presidente Antônio Carlos (Unipac), que tem 52 anos de história e está presente em mais de 60 cidades mineiras.

Para o parlamentar, as críticas sobre a longevidade do clã no poder não procedem. Ele admite haver famílias, no Congresso, que usam o poder para se locupletar e manter a influência em seus redutos eleitorais. “Existem essas família? Existem. Mas, no nosso caso, não, porque ao longo desse tempo todo, em várias oportunidades fomos oposição, e fomos todos perseguidos”, argumentou, citando até casos de prisão de seus familiares.

Segundo Bonifácio, o caso da família Andrada é de “mais amor à política do que ao dinheiro”. “Se eu tivesse mais amor ao dinheiro do que à política, talvez não continuasse a sobreviver da política. É o amor à política que nos mantém”, finalizou.

“Vocação”

O deputado afirma que é “natural” a política passar de geração em geração. “Vai passando de pai para filho, né? É como a casa do carpinteiro – o filho vê o pai carpinteiro mexer com serrote, com carpintaria, gosta e vai seguindo. Sempre há na família alguns que se interessam muito, se adaptam muito às questões políticas”, diz Bonifácio, pai do deputado estadual Lafayette de Andrada (PSDB), que exerce o terceiro mandato em Minas Gerais, e do atual prefeito de Barbacena, Toninho Andrada (PSDB).

No início do ano passado, Toninho nomeou o filho, Tonico Andrada, para chefiar a Secretaria Municipal de Coordenação Política de sua gestão – o que a imprensa local interpretou como o início da sucessão na prefeitura.

O clã Andrada chama atenção pela longevidade no Legislativo. Mas não está só. O Congresso Nacional é dominado por grupos familiares. Na legislatura passada, dois terços dos senadores tinham parentes na política, situação que se repetia na Câmara, onde mais da metade dos deputados (eram quase 300) também tinham familiares em outros cargos políticos, como mostra levamento do Congresso em Foco.

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