Exclusivo: as relações entre mídia e poder em Brasília



À esq., o deputado distrital Pedro Passos (PMDB). À dir., o empresário Ronaldo Junqueira

(Fotos: Divulgação/CLDF e Lincoln Iff)


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Lúcio Lambranho e Eduardo Militão

 


Um dia antes de ser preso pela Polícia Federal (PF) na Operação Navalha, o deputado distrital Pedro Passos (PMDB) ligou para um empresário de Brasília. Na conversa, Passos demonstra tamanha intimidade com o interlocutor a ponto de lhe terceirizar a prerrogativa parlamentar de assinar ou não CPIs no Legislativo do Distrito Federal.


Às 15h02min de 16 de janeiro, quarta-feira, os policiais federais grampearam o parlamentar numa conversa com Ronaldo Junqueira, dono do Jornal da Comunidade (ouça e leia). Os diálogos entre Passos e Junqueira não indicam nenhum crime cometido pelos dois. Mas são reveladores das relações nem sempre saudáveis entre mídia e poder, em que os interesses econômicos costumam prevalecer. Ocorreram em Brasília, mas não seriam muito diferentes se tivessem sido captados em qualquer outra cidade do país.


Na conversa, Junqueira afirma que deputados e ex-políticos seriam sócios ocultos de empresas de outdoors na capital federal. O empresário reclama da interferência do distrital por meio de discursos em plenário sobre a distribuição das cotas de publicidade do governo do Distrito Federal. Passos, que havia ligado para reclamar de uma matéria publicada pelo jornal contra ele, acaba sendo repreendido por Junqueira: “Quando você esculhamba a publicidade do governo você está brigando com todos os jornais da cidade. Não é só comigo”, diz ao justificar o texto (leia) contrário ao distrital, acusado de favorecer a construtora Gautama, empresa-mãe investigada pela Operação Navalha, no período em que comandou a Secretária de Agricultura do DF.


A reportagem citada por Passos remontava a denúncias de envolvimento do distrital com grilagem de terras:


“A CPI da grilagem de terra foi uma das mais complexas por envolver o hoje deputado distrital Pedro Passos (PMDB), que chegou a ter a sua prisão decretada e o seu irmão, Márcio Passos, preso pela Polícia Federal. Pedro se safou da prisão conseguindo se eleger em 2002 para uma vaga na Câmara Legislativa, e com a diplomação, conseguiu imunidade parlamentar.

 

A máfia dos grileiros que se apossou de áreas públicas era formada por grupos organizados que falsificavam escrituras, usavam laranjas, levando o Judiciário a incorrer em erro, constituindo condomínios na aposta da teoria da irrevogabilidade do fato consumado e depois vendendo muitas vezes o que não possuíam”.

 

Na conversa com Passos, Junqueira reclama que os deputados distritais estão propondo cortes no orçamento de publicidade do governo do DF. “Tem uns 11 deputados doidos propondo cortar 20 milhão (sic) cada um da verba do governo de publicidade e você está lá no meio. Meu Deus do céu”, protesta o empresário.

 

“Mas pra que você vai bater em mim, o único que é seu amigo de verdade, sô? Bate nos outros dez, uai… Algum dia na vida você me pediu alguma coisa que eu falasse não para você? Você tem dúvida de que, se você pedir pra mim (sic) tirar assinatura de CPI ou botar, se eu deixo de tirar ou deixo de botar?”, responde Pedro Passos.

 

O empresário admite na gravação que mandou fazer a reportagem contra o deputado distrital depois de um pronunciamento que o parlamentar fez sobre os gastos com propaganda. “Agora não tem uma semana que você não faz um discurso esculhambando publicidade”, reclama Junqueira. “Todo dia chega repórter meu: ‘Olha, o Pedro Passos ta lá fazendo discurso esculhambando a publicidade. Olha o Pedro Passos ta lá… P*! Que m* é essa?'”.

 

Junqueira se vangloria de um de seus repórteres, o editor de política de seu jornal, escalado para “bater” no distrital motivado pelos seus interesses privados. “Mas por que que invés de você chamar o Calado (Ricardo Calado) pra me dar uma porrada em mim (sic), você não me chamou?”, reclama Passos. “É que o Calado é igual àqueles assassinos do Nordeste. Você manda ele atirar e ele atira. Quantos tiros, chefe?”, retruca o empresário. Passos recomenda, em dado momento, que o dono do jornal “bata” em Alírio Neto (PPS), o presidente da Casa.

 

Deputados “por trás”

 

Na conversa, Junqueira também reclama que a Câmara Legislativa do Distrito Federal está aumentando a verba publicitária para os outdoors espalhados pela cidade. Os empresários de jornal teriam se reunido na manhã de 16 de maio para discutir um meio de mudar a situação com o presidente da Casa, Alírio Neto (PPS). “Eu já mandei avisar para ele. Não faça essa bobagem. Esse negócio de outdoor. Eu sei que em cada empresa de outdoor tem um deputado por trás”, acusa o empresário.

 

Segundo Junqueira, os anúncios da Casa estavam sendo veiculados nos painéis do senador cassado Luiz Estevão, do ex-deputado federal Wigberto Tartuce (PP) e do empresário Paulo Roxo – que, segundo fontes consultados pelo Congresso em Foco, foi coordenador informal de campanha do governador do DF, José Roberto Arruda (DEM). Roxo não foi localizado pela reportagem, assim como Estevão. Tartuce não retornou recados deixado com seu assessor.

 

“Agora quebra nosso galho. Não mexe com esse negócio de publicidade, não, porque já tem muita gente pra dar trabalho pra nós. Vai fazer CPI do lixo, fazer o que você quiser”, sugere o dono do Comunidade ao distrital Pedro Passos.

 

O coordenador de Comunicação da Câmara, Paulo Gusmão, disse que Alírio não comentaria as declarações grampeadas pela PF. Ele afirmou a alocação de verbas para publicidade em outdoors é
operação navalha