Ex-presidente do PSB, Roberto Amaral se desfilia do partido

Em carta à militância, ex-ministro de Lula afirma que a legenda mergulhou numa crise ética ao trair seu programa partidário e se aliar à “classe dominante” e ao “golpismo”. Ele segue os passos de Erundina, que também deixou a sigla após duas décadas

Presidente do PSB até outubro de 2014, o ex-ministro de Ciência e Tecnologia Roberto Amaral anunciou sua desfiliação do partido que ajudou a refundar em 1985. Em carta dirigida à militância da legenda, Amaral afirma que o PSB mergulhou numa crise ética ao trair seu programa partidário e se aliar à “classe dominante” e ao “golpismo”.

“Despeço-me do PSB que se nega a si mesmo para manter-me coerente com minha vida”, escreveu o ex-ministro, que seguiu os passos da deputada Luiza Erundina (SP), que anunciou esta semana sua desfiliação. Diferentemente da ex-prefeita de São Paulo, que deve se filiar ao Psol enquanto tenta criar um novo partido, o Raiz, Roberto Amaral afirma que não pretende aderir a nenhuma sigla no momento.

Os conflitos dele com o partido se acentuaram após o primeiro turno da eleição presidencial de 2014. Próximo ao PT, Amaral renunciou ao comando do PSB quando a legenda decidiu apoiar o tucano Aécio Neves no segundo turno. “O pior de tudo é que essa decisão esdrúxula afigurou-se como um desdobramento natural do que vinha sendo a política partidária”, criticou na carta. Ele defendia o apoio a Dilma.

Sucedido por Carlos Siqueira, defensor da aliança com o PSDB, Roberto Amaral foi alijado das decisões do partido. Na semana passada, Siqueira anunciou que o PSB deixava a posição de independência para se assumir como oposição ao governo Dilma no Congresso e defendeu a realização de novas eleições presidenciais. Foi a gota d’água para Amaral. “Decaído ideologicamente, o PSB se alia ao projeto elitista, e agora também golpista, que sempre combatera”, atacou o ex-presidente do partido. Roberto Amaral foi ministro de Ciência e Tecnologia em 2003 e 2004.

Mesmo fora do governo, ele sempre demonstrou simpatia pelo PT e contrariedade com a aproximação com o PSDB, defendida pelo vice-governador de São Paulo Márcio França, eleito na chapa de Geraldo Alckmin (PSDB).

Veja a íntegra da nota de despedida de Roberto Amaral:

Aos militantes do Partido Socialista Brasileiro

Prezada amiga e prezado amigo:

Dirijo-me a vocês pela última vez como militante do Partido que tenho o orgulho de haver ajudado a reorganizar-se, e a cuja construção dediquei três décadas da minha vida.

Despeço-me da legenda para poder continuar defendendo o socialismo e sua proposta de fazer de nosso país uma nação soberana, desenvolvida e socialmente inclusiva. O Partido que ajudei a refundar-se em 1985 era o PSB herdeiro da Esquerda Democrática, fundado em 1947 por João Mangabeira para empunhar a bandeira do socialismo com liberdade.

Em 1985 éramos poucos, meia dúzia de intelectuais movidos por uma convicção ideológica: vencida a ditadura, findara com ela o papel dos partidos-frente, abrindo caminho para os partidos programáticos. A História dizia que podíamos ter no Brasil um partido socialista e democrático, e nos entregamos a essa faina. Já naquele ano vestibular disputávamos as eleições municipais e em 1986 elegemos nossos primeiros deputados. No comando, liderando-nos, o senador Jamil Haddad  que, num desprendimento de que só são capazes os socialistas de boa cepa, dedicava seu mandato à construção partidária.

Os fados, sempre generosos comigo,  presentearam-me com a missão de convidar Evandro Lins e Silva (que vinha da Esquerda Democrática e do PSB de Mangabeira), Jamil Haddad (deputado socialista cassado pelo o regime militar), Evaristo de Morais Filho, o grande advogado de perseguidos políticos,  e Antônio Houaiss, militante socialista e diplomata cassado. Tive a honra de estar em todos os momentos seguintes ao lado de Jamil, que presidiu a Comissão Provisória após Antônio Houaiss, nosso primeiro presidente, e foi seu grande construtor até decidir, por extrema magnanimidade e invulgar desprendimento, passar o bastão a Miguel Arraes, que nos presidiria até sua morte.

A trajetória de nosso Partido, da refundação até agosto de 2014, foi muito difícil, e muito difícil foi a vida política. Ainda a braços com nossa organização, frágil, e arduamente lutando pela sobrevivência legal, enfrentamos desafios que pareciam superiores às nossas forças. Tivemos, porém,  atuação destacadíssima, pela esquerda, na Constituinte. Éramos poucos – é preciso lembrar as atuações de Jamil Haddad, Ademir Andrade, José Carlos Saboya e Raquel Capiberibe – mas conseguimos marcar a presença do pensamento socialista. Concomitantemente, exercemos corajosa oposição, sempre pela esquerda, ao governo Sarney, a lembrança da ditadura no Brasil redemocratizado.

Coube-me, em 1989, na companhia de Ronaldo Lessa  e Walteir Silva, convidar o governador Miguel Arraes, que acabara de anunciar suas divergências com a candidatura de Ulysses Guimarães, a ingressar no PSB. Sua filiação, sem condicionantes, valeu-nos, então, como o certificado da correção de nossa política. Nas memoráveis eleições daquele ano, fomos dos principais construtores da Frente Brasil Popular, e participamos da chapa majoritária com a indicação do senador José Paulo Bisol como vice de Luiz Inácio Lula da Silva.

Combatemos com firmeza o governo Collor e nos destacamos no seu impeachment. No Parlamento nossas vozes principais eram Jamil Haddad e José Paulo Bisol; no julgamento do ex-presidente no Senado Federal, eram nossos companheiros Evandro Lins e Silva e Sérgio Sérvulo os advogados da sociedade brasileira. Apoiamos a transição, participando do governo Itamar Franco com Jamil Haddad assumindo a pasta da Saúde e Antônio Houaiss a da Cultura.  Desse governo nos afastamos, a pedido e Miguel Arraes, quando Fernando Henrique Cardoso tomou para si  as funções de virtual primeiro-ministro e impôs uma política neoliberal, a mesma que em 2014 seria defendida pelo candidato do PSDB.

Disputamos, sempre no campo das esquerdas, apoiando a candidatura Lula, as eleições de 1994 e 1998. Crescemos política e eleitoralmente, obtivemos nosso registro definitivo e vencemos a ‘cláusula de desempenho’. Após havermos ousado entrar na disputa eleitoral com candidatura própria, em 2002, levando a cabo uma campanha à esquerda do espectro que então disputava as eleições, apoiamos a candidatura Lula no segundo turno e participamos de seus dois governos, integrando seu ministério, como apoiamos a candidatura de Dilma Rousseff em 2010 e participamos de seu governo até o momento em que decidimos disputar com ela, com candidatura própria, as eleições de 2014. Naquele ano, lançamos à liça nosso próprio presidente.

O projeto eleitoral do PSB, que ensejou ao povo brasileiro a possibilidade de alternativa de poder, foi, todavia, decepado pela tragédia conhecida. Nas circunstâncias, presidindo o partido, dediquei-me a conduzir a campanha eleitoral e lutar pela unidade partidária. É preciso pôr de manifesto, naqueles momentos difíceis, a grandeza e o sacrifício da companheira Luiza Erundina. Pondo em risco sua própria reeleição, mas pensando acima de tudo no coletivo, assumiu a dificílima coordenação de nossa campanha presidencial, quando o posto, em plena crise, foi abandonado pelo seu antigo titular.

A inevitabilidade da candidatura majoritária de Marina Silva criou a expectativa de  um projeto  eleitoral promissor, ao final desperdiçado, ao tempo em que aprofundava nossa crise ideológica, cuja fermentação, ressalte-se, não era recente, nem muito menos superficial. O caruncho da reação roía nossas entranhas sem que muitos se dessem conta, enquanto outros o alimentavam.

O grau de degradação ficou evidente quando o partido, no segundo turno do pleito de 2014, traindo seu programa, rasgando sua história, decidiu-se por apoiar o projeto da classe dominante. O pior de tudo é que essa decisão esdrúxula afigurou-se como um desdobramento natural do que vinha sendo a política partidária.

Decaído ideologicamente, o PSB se alia ao projeto elitista, e agora também golpista, que sempre combatera.

Combateram-no a vida toda nossos fundadores e seus continuadores, como João Mangabeira, Hermes Lima, Osório Borba, Domingos Vellasco, Antonio Cândido, Joel Silveira, Rogê Ferreira, Jamil Haddad, Antônio Houaiss, Evandro Lins e Silva. Combateram-no  nossos ícones Barbosa Lima Sobrinho, Francisco Julião, Miguel Arraes,  Pelópidas da Silva, Aurélio Viana, Jáder de Carvalho.

A crise ideológica mergulha o Partido, afinal, na crise ética.

Sem projeto, tentando seguir a direção dos ventos conforme sopram, o Partido de hoje negocia alianças eleitorais no varejo da pequena política; abriga quadros que em nada se aproximam das bandeiras da esquerda democrática. É esse PSB que agora tenciona navegar na onda da retomada do poder pelos derrotados nos pleitos de 2002, 2006, 2010 e 2014 – retomada que pleiteiam não pela via legítima do voto, mas pela escapadela espúria do golpe midiático-jurídico, que atropela direitos e garantias individuais, vilipendia a soberania popular e visa a deter a  emergência das massas.

Esse PSB de hoje nega o PSB histórico, aquele que lutou contra a ditadura do Estado Novo, defendeu o monopólio estatal do petróleo e a Petrobras, defendeu a posse (1951) e o governo Vargas que combatera eleitoralmente, defendeu a posse de JK (1955), combateu a tentativa de golpe de 1961 e defendeu o governo Jango, do qual participaria com a presença de João Mangabeira no ministério da Justiça. Esse PSB não se compadece do regresso social.

Estes nossos tempos são a hora da resistência e do avanço, e quando mais difíceis parecem ser as condições de luta – ante o avanço das teses do neoliberalismo e das forças de direita, em todo o mundo – maior  deve ser  nossa convicção de que o socialismo é a única alternativa para futuro da humanidade.

Despeço-me do PSB que se nega a si mesmo para manter-me coerente com minha vida. Faço-o de alma leve, certo de que escolho a melhor senda rumo ao futuro.

Vida longa à militância socialista!”

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