Estados retiraram obras da matriz da Copa do Mundo

Governo garante que, mesmo fora da lista que permite usar um trâmite mais rápido e possui linhas de crédito especiais, projetos devem ser concluídos. Para especialista, faltou planejamento ao Brasil

Em sete anos de preparação para a Copa do Mundo, a Matriz de Responsabilidade sofreu uma série de alterações. Na última, em novembro de 2013, 14 obras foram retiradas do documento, que representa o compromisso de cada cidade com projetos considerados imprescindíveis para o torneio. Dentre as obras retiradas da matriz, a maioria trata de mobilidade urbana. De acordo com o Ministério do Esporte, no entanto, nenhuma dessas obras deixará de ser concluída.

“As obras excluídas da matriz passam a fazer parte do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e serão entregues à população, pois são projetos, em sua maioria, já previstos pelo Poder Público para melhorar a infraestrutura e os serviços de transportes nas cidades”, explicou o órgão, por meio de sua assessoria.

Dentro da matriz de responsabilidades, as cidades e municípios não precisam responder às exigências da Lei das Licitações, podendo usar o Regime Diferenciado de Contratações (RDC), que possui um trâmite mais rápido e com menos exigências. Outro benefício são linhas de financiamentos especiais para o evento, com juros diferentes dos praticados em outras situações. Entre as obras retiradas da lista inicial, acabaram de fora o monotrilho da Linha 17 – Ouro, em São Paulo, orçada em R$ 2,8 bilhões, e a linha 1 do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), em Brasília. Como consequência, devem demorar a sair do papel.

Em Curitiba, por exemplo, as obras de requalificação de vias do corredor metropolitano, orçadas em R$ 130 milhões, acabaram de fora da matriz. Em Manaus (AM), a construção do monotrilho norte/centro, pelo valor de R$ 1,3 bilhão, também acabou de fora da lista final. Na capital do Mato Grosso ocorreu a mesma coisa. As obras do BRT entre o aeroporto e o Centro Político Administrativo (CPA) e da linha Coxipó/XCentro saíram da matriz. Juntas, custariam R$ 449 milhões.

Planejamento

Na opinião do coordenador do Laboratório de Gestão do Esporte, da Universidade de Brasília (UnB), Paulo Henrique Azevedo, faltou um planejamento maior ao Brasil. “Tudo que nós observamos de benefícios, de falhas e de impacto que a Copa está proporcionando se relaciona com gestão, uma atividade fundamental para esse tipo de evento. Nós temos problemas para fazer uma série de tarefas onde, inclusive, não faltam recursos”.

Azevedo cita a tentativa brasileira de sediar as Olimpíadas de 2000 como um exemplo do que poderia ter sido feito. Ele acredita que um grande projeto, com previsão de vários eventos esportivos ao longo dos anos, daria mais garantia aos comitês desses jogos e, também, ao próprio país, de que tudo sairia como o previsto.

“Para os jogos de 2000 não vingou, mas olha quanto tempo se passou. Poderíamos ter feito um projeto consistente para o Pan-Americano de 2007, para a Copa do Mundo e para as Olimpíadas [de 2016]. Se o país apresenta um projeto para 2007, já sinalizando que pretende pleitear eventos maiores, as chances de ganhar se ampliam. Além disso, fica muito mais fácil entender que é um projeto sério, plausível”, analisa o coordenador.

Paulo Henrique entende que um dos maiores legados da Copa é justamente a consciência da necessidade de investimentos em gestão, em planejamento a longo prazo. Para ele, os problemas ocorridos na preparação da Copa de 2014, pode ser um aprendizado para outro evento de grande porte que ocorrerá no país: as Universíades de 2019. “A equipe responsável por planejar as Universíades de 2019 deveria se reunir no começo de 2014 para tratar do evento. As coisas não podem acontecer quando a imprensa começar a pressionar, questionando se vai dar tempo. Não pode ser assim, na pressão. Tem que ser na organização”.

Azevedo acredita que o Brasil sairá fortalecido da Copa do Mundo e que a população não veria tantas melhorias em tão pouco tempo. “Obras de saneamento básico nas capitais, estrutura de transporte, aeroportos. Se não houvesse essa Copa, nós dificilmente estaríamos nos mobilizando e pressionando para a coisa acontecer”.

Obras

Essa opinião é compartilhada por gestores das cidades-sede, como o secretário estadual para Assuntos da Copa do Mundo da Bahia, Ney Campello. Ele explica que as obras do metrô de Salvador não estavam previstas na Matriz de Responsabilidade. O que havia era uma obra para 19km de Transporte Rápido por Ônibus (BRT), que saiu da matriz e foi substituído, no PAC, pelo metrô. “Não temos o metrô na matriz, mas a agenda do evento atuou acelerando esses projetos. Para a Copa teremos 7,5 quilômetros [km] de metrô funcionando, de uma malha metroviária total de 34 km”.

O secretário especial da Copa 2014 no Ceará, Ferruccio Feitosa, também crê que o estado não seria teria o volume atual de investimentos sem a Copa. “Um dos grandes legados do Mundial é acelerar o aporte de investimentos para Fortaleza e para o estado. Em ritmo normal, caso a cidade não tivesse sido contemplada como sede, o volume de recursos e a velocidade desse repasses seriam menores”.

Estádios

Cinco estádios estão entre as dez obras previstas na Matriz da Copa que apresentaram, em termos proporcionais, maior sobrepreço. O Beira Rio ocupa a terceira colocação nesse ranking, com um aumento de 153,8% em relação ao preço inicial, passando de R$ 130 milhões para R$ 330 milhões. Em sexto lugar está o estádio de Brasília; em sétimo o Arena da Baixada, em Curitiba, com um aumento de 77,1% (passando de R$ 184,5 milhões para R$ 326,7 milhões); em oitavo o Maracanã; e em décimo o Mineirão (63,1%), que passou de R$ 426,1 milhões para R$ 695 milhões.

Foram gastos até agora R$ 8 bilhões com as arenas. Em termos absolutos, a obra mais cara foi a construção do Estádio Nacional Mané Garrincha (R$1,4 bilhão), em Brasília. Há quatro anos, a previsão era que o estádio custaria R$ 745,3 milhões, um sobrepreço de 88,3%. Em segundo lugar, está a reforma do Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro (R$ 1,05 bilhão). Antes, a expectativa era que a obra fosse feita por R$ 600 milhões – sobrepreço de 75%.

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