Esquema mandou R$ 1 bi da Petrobras ao exterior

Preso desde março, doleiro Alberto Youssef operou 3.649 operações fictícias por meio de empresas de fachada. Para a Justiça Federal, o esquema é apenas parte do movimento de propinas no circuito de fornecedores de bens e serviços da estatal

Manchete de capa do jornal O Globo deste domingo (21) revela que mais de três mil operações cambiais fictícias, por meio de instituições financeiras de 24 países, resultaram no envio de US$ 444,6 milhões (cerca de R$ 1 bilhão) para o exterior, em transferências ilegais operadas via empresas de fachada pelo doleiro Alberto Youssef a partir de contratos da Petrobras. Segundo o jornal fluminense, a dimensão dos negócios de Youssef “surpreendeu peritos e promotores federais”.

“O dinheiro saiu do país sob o disfarce de contratos de comércio exterior. Foram 3.649 operações fictícias, realizadas por seis das suas empresas de fachada – três de informática e três de química. E, segundo a Justiça Federal, isso foi apenas parte do movimento de propinas pagas no circuito de fornecedores de bens e serviços da Petrobras. Durou cerca de 50 meses, de 2008 até março passado quando Youssef, Paulo Roberto Costa e mais duas dezenas de colaboradores foram presos”, informa O Globo.

O jornal detalha o mecanismo do golpe nos cofres da estatal engendrado pelo doleiro, cujos negócios “reais” eram raros. As bases do esquema, diz O Globo, eram “discrição e confiança”. Como demonstram as investigações, foi devido a esse tipo de procedimento que a Refinaria Abreu e Lima, por exemplo, alcançou custo final de R$ 20,1 bilhões, quando o orçamento original era nove vezes menor.

“O negócio funcionava assim: ao receber um pedido para transferência para uma conta específica em Toronto, no Canadá, Youssef forjava um processo de importação (‘Câmbio Simplificado’) entre duas das suas empresas – uma no Brasil (Labogen Labogen S.A. Química Fina e Biotecnologia) e outra registrada em Hong Kong (RFY Ltd). O cliente pagava em reais. Os dólares saíam da Labogen e chegavam à RFY, em Hong Kong. Na sequência, faziam escala em outras empresas, em outros países, até aportar na conta do beneficiário, indicada pelo pagador no Brasil”, arremata o jornal, acrescentando que a Indústria Labogen S.A. estava inativa há mais de duas décadas.

Tentáculos

A reportagem faz um breve histórico da trajetória de Yousseff, preso desde 17 de março e já condenado a quatro anos de prisão por corrupção ativa – ele subornou um executivo do banco paranaense Banestado, que fez operações ilegais com dólar nos anos 1990. O jornal lembra que, depois de uma temporada preso, Youssef deixou a cadeia em 2003, quando “se associou ao deputado federal José Mohamed Janene, de Londrina, líder da bancada do PP na Câmara”. Indiciado no caso do mensalão, Janene morreu em 2010.

“Janene personificava promessa de lucro com imunidade – administrava o caixa 2 do partido, na época recheado por R$ 2 milhões repassados pelo operador do mensalão, Marcos Valério. Além disso, integrava o condomínio de líderes partidários que partilhava o controle das áreas-chave das empresas estatais no governo Lula. [...] Quando foi enterrado no cemitério islâmico de Londrina, na terça-feira 14 de setembro de 2010, seus negócios com Costa e Youssef já estavam fracionados entre caciques do PP, do PT e do PMDB”, acrescenta o jornal, lembrando que Youssef “foi decisivo” para alçar Paulo Roberto Costa, que está em processo de delação premiada, à diretoria de Abastecimento da Petrobras, no governo Lula.

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