Erundina: “A sociedade quer mudança”

Deputada diz que decisão de renunciar a candidatura a vice em São Paulo tem significado e caráter pedagógico. Ela foi a segunda mais votada pelos jornalistas na primeira fase do Prêmio Congresso em Foco

Indicada pelos jornalistas entre os melhores parlamentares do ano em todas as seis edições anteriores do Prêmio Congresso em Foco, a deputada Luiza Erundina (PSB-SP) teve este ano seu melhor desempenho na primeira fase da premiação. Segundo nome mais votado na Câmara, ficou atrás apenas de Chico Alencar (Psol-SP). Obteve 64 votos, o dobro dos 32 dados a ela no ano passado. Participaram da votação 186 jornalistas que cobrem as atividades da Câmara e do Senado.

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A ex-prefeita avalia que a decisão de abrir mão da candidatura a vice de Fernando Haddad (PT) à prefeitura de São Paulo como protesto à aliança com o deputado Paulo Maluf influenciou na votação dos jornalistas.

Um gesto que, segundo Erundina, tem um “significado” e um caráter pedagógico.  “Significa que a sociedade quer mudança. O fato de assumir determinados gestos na vida pública tem um impacto na opinião pública, na consciência coletiva, que se expressa por manifestações de aprovação ou rejeição. Isso mostra que o nosso sistema político partidário precisa mudar.”

De acordo com o boletim parcial divulgado ontem (20), Erundina era também a segunda colocada entre os deputados na votação dos internautas. Coordenadora da Frente Parlamentar pela Liberdade de Expressão e o Direito à Comunicação com Participação Popular, a deputada também concorre na categoria de defesa da inovação tecnológica.

Leia a íntegra da entrevista de Erundina:

Congresso em Foco – A senhora foi incluída entre os melhores parlamentares pelos jornalistas em todas as edições do Prêmio Congresso em Foco. A que a senhora atribui esse reconhecimento?
Luiza Erundina -
A gente se empenha para corresponder à expectativa da sociedade, não só em relação à atuação parlamentar, mas em relação à política como um todo. Aquilo que a gente faz, as posições que assume, tudo isso expressa o compromisso que o mandato pressupõe. Temos uma responsabilidade enorme, inclusive do ponto de vista pedagógico.

A senhora nunca recebeu tantos votos dos jornalistas quanto nesta edição. Foram 64 contra 32 do ano passado. A senhora atribui essa votação expressiva à sua decisão de recusar a indicação como vice na chapa de Fernando Haddad (PT) à prefeitura de São Paulo logo após o presidente Lula fechar um acordo em torno da candidatura do petista com o deputado Paulo Maluf?
Com certeza. Essa foi uma decisão suprapartidária. Sou abordada pelas pessoas onde quer que eu vá por causa dessa decisão. Aquele gesto tem um significado. Significa que a sociedade quer mudança. O fato de assumir determinados gestos na vida pública tem um impacto na opinião pública, na consciência coletiva, que se expressa por manifestações de aprovação ou rejeição. Isso mostra que o nosso sistema político partidário precisa mudar. A sociedade reprova esse sistema de alianças, porque ele não é correto, não passa confiança. Como um governo pode ser formado por forças tão antagônicas? Como entender que essas forças estão apoiando determinado candidato e que, depois da eleição, elas não vão exercer o poder? Como é possível passar confiança? Um governo de coalizão não tem autonomia, tem de ouvir representantes dessas forças. Essas figuras como o Paulo Maluf vão abrir mão do direito de influir nesses governos?

Como mudar esse cenário então?
Temos muita coisa a fazer, temos de mobilizar a sociedade para promover a reforma política. Isso só ocorrerá com muita pressão externa. O Congresso não tem interesse em fazer a reforma política. Cada deputado tem uma reforma política na cabeça. O critério é o que é bom para eu me reeleger na próxima eleição. O quadro partidário está exaurido. Eles se anulam pela absoluta falta de identidade. Como justificar a existência de 30 partidos? Isso virou um negócio para ter recursos do fundo partidário. A política está muito rebaixada. Temos de viabilizar essas propostas e exigir dos governos que têm maioria no Congresso que ajudem nisso. Todos afirmam no discurso de abertura do Congresso que a reforma é prioridade, mas não acontece nada. A cada legislatura temos a sensação de que piorou.  Virou profissão que passa de pai para filho. Basta ver os sobrenomes dos que chegaram por último.

Mas a senhora vê chance de mudança desse cenário?
Sou realista do ponto de vista que este é o quadro. Se não tivermos clareza até para definir estratégia de mudança desse quadro, vamos ter de ficar toda eleição chorando o leite derramado. Não podemos continuar sem mecanismo de revogação popular do mandato. É preciso educação política. A política tem dimensão pedagógica. Os partidos tinham de educar, fazer isso de forma pedagógica e educativa. Havia partido na história recente deste país que tinha a preocupação de formação política em seus quadros. A filiação de um membro passava por um processo muito forte de validação por quem estava no partido. Hoje as campanhas de filiação são feitas por outdoor. Quando alguém me procura para se filiar, logo dou o regimento do partido. Digo: leia e veja se está de acordo. Sem isso, os partidos são só letras que se juntam.

Esse apoio de Maluf a Haddad pode prejudicar a candidatura do petista?
Ainda mais pela forma que foi. As pessoas ficaram muito impactadas e revoltadas. Isso está criando dificuldade para o candidato. Estou procurando ajudar, fazendo nossa parte. Participei da grande plenária em que manifestei meu apoio à candidatura do Haddad. Isso significa o compromisso dessa candidatura com esses compromissos. Não podemos ficar assistindo. Estou com agenda na periferia. Estamos levando discussões suprapartidárias. Quando você discute política não deixa de discutir conjuntura política e eleitoral. Pretendo cobrir todas as regiões com plenárias, para discutir a cidade, como a gente pensa o futuro governo para a cidade, ouvir da população quais são as dificuldades, os problemas que elas encontram na região. Temos de fazer já uma campanha com participação popular e discutir os impasses.

A senhora ficou decepcionada ao ver a foto do ex-presidente Lula com Maluf?
Foi uma decepção. A foto só ampliou o gesto, a presença do Lula na casa do Maluf, almoçando com ele, junto com o presidente nacional do partido, o candidato e as pessoas ligadas ao Maluf... O impacto não foi pela aliança com o PP, até porque os dois partidos já estão juntos em vários lugares, mas esse caso assumiu um grande simbolismo.

Por quê?
Porque não foi a aliança com o PP, mas com o Maluf. E houve barganha: o Maluf exigiu a secretaria de Habitação, que tem obras, no governo do Geraldo Alckmin em troca de apoio à candidatura do José Serra. Como o Alckmin se negou a dar a secretaria, ele veio para o Haddad. A presidenta Dilma deu para o Maluf uma secretaria nacional (a Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental do Ministério das Cidades) com mais recursos orçamentários. Foi pago para que o Maluf se coligasse com o PT. Ele exigiu que o Lula fosse lá. Imagino que o Lula deve ter tido suas razões para ir lá. Mas foi um grande equívoco.

O que está por trás desse equívoco?
Isso está muito confuso. A lógica é baseada no tempo eleitoral na TV e no rádio. É simplificar muito o processo achar que tudo só começa com o programa eleitoral. É supervalorizar um dos meios. Achar que, por 1 minuto e 35 segundos a mais no rádio e TV, justifica-se o apoio do Maluf é um grande equívoco.

A senhora falou do caráter “pedagógico” da política. Como a senhora vê essa relação das novas gerações com a política diante de um cenário de alianças políticas cada vez mais confusas?
Eu me preocupo com os jovens, porque a relação deles com a política é cada vez mais distante. Há uma incompreensão da política em razão do comportamento de certos parlamentares que distorcem o sentido da política. Temos de pensar na renovação das lideranças. Somos contingentes, nós passamos. É preciso renovar os quadros políticos e reforçar, com o nosso comportamento, a importância que a política tem em qualquer sociedade. Não existe sociedade democrática sem representação, não existe sociedade sem governo. A política tem simbolismo para o bem e o para o mal. Tenho grande preocupação com isso. Paulo Freire costumava dizer que eu era mais educadora do que política. Depois, ele mesmo se corrigiu. Disse que eu era mais uma educadora política.

A indicação dos jornalistas do seu nome entre os melhores parlamentares do ano, pela sétima vez seguida, reforça esse compromisso de “educadora política”?
Ter essa avaliação de profissionais qualificados, que veem de perto o que acontece nas instituições, nos leva a reafirmar o compromisso com o mandato, os interesses da sociedade e a democracia. É um estímulo para continuar me empenhando e me dedicando. Esse prêmio tem sido uma manifestação do reconhecimento do meu trabalho. Representa também uma necessidade de me renovar ainda mais a cada mandato, a cada sessão legislativa, durante a qual a gente é avaliada.

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