Em debate, especialistas defendem reformas estruturais em Brasília

Evento que marcou o lançamento da página de Brasília do Congresso em Foco reuniu professores, alunos, parlamentares e membros da sociedade. Chegou-se à conclusão que a cidade precisa de mudanças nas esferas eleitoral, econômica e urbanística

 

 

Marcado pelo lançamento da seção de Brasília do Congresso em Foco, o debate sobre os novos desafios da cidade foi marcado pelo clamor por reformas eleitoral, urbana e econômica. Devido à alegada falta de representatividade da Câmara Legislativa, o cientista político Leonardo Barreto aconselhou que a população tenha coragem para propor novos modelos eleitorais. Segundo Barreto, o sistema atual está falido. Entre as sugestões apresentadas por ele está a possibilidade de criação de partidos políticos com atuação restrita a Brasília, mudanças na forma de eleição dos deputados distritais e uma reforma radical da Câmara Legislativa.

Em sua exposição, o cientista político lembrou o envolvimento de diversos políticos de Brasília em escândalos recentes, como os ex-governadores José Roberto Arruda e Paulo Octávio e os ex-senadores Luiz Estevão, Gim Argello e Joaquim Roriz. Leonardo Barreto lembrou que houve luta política para garantir à capital do país, ainda nos anos 80, autonomia política.

Na área econômica, onde não só o Distrito Federal, mas todo o país tem sofrido com ajustes, o economista José Luiz Pagnussat destacou que o maior desafio da capital é a criação de oportunidades no mercado de trabalho. As diferenças entre o número de desempregados em regiões mais desenvolvidas em relação às periferias da cidade impressionam. Enquanto bairros nobres como os Lagos Sul e Norte e as Asas Sul e Norte apresentam 7% de desemprego, nas cidades metropolitanas os índices chegam a 22%.

“Nós temos o pior índice de concentração de renda do Brasil e o maior índice de desenvolvimento humano, que se compara aos melhores do mundo. Essa disparidade entre as nossas regiões administrativas demonstram desigualdade renda. Nós temos uma renda média salarial que varia de R$ 2 a R$ 16 mil”, explicou Pagnussat.

Com relação às dificuldades urbanísticas da cidade, o Coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo do UniCEUB, o professor José Galbinski criticou a falta de planejamento urbano de Brasília e a necessidade dos governantes em se gastar muito dinheiro em iniciativas que dão pouco retorno à população. Como exemplo, Glabinski trouxe a Ponte JK, que liga o centro da cidade às últimas quadras do Lago Sul, que era para custar R$ 48 milhões, foi concluída com mais de R$ 180 milhões; e o Estádio Nacional Mané Garrincha, considerado a segunda mais cara arena do mundo, com custo estimado em R$ 1,7 bilhão.

Galbinski apontou a concentração urbana e econômica como um dos principais desafios do Distrito Federal. “Desde 1981 digo que Brasília precisa iniciar um processo de desconcentração concentrada. Uma desconcentração das atividades do Plano Piloto que, desde aquela época e sempre, tem um volume exagerado de oferta de emprego. É só ir de manhã para ver o que acontece na Estrutural e na EPTG (duas das principais vias de acesso do DF), uma verdadeira massa de veículos que vêm pra cá trabalhar”, defendeu o professor.

O evento

O debate foi marcado pela presença não só de especialistas, mas de alunos, parlamentares e brasilienses interessados em discutir os rumos da cidade nos próximos anos. Na página de Brasília, segundo o fundador do Congresso em Foco, Sylvio Costa, os leitores podem esperar uma visão de Brasília como cidade. “A ideia não é passar uma visão nossa, mas dar espaço para a cidade. Ouvir e dar voz às pessoas de Brasília”, afirmou Sylvio.

Para o poeta Nicolas Behr, que é um dos colunistas da nova seção do site, “Brasília é o símbolo da capacidade de realização do brasileiro. Somos a prova viva de que é possível criar”. Segundo o colunista, é possível enxergar na cidade um retrato do Brasil real: “Centro rico e periferia pobre. Brasília é assim”. “Por ser uma cidade em permanente construção, temos que cuidar dela, discuti-la e apreciá-la”, concluiu.

Já a estudante de Direito do UniCEUB, Sophia Teodoro, elogiou a iniciativa do debate que, para ela, é a principal saída para a crise. “A melhor maneira de fazer política é assim: debatendo. No Distrito Federal, por não termos eleições municipais, o debate político restringe-se praticamente a períodos específicos a cada quatro anos. Antecipar este diálogo e mantê-lo de forma permanente é um dos principais benefícios deste tipo de iniciativa”, ponderou.

Parlamentares

A deputada federal Érika Kokay (PT-DF), o distrital Chico Leite (Rede) e o ex-senador Adelmir Santana, atual presidente da Fecomércio-DF, também marcaram presença. Kokay defendeu que é “essencial pensar, repensar e discutir Brasília”. Cobrou, ainda, mais participação da sociedade nas discussões políticas. “Nossa democracia representativa está com um nível de precariedade muito intenso. Precisamos transformá-la em uma democracia participativa”, observou a petista.

O pleito de Kokay foi encampado por Chico Leite, que criticou a cultura política brasileira – segundo ele, “fincada em negócios”. Por outro lado, afirmou que a saída não é fugir do debate, mas usar a democracia em favor do povo. “A pior das decisões é se ausentar do debate e se abster de apresentar suas opiniões”, afirmou.

Em contrapartida, Adelmir Santana lembrou que iniciativas da sociedade nem sempre são bem vistas pelos governos. Segundo o ex-senador, a Fecomércio apresentou no início da gestão de Rodrigo Rollemberg e Renato Santana à frente do Governo de Brasília uma lista de reivindicações e estudos produzidos pela Federação. “Nada foi feito”, concluiu Santana.

O evento de lançamento da seção de Brasília do Congresso em Foco contou com o apoio do UniCEUB e da Fecomércio. Acompanhe as notícias em www.congressoemfoco.uol.com.br/brasilia

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