Eleita quer defender interesses dos italianos na América do Sul

Primeira brasileira nata a ocupar uma vaga no Legislativo da Itália, Renata Bueno qualifica política italiana como conservadora pela baixa representação feminina no Parlamento

Filha do líder do PPS na Câmara, Rubens Bueno (PR), a advogada Renata Bueno sabe que passará por um período de adaptação. Mesmo tendo passado dez anos na Itália, a ex-vereadora em Curitiba entre 2009 e 2012, antecipa que precisa de um período de aprendizado pelas características da política italiana – ainda mais em tempos de crise interna e externa, com a União Europeia enfrentando a pior conjuntura econômica de sua história.

Brasil terá três representantes no Parlamento da Itália

“Estou muito feliz, é uma emoção fantástica. Até porque é uma história importante de ser a primeira brasileira eleita para o Parlamento Italiano. Nunca tivemos um brasileiro com dupla cidadania que exercesse essa função. É um momento importante para o Brasil”, festejou, sem descartar a Presidência da República do Brasil. “Quem sabe, no futuro? Independentemente de ser eleita ao Parlamento Italiano, estarei falando sempre em nome do Brasil.”

Curta o Congresso em Foco no Facebook
Siga o Congresso em Foco no Twitter

Garantindo conhecer bem a realidade sócio-político da Itália – é dirigente do Partido Democrático Italiano há dez anos –, Renata disse que poderá participar de praticamente todas as decisões do plenário italiano, e que será “uma deputada como todos os demais”. “As atividades vão ser plenas”, declarou. “Mas, obviamente falando em nome do Brasil e da América do Sul”, acrescentou a ex-vereadora do PPS, lembrando que, na ponte aérea Brasil-Itália, a rotina será “um pouco complicada”. “Terei de estar presente em sessões de plenário, mas também não posso deixar a base aqui. Vou ter de ficar indo e vindo.”

Dizendo-se feliz pela eleição da filha, Rubens Bueno disse à reportagem que, por mais que filha e os demais eleitos estejam preparados para o desafio, a conjuntura político-econômica da Itália – e da Europa – será apenas um dos obstáculos pelo caminho. “Não bastasse isso [a crise financeira], ainda há o impasse político gerado pela eleição”, observa o deputado, em referência ao racha ideológico resultante das eleições de fevereiro.

Confira a íntegra da entrevista:

Por que fazer política na Itália, e não no Brasil?
Quando a gente tem a veia política e veia italiana, a gente leva para qualquer lugar. Eu tive um grande trabalho na Itália, há quase dez anos, na área de universidades e projetos internacionais, e acabei me apaixonando pelo país, por toda essa história que gerou a imigração italiana no Brasil e em toda a América do Sul. E acabei conhecendo bem todo esse processo. Então, como a Itália abre essa prerrogativa de eleger outros parlamentares de fora de seu país, acabei me envolvendo nessa política justamente porque somo o amor pela política e o amor pela Itália. De qualquer forma, representando o Brasil – isso é importante salientar, porque a gente falará sempre em nome do Brasil. Não deixamos de fazer a política local, pelo contrário, abrimos as portas para fazermos política internacional em nome do nosso país.

Como se deu esta indicação para o Parlamento Italiano?
Por meio de uma lista cívica, que é um movimento local da América do Sul que se chama USEI – União Sulamericana de Imigrantes Italianos [Unione Sudamericana Degli Emigranti, na sigla original]. A Itália permite esses movimentos cívicos, que são muito fortes e tradicionais nas candidaturas independentes. Inclusive o antigo comunismo italiano já trazia isso, uma tradição de candidatos intelectuais, de formadores de opinião com candidaturas independentes. A minha é uma candidatura independente por essa lista, que é organizada aqui na América do Sul para defender os interesses dos italianos que aqui estão.

Suas propostas enfatizam a importância da interação entre Brasil e Itália, e deste país europeu face ao resto do mundo. Nesse sentido, os escândalos do premiê Silvio Berlusconi enfraqueceram a Itália perante as demais nações?
Claro. Eu acompanhei e acompanho todos esses episódios da política lá, principalmente em referência à política interna. Realmente, foi uma fase difícil que passou, não só de Berlusconi, mas de crise econômica. Mas a Itália é um país muito importante, não só dentro da Europa, mas importante no mundo. E acho que esta eleição agora é fundamental justamente para resgatar essa autoridade, e essa força italiana perante o mundo. E é por isso que eles prezam tanto pelos seus descendentes espalhados pelo mundo, prezam tanto pela diplomacia. Foi a Itália que inventou tudo isso, já desde a fundação da Cidade de Roma em 750 a.C. Então, a questão de civilização e da relação com o resto do mundo faz parte do DNA italiano. A gente sabe que tem total potencial para recuperar essa autoridade e, sem dúvida, estabelecer muito mais força entre Itália e Brasil. E resgatando não só a aliança entre os dois países, mas também com a América do Sul e a Europa.

Como avalia a gestão da presidenta Dilma Rousseff, a primeira mulher no comando do Brasil?
Acho que a figura feminina é sempre importante, há relevância nessa gestão. Agora, é claro que a gente não concorda com uma série de atos, e com a própria forma com que eles conduzem o governo. Não é aquilo que o PPS espera, imagina e debate para uma política nacional.

Na Itália o espaço feminino na política é tão reduzido quanto no Brasil?
Acho que o machismo está impregnado de forma geral na política. Nosso próprio modelo de representatividade ainda é muito conservador. A mulher, naturalmente, sofre um pouco desse preconceito. A Itália tem ainda mais essa mentalidade conservadora. Nós temos ali uma maioria de senhores, pessoas mais velhas. Para você ter uma ideia, na minha chapa eu sou a única mulher, e muito mais nova do que todos os demais. É pequena participação feminina na política italiana, e muito menor a participação de jovens. Então aí a gente já percebe o quão conservador é o ambiente político italiano. Agora, a legislação italiana tem uma defesa boa da “cota rosa”, como eles chamam a participação das mulheres não só na política, mas em qualquer setor. No mercado de trabalho existe essa reserva para as mulheres. Acho que ainda tem uma mentalidade conservadora, mas já sob uma pressão para que se abra essa participação mais efetiva das mulheres.

Sente-se preparada para enfrentar esse cenário político conservador?
Para mim é sempre um prazer falar em nome das mulheres. E esse é um desafio muito grande para mim, e que me incentiva muito a lutar, a conquistar esses espaços. Um dos grandes desafios para mim é justamente ser mulher e ser jovem, e com um certo preparo também.

Você considera a ideia de um dia tentar a Presidência da República aqui no Brasil?
Ué... Quem sabe? Se assim for a demanda... Por que não? O mundo hoje está ligado de todas as partes. Então, não importa se estou fazendo política italiana; eu estou fazendo uma política para o mundo e em nome do Brasil. Estou podendo, inclusive, fazer uma campanha pelo Brasil, rodando as principais capitais, andando em vários lugares. Estou saindo agora de Montevidéu e indo ao interior do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Outro dia eu brinquei com amigos meus dizendo que estava em campanha presidencial. Quem sabe, no futuro? Independentemente de ser eleita ao Parlamento Italiano, estarei falando sempre em nome do Brasil e, com certeza, me posicionando politicamente no nosso país.

Continuar lendo

Assine e obtenha atualizações em tempo real em seu dispositivo!