Doadores preferem quem tem mais chance, diz cientista político

Regra do financiamento privado de campanha é botar dinheiro em quem aparece com destaque nas pesquisas ou disputa a reeleição, afirma analista

O elevado índice de sucesso, parcial ou total, dos candidatos a prefeito nas capitais remete a um questionamento: elegem-se os concorrentes que arrecadam mais ou arrecadam mais os postulantes com mais chances de eleição?

Para o cientista político José Luciano Dias, as duas premissas se confundem. “A regra do financiamento de campanha é botar dinheiro em quem tem mais chance. Há uma tendência de o doador ser mais favorável a quem tem mais chances de se eleger”, explica o ex-professor da Universidade de Brasília (UnB).

Segundo ele, esse é um “problema menor”, característico do modelo de financiamento privado de campanha. “Isso é inevitável. Nos Estados Unidos também é assim. Se os democratas estão fora do governo, têm dificuldade para arrecadar, por exemplo”, destaca José Luciano.

Como mostrou o Congresso em Foco, dos 26 candidatos a prefeito nas capitais que mais haviam arrecadado, 20 despontavam na liderança nas pesquisas realizadas semana passada. O mesmo ocorria com cinco dos oito prefeitos que buscavam a reeleição.

"Esse é um problema de menos importância do que parece. É razoável o financiador apostar mais em quem tem mais chances, da mesma forma que o eleitor não quer desperdiçar seu voto. É como uma Maria vai com as outras. Problema mesmo quem tem é quem fez campanha cara e não conseguiu se eleger. Vai ter de pagar muita dívida”, observa o cientista político.

Financiamento público

Na avaliação dele, o cenário só seria diferente se o país adotasse o modelo de financiamento exclusivamente público de campanha, o que permitiria uma distribuição mais equilibrada dos recursos públicos. Nesse cenário, aponta José Luciano, haveria outra disputa além da eleitoral. “O problema do financiamento exclusivamente público não é dar dinheiro para campanha, mas a regra da distribuição dos recursos. Hoje já temos o financiamento público, que é o Fundo Partidário. Não é à toa que temos mais de 30 partidos políticos no Brasil, virou negócio.”

O cientista político diz ver com curiosidade como os financiadores de campanha vão atuar em São Paulo neste segundo turno, numa das eleições mais acirradas da história da capital paulista: “Os financiadores em São Paulo vão ficar desesperados. Em quem investir: no candidato que tem apoio dos governos estadual e municipal ou no candidato do governo federal?”.

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