Dívidas das cidades e rigor fiscal afastam parlamentares das campanhas municipais

Número de parlamentares federais candidatos nas eleições municipais cai 10% em relação ao pleito de 2012. Desta vez, 81 deputados e apenas dois senadores participam da disputa

O elevado endividamento das prefeituras e o constante risco de descumprir a Lei de Responsabilidade Fiscal. Estas são as principais razões apontadas por deputados e senadores para justificar diminuição do interesse de parlamentares pelas eleições municipais deste ano. No pleito de outubro, 81 deputados e apenas dois senadores decidiram disputar aos cargos de prefeito e vice-prefeito de capitais e municípios do interior, uma redução de 10% e comparação com o grupo que concorreu em 2012.

Levantamento feito pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) mostra que os três partidos com as maiores bancadas no Legislativo são os mais interessados nos executivos municipais. O PMDB tem 13 nomes, seguido pelo PT, com 10. O PSDB escolheu 8 deputados nas convenções municipais da semana passada para o cargo majoritário e um aceitou a vaga de vice, a de Bruno Covas, em São Paulo (veja o quadro).

O maior interesse dos deputados é pelas eleições nas capitais. Nestes centros existe a maior concentração de eleitores do Estado e o prestígio do prefeito é equivalente ou maior do que deputados ou senadores. Além disso, se eleitos nestes municípios, os parlamentares poderão usar a gestão como trampolim para uma candidatura ao governo estadual em 2018. Rio de Janeiro, São Paulo e Manaus são as capitais que despertam maior interesse dos parlamentares, como mostra a tabela.

Para administrar o Rio, cidade que tem 4,8 milhões de eleitores, o segundo colégio eleitoral municipal, os cariocas terão um cardápio com cinco deputados, além do senador Marcelo Crivella (PRB). Com a maior população urbana da América Latina, os 8,8 milhões de eleitores paulistanos vão escolher o novo gestor entre quatro deputados e a senadora Marta Suplicy, que já foi prefeita pelo PT e disputa agora pelo PMDB. O petista Fernando Haddad concorre à reeleição.

Em Manaus cinco deputados querem gerir a cidade onde funciona a Zona Franca. Vão tentar vencer o bem avaliado prefeito Arthur Virgilio (PSDB), que concorre à reeleição. Virgílio já foi deputado, senador, ministro e decidiu cuidar de assuntos locais. Em Belo Horizonte quatro deputados federais e um estadual disputam o posto que Marcio Lacerda, do PSB, ocupa por dois mandatos e não pode mais concorrer. A capital mineira tem 1,9 milhões de eleitores e é uma boa vitrine para quem sonha com postos mais poderosos. “Deixar de ser deputado para virar prefeito de capital sempre vale a pena por causa do prestígio político”, diz o deputado Julio Cezar (PSD-PI), coordenador da Frente Parlamentar Municipalista.

Julio Cezar lembra que trocar o Legislativo - em que o deputado ou senador só se responsabiliza pela gestão das finanças do próprio gabinete e tem direito a frequentes discursos com transmissão ao vivo pela TV -  pela administração das cidades pode ser perigoso. O deputado já foi prefeito de Guadalupe no final de década de 1970 e alerta para os riscos impostos pelos limites da Lei de Responsabilidade Fiscal, que deixa os prefeitos sem orçamento para fazer obras - até mesmo as pequenas - por causa do elevado custo com salários. Com a exigência da lei que obriga os reajustes salariais dos funcionários pelo menos pela inflação, o orçamento municipal termina comprometido e a LRF descumprida.

Na Bahia, por exemplo, a contabilidade de metade dos 417 municípios ultrapassou os limites da LRF por causa dos reajustes obrigatórios dos salários. Mesmo assim, o deputado baiano Bebeto (PSB) resolveu concorrer a prefeito de Ilhéus. A cidade deve R$ 5,8 milhões ao Tesouro Nacional e outros R$ 1,2 milhão a bancos públicos. Parece pouco, mas o município não pode quitar as dívidas porque está no limite do gasto com folha de pagamento e não sobra orçamento para outras obrigações.

Em 2009 a dívida total dos municípios era de R$ 22 bilhões. Em dezembro de 2011 pulou para R$ 62 bilhões. Seis anos depois o endividamento só cresce.  Nas capitais, o endividamento é proporcional ao prestígio do cargo e ainda atrai parlamentares. Uma eleição em um grande centro urbano no meio do mandato legislativo pode ajudar o congressista a voltar à Câmara ou ao Senado.

As capitais mais cobiçadas são os melhores exemplos do aperto financeiro de qualquer cidade. Segundo informações do Banco Central, até maio, São Paulo, por exemplo, devia R$ 29,4 bilhões. Desse total, R$ 1,6 bilhões são débitos com bancos públicos – BNDES, Banco do Brasil e Caixa – e outros R$ 71,1 milhões com empresas públicas que fornecem serviços como água e energia. O restante da dívida é com o Tesouro Nacional. “São Paulo precisa racionalizar os gastos antes de projetar novas obras”, diz o deputado-candidato Celso Russomanno (PRB).

A dívida do Rio de Janeiro ultrapassa os R$ 13 bilhões. Metade com o Tesouro e o restante com bancos federais e empresas públicas. O endividamento de Belo Horizonte é de R$ 2,2 bilhões.  Na lista das capitais preferidas, Manaus tem uma dívida de R$ 196 bilhões. Mesmo com a dificuldade, cinco deputados querem administrá-la.

A deputada Alice Portugal (PCdoB-BA) não se intimidou com a dívida de R$ 40 bilhões e se lançou candidata em Salvador e quer disputar com o favorito ACM Neto, que concorre à reeleição. Neto era deputado em 2012 quando concorreu pela primeira vez. Alice admite que, se ganhar, terá dificuldades financeiras para adequar a gestão com as necessidades sociais. Mas tem uma motivação extra: “Na campanha vamos denunciar a oligarquia carlista”, diz a parlamentar em referência ao termo usado para identificar o antigo grupo do falecido senador Antônio Carlos Magalhães.

A mesma motivação política de Alice levou a deputada Luiziane Lins (PT) a tentar ser novamente prefeita de Fortaleza. Até hoje ela responde a três processos no Tribunal de Contas do Estado em função de contas ainda não aprovadas da sua primeira gestão, entre 2009 e 2012. A parlamentar garante que suas contas estão em ordem e não se intimida com o endividamento atual do município, de R$ 248 bilhões. “Minha militância política é uma opção de vida, para tentar melhorar a vida das pessoas”, explica Luiziane. A deputada também decidiu disputar as eleições para tentar resgatar a imagem ruim do PT depois das crises do mensalão, petrolão e do impeachment.

A motivação política também levou o deputado Max Filho (PSDB-ES) a tentar novamente ser prefeito de Vila Velha, maior colégio eleitoral do Espírito Santo e segunda maior população capixaba. Entre 2001 e 2008 Max foi o prefeito da cidade onde tem sua principal base eleitoral como parlamentar e saiu bem avaliado. A dívida de Vila velha é R$ 39 bilhões com o Tesouro e bancos públicos e será um desafio para o deputado. “A cidade tem um cenário desolador do ponto de vista da gestão. Não pude me omitir”, explica Max.

Previsões sombrias

A crise econômica anuncia mais dificuldades para os futuros prefeitos. Segundo dados do Tesouro Nacional, no primeiro semestre houve uma queda de 6% na arrecadação geral de impostos. A consequência será um encolhimento proporcional nos repasses do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), única fonte de renda de grande parte das cidades, principalmente na região Nordeste, e composta pela arrecadação do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e Imposto de Renda.

Os futuros prefeitos também não vão poder contar com a generosidade do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), responsável pelo maior volume de financiamento de obras de infraestrutura para as cidades. Relatório da instituição mostra que a média de empréstimos mensais para os 5.568 municípios foi de R$ 16 bilhões em 2014, mas entre janeiro e junho deste ano este valor caiu para R$ 6 bilhões.

DEPUTADO OU SENADOR PARLAMENTAR PARTIDO UF MUNICÍPIO
Deputado Abel Mesquita DEM RR Boa Vista
Deputado Adalberto Cavalcanti PTB PE Petrolina
Deputado Alessandro Molon REDE RJ Rio de Janeiro
Deputado Alex Manente PPS SP São Bernardo do Campo
Deputado Alexandre Vale PR RJ Itaguaí
Deputada Alice Portugal PCDOB BA Salvador
Deputado Aliel Machado REDE PR Ponta Grossa
Deputado Anderson Ferreira PR PE Jaboatão dos Guararapes
Deputado Angelo Albino PCDOB SC Florianópolis
Deputado Arnon Bezerra PTB CE Juazeiro do Norte
Deputado Aureo SD RJ Duque de Caxias
Deputado Bebeto PSB BA Ilhéus
Deputado Betinho Gomes PSDB PE Cabo de Santo Agostinho
Deputado Bruno Covas PSDB SP Vice-prefeito de São Paulo na chapa de João Dória (PSDB)
Deputado Caetano PT BA Camaçari
Deputado Celso Russomanno PRB SP São Paulo
Deputado Cícero Almeida PMDB AL Maceió
Deputada Creuza Pereira PSB PE Vice-prefeita de Salgueiro
Deputado Daniel Coelho PSDB PE Recife
Deputado Davidson Magalhães PCdoB BA Itabuna
Deputado Delegado Waldir PR GO Goiânia
Deputado Dr. João PR RJ São João do Meriti
Deputado Duarte Nogueira PSDB SP Ribeirão Preto
Deputado Éder Mauro PSD PA Belém
Deputado Edinho Araújo PMDB SP São José do Rio Preto
Deputado Edmilson Rodrigues PSOL PA Belém
Deputado Eli Correa Filho DEM SP Guarulhos
Deputada Eliziane Gama PPS MA São Luis
Deputado Eros Biondini PROS MG Belo Horizonte
Deputado Fabiano Horta PT RJ Maricá
Deputado Fernando Jordão PMDB RJ Angra dos Reis
Deputado Geraldo Resende PSDB MS Dourados
Deputado Givaldo Carimbão PHS AL Maceió
Deputado Givaldo Vieira PT ES Serra
Deputado Glauber Braga PSOL RJ Nova Friburgo
Deputado Heuler Cruvinel PSD GO Rio Verde
Deputado Hissa Abrahão PDT AM Manaus
Deputado Hugo Leal PSB RJ Vice-prefeito do Rio de Janeiro na chapa de Índio da Costa (PSD)
Deputado Ildon Marques PSB MA Imperatriz
Deputado Índio da Costa PSD RJ Rio de Janeiro
Deputado Ivan Valente PSOL SP Vice-prefeito de São Paulo na chapa Luiza Erundina (PSol)
Deputada Jandira Feghali PCDOB RJ Rio de Janeiro
Deputado JHC PSB AL Maceió
Deputada Jô Morais PCDOB MG Vice-prefeita de Belo Horizonte na chapa de Reginaldo Lopes (PT)
Deputado Lelo Coimbra PMDB ES Vitória
Deputada Luciana Santos PCDOB PE Olinda
Deputado Luis Tibé PTdoB MG Belo Horizonte
Deputado Luiz Carlos Busato PTB RS Canoas
Deputada Luiza Erundina PSOL SP São Paulo
Deputada Luizianne Lins PT CE Fortaleza
Deputado Major Olimpio SD SP São Paulo
Deputado Manoel Junior PMDB PB Vice-prefeito de João Pessoa na chapa de Luciano Cartaxo (PSD)
Deputado Marcelo Álvaro Antônio PR MG Belo Horizonte
Deputado Marcelo Belinati PP PR Londrina
Senador Marcelo Crivella PRB RJ Rio de Janeiro
Deputado Marco Tebaldi PSDB SC Joinville
Deputado Marcos Rotta PMDB AM Vice-prefeito de Manaus na chapa de Arthur Virgílio Neto (PSDB)
Deputada Margarida Salomão PT MG Juiz de Fora
Deputado Marquinho Mendes PMDB RJ Cabo Frio
Senadora Marta Suplicy PMDB SP São Paulo
Deputado Max Filho PSDB ES Vila Velha
Deputada Moema Gramacho PT BA Lauro de Freitas
Deputado Moroni Torgan DEM CE Vice-prefeito de Fortaleza na chapa de Roberto Cláudio (PDT)
Deputado Moses Rodrigues PMDB CE Sobral
Deputado Nelson Marquezan Júnior PSDB RS Porto Alegre
Deputado Odelmo Leão PP MG Uberlândia
Deputado Paulão PT AL Maceió
Deputado Pedro Paulo PMDB RJ Rio de Janeiro
Deputado Pepe Vargas PT RS Caxias do Sul
Deputada Professora Marcivânia PCDOB AP Santana
Deputado Reginaldo Lopes PT MG Belo Horizonte
Deputado Rodrigo Pacheco PMDB MG Belo Horizonte
Deputado Ronaldo Martins PRB CE Fortaleza
Deputado Rosangela Gomes PRB RJ Nova Iguaçu
Deputado Sérgio Moraes PTB RS Santa Cruz do Sul
Deputado Sergio Vidigal PDT ES Serra
Deputado Severino Ninho PSB PE Vice-prefeito de Igarassu na chapa de Yves Ribeiro Albuquerque
Deputado Silas Câmara PRB AM Manaus
Deputado Valadares Filho PSB SE Aracaju
Deputado Valmir Prascidelli PT SP Osasco
Deputado Veneziano Vital do Rego PMDB PB Campina Grande
Deputado Washington Reis PMDB RJ Duque de Caxias
Deputado Wilson Filho PTB PB Vice-preceito de João Pessoa na chapa de Cida Ramos (PSB)

 

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