Dilma se rende a vetores internacionais, diz Gilberto Gil

À revista CartaCapital, artista diz que presidenta "optou por se ajustar" a instituições como FMI e veículos de imprensa influentes, como a revista britânica The Economist. "Vamos ver no que vai dar", resignou-se

Ministro da Cultura entre 2003 e 2008, durante o governo Lula, o cantor, instrumentista e compositor Gilberto Gil disse que a presidenta Dilma Rousseff, contrariando a postura de seu primeiro mandato, resolveu seguir as sinalizações de entidades, instituições e até empresas estrangeiras que, na opinião do artista, “não só informam como instruem a economia mundial”. Segundo Gil, Dilma deveria buscar alternativas para enfrentar o xadrez econômico em que se meteu o seu governo, mas prefere fazer os ajustes segundo as tendências do “sistema mundial”.

“A presidente optou por isso, por se ajustar a esse sistema mundial, deixar um pouco de lado a tentativa de criar uma maneira própria, brasileira, de contemplar essa questão de distribuição de renda, fazendo o Estado mais investidor no social, mesmo com certo desequilíbrio, mesmo com problema de inflação, mesmo com problema de desajuste fiscal. Ela optou por se ajustar. Vamos ver no que vai dar isso”, declarou Gil em entrevista exclusiva à revista CartaCapital.

O artista citou o Fundo Monetário Internacional e setores da imprensa econômica mundial (ele mencionou a revista britânica The Economist), com destaque para jornais norte-americanos, entre os agentes internacionais com influência nos rumos econômicos do planeta – “colchões internacionais” que, para Gil, interferem nas escolhas de Dilma.

“Ela, tendo que defender posicionamentos anteriores do setor político dela, do PT e das alianças, daquilo que foi o governo Lula, a questão das privatizações. As oposições básicas que foram estabelecidas entre a social-democracia do PSDB e o trabalhismo novo do PT. E agora ela é acusada de ter contrariado o marketing de campanha. De todo modo, ela está arriscando fazer isso. Porque, segundo ela, é mais importante ouvir a voz dessa racionalidade internacional que está aí, para evitar que o país fuja muito do sistema mundial, fique muito à deriva”, acrescentou.

Evitando opinar sobre a escolha de Dilma para a sucessão da senadora Marta Suplicy (PT-SP) no Ministério da Cultura, Gil limita-se a ressaltar a experiência do escolhido, Juca Ferreira. Mas sobrou alguma crítica para as antecessoras de Juca na pasta, Ana de Hollanda e, em seguida, Marta.

“Os Pontos de Cultura e a Cultura Viva foram programas relativamente bem sucedidos acolhidos pelo conjunto da sociedade brasileira. Nas gestões anteriores das duas ministras, a Ana de Hollanda e a Marta Suplicy, há queixas razoavelmente generalizadas no sentido de dizer que o Cultura Viva e os Pontos de Cultura não foram suficientemente atendidos como deveriam ter sido. Isso é uma queixa difusa que eu vejo por aí. Às vezes concentradas, às vezes difusas, mas elas existem por aí”, observou o ex-ministro.

Gil também falou sobre música e as preparações para os festejos dos 50 anos do Tropicalismo (ou Tropicália), movimento cultural que ele ajudou a criar no final da década de 1960, ao lado de figuras como Caetano Veloso, Gal Costa e Os Mutantes. Aos 72 anos, ele correrá os Estados Unidos em turnê de seu mais recente disco, Gilberto Samba, e fará ainda neste ano uma série de shows com Caetano na Europa. E explicou como as coisas aconteceram.

“Temos que considerar e vocês todos têm que considerar uma demanda inercial, que vem de tanta coisa [de sua obra]. Tem que fazer, tem que excursionar, tem que fazer show, não sei o quê. Por exemplo, agora veio uma demanda da Europa, para que eu e Caetano fizéssemos uma apresentação na Europa, nos apresentando juntos. Eu e ele. Ficamos em dúvida: Caetano, vamos? Queremos? Não queremos?”, relatou Gil, que acabou topando a empreitada junto com o colega de ofício.

Confira a íntegra da entrevista

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