Dilma: povo saberá conviver com “instabilidade política” nas Olimpíadas

Em cerimônia de recebimento da tocha olímpica, presidente afirma que o país vive momento "verdadeiramente crítico", mas que a população saberá conviver com as dificuldades políticas durante os jogos olímpicos. Veja íntegra do discurso

Na cerimônia de recebimento da tocha olímpica na manhã desta terça-feira (3), a presidente Dilma Rousseff disse que o povo brasileiro saberá sediar o maior evento esportivo do mundo e conviver com o momento político conturbado que atravessa o país. "Sabemos as dificuldades políticas que existem em nosso país hoje, conhecemos a instabilidade política. O Brasil será capaz de, mesmo convivendo com um período difícil, muito difícil, verdadeiramente crítico da nossa história e da história da democracia, saber conviver, porque criamos todas as condições para isso", disse Dilma em seu discurso.

A fala da presidente foi marcada pelos agradecimentos à equipe envolvida na organização do evento. Dilma não comentou sobre o processo de impeachment, cujo parecer será apresentado amanhã na comissão especial do Senado. Caso o Plenário aceite o processo contra a petista, a presidente será afastada do cargo por até 180 dias, e quem assumirá o comando do Palácio do Planalto será o vice-presidente, Michel Temer. Assim, existe a possibilidade de que a abertura dos Jogos Olímpicos, marcada para o dia 5 de agosto, seja feita por Temer, e não por Dilma.

Em relação à segurança do evento - que já foi alvo de ameaça terrorista -  a presidente afirmou que foram firmados acordos com agências de inteligência internacionais, para combater qualquer risco de atentado durante os jogos. A presidente disse que repetirá o esquema de segurança implantado durante da Copa do Mundo de 2014, com a integração das forças nacionais de segurança pública com as estaduais, sob um único comando. "O Brasil está pronto para realizar a mais bem-sucedida edição dos jogos olímpicos, trabalhamos para isso", declarou.

Em seu discurso, o ministro interino do Esporte, Ricardo Leyser, destacou os programas de incentivo ao esporte do governo. "Para o esporte brasileiro, Dilma foi a melhor presidente da República de toda a história. Continue sempre com o esporte poque a senhora é muito importante para todos nós", disse Leyser. "Estamos no apogeu da história esportiva brasileira", acrescentou.

O presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman, destacou a condução da tocha olímpica à Organização das Nações Unidas pela primeira vez, no último dia 29. "Em 120 anos de história dos jogos, nenhuma cidade, nenhum país e nenhum embaixador conseguiu convencer o comitê olímpico e as
Nações Unidas. Com isso, nos sentimos extremamente orgulhosos por esse momento", disse Nuzman. Segundo o presidente do COB, até o dia 5 de agosto, quando chegará ao estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, a tocha olímpica percorrerá 329 cidades, todas as capitais e passará pelas mãos de mais de 12 mil carregadores. "O Rio está pronto para entrar para história", discursou.

Após os discursos, Dilma acendeu a tocha olímpica e a entregou à jogadora de vôlei e bicampeã olímpica Fabiana Claudino, que deu início ao revezamento. Apesar de a cerimônia ter estado lotada, os gritos de "não vai ter golpe" entre a plateia foram isolados.

Leia a íntegra do discurso:

“Brasília/DF, 03 de maio de 2016

Eu queria iniciar cumprimentando, aqui, o Thiago e a Fabiana, em nome de quem eu cumprimento todos os atletas do nosso país, principalmente aqueles que vão participar dos Jogos Olímpicos.

Cumprimentar meu querido Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Organizador dos Jogos Rio 2016 e presidente do Comitê Olímpico Brasileiro e a senhora MárciaPeltier Nuzman. Queria também saudar, aqui, o Andrew Parsons, presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro, e dizer que essas duas pessoas são, sem dúvida nenhuma, responsáveis pela condução, a melhor condução possível, dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos 2016.

Reconhecer - eu concordo com o sonho -, mas com muito trabalho, que ambos tiveram, desde o momento em que nós fomos escolhidos para sediar os jogos olímpicos. E acredito que hojé é um dia especial porque nós estamos justamente comemorando isso.

Queria cumprimentar, aqui, o Ricardo Leyser, ministro do Esporte, e a senhora Gladys Melo.

Queria cumprimentar, também, o ex-ministro do Esporte, Aldo Rebelo, ministro da Defesa;

Queria cumprimentar, também, o ex-ministro do Esporte, aqui presente, o nosso querido George Hilton; e também cumprimentar - ele podia levantar, eu acabei de vê-lo -, o Orlando Silva, nosso ex-ministro do Esporte, que, além disso, tem um nome de cantor;

Queria agradecer aos ministros que tiveram um papel fundamental em viabilizar todo esse grande esforço, que foi e que será, daqui para frente, só um momento muito feliz que é assistir às competições e dar início a essa maravilhosa festa que serão as Olimpíadas. Mas eu lembro dos ministros porque nesse processo, nós tivemos uma parceria muito forte, tanto com o governo do  Rio quanto com o prefeitura do Rio, e aí eu queria cumprimentar o nosso querido Dorneles, governador do Rio em exercício, e lembrar, também, o meu grande amigo Pezão, que nesse processo teve um papel destacado.

Queria, também, cumprimentar, aqui, todos os ministros presentes, todos os chefes de missão diplomática acreditados junto ao meu governo.

Cumprimentar o nosso querido governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, e a senhora Márcia Rollemberg;

Queria dirigir uma saudação especial à senhora Graça Machel, pela importância, tanto de Samora Machel, como do nosso inesquecível, do nosso fantástico, presidente da África do Sul, Nelson Mandela, que é, para nós, um símbolo, porque o Brasil é um dos países, fora da África, com a maior população de origem africana e nós vemos em Nelson Mandela uma orientação para toda a luta contra o preconceito racial em nosso país.

Queria cumprimentar, também, o senador Donizeti Nogueira, os deputados federais Paulo Pimenta, e nossos dois ex-ministros, George Hilton e Orlando Silva.

Queria cumprimentar, também, os comandantes militares aqui presentes;

Cumprimentar o senhor Marcelo Pedroso, Autoridade Pública Olímpica;

Cumprimentar os designers que desenharam a nossa tocha olímpica, que, sem dúvida nenhuma, é a tocha olímpica mais bonita até agora feita no mundo, o Gustavo Chelles e a Miriam Romy.

Cumprimentar, também, o Bernard Rajzman; por intermédio dele, eu cumprimento os integrantes do Comitê Olímpico Internacional (COI) e da Organização Desportiva Pan-Americana e dos Comitês Olímpicos das Américas.

Cumprimentar, também, os presidentes de associações e confederações desportivas; as senhoras e os senhores representantes das empresas patrocinadoras das Olímpiadas Rio 2016; as senhoras e os senhores integrantes do Comitê Rio 2016;

Dirigir uma saudação especial aos meninos e às meninas de Itapoã, que interpretaram com muita beleza o Hino Nacional;

Cumprimentar os senhores e as senhoras jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas.

O Brasil se torna, agora, o país das Olimpíadas com o acendimento da tocha olímpica. A emoção, sem sombra de dúvida, deste dia, vai ficar marcada na nossa memória, em nosso coração e na história do nosso País e também na história dos jogos olímpicos, desses jogos que são um congraçamento e, também, um chamamento à paz.

Como presidenta do primeiro país da América Latina [do Sul] a sediar os Jogos Olímpicos, é com grande orgulho que eu dou, em nome do povo brasileiro, as boas-vindas a esta chama, símbolo de uma grande esperança da humanidade, que é a paz, a união e a amizade.

A partir de hoje, a tocha olímpica será conduzida por milhares de brasileiras e milhares de brasileiros, em uma jornada épica por todo o território nacional. Uma viagem que vai percorrer 330 municípios em todos os estados e que só terminará lá em cinco de agosto, quando a Pira Olímpica for acesa no Maracanã, no Rio de Janeiro, capital dessas Olímpiadas.

Pelos próximos 94 dias, ao longo desta jornada, estarão em evidência a beleza natural do nosso País, a riqueza cultural e a diversidade cultural, e também o calor humano dos brasileiros e das brasileiras. Vamos contaminar a nossa Nação com o espírito olímpico e envolver todo o povo brasileiro nessa oportunidade histórica de sediar as Olimpíadas e as Paralimpíadas.

Cidades de todo o Brasil sediarão as Olímpiadas por algumas horas. Cidadãos de todos os cantos verão a tocha olímpica, em toda sua beleza, passar na porta das suas casas.

Imaginem a emoção que sentirá uma criança lá em Barreirinhas, no Maranhão; um quilombola em União dos Palmares, nas Alagoas; um gaúcho em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul; uma jovem estudante universitária de Paraisópolis, em São Paulo; um pescador de Itaporã, no Mato Grosso do Sul. Serão centenas de lugares e milhões de brasileiros irmanados no compromisso de escrever uma página gloriosa na história dos Jogos Olímpicos.

O Brasil está pronto para realizar a mais bem-sucedida edição dos Jogos Olímpicos. Está pronto. Nós trabalhamos para isso. Praticamente todas as instalações esportivas nos Centros Olímpicos da Barra e de Deodoro estão prontas. Todos os 39 eventos-teste realizados até agora, de um total de 45 previstos, foram bem-sucedidos. A estrutura necessária para o trabalho da imprensa está pronta. O Laboratório Nacional Antidoping [Laboratório Brasileiro de Controle de Dopagem (LBCD)], que foi totalmente modernizado e acreditado pela Agência Mundial Antidopagem, está pronto. Vai atuar durante os Jogos e será um importante legado para o esporte nacional.

O plano de ação integrado para a área de segurança está pronto. Com base na bem-sucedida experiência da Copa do Mundo de 2014, nós integraremos as Forças Nacionais de Segurança Pública com as estaduais: as Forças Armadas, a Polícia Federal, a Polícia Rodoviária Federal e as forças municipais de segurança sob um comando único. No caso das instalações esportivas, a segurança interna estará a cargo da Força Nacional de Segurança, que chega ao Rio de Janeiro a partir deste mês. Investimos muito em inteligência, inclusive firmando acordos e compartilhando informações com agências internacionais com larga experiência no enfrentamento ao terrorismo.

Asseguro que o Brasil está plenamente preparado para proporcionar a proteção aos atletas, às comissões técnicas, aos chefes de Estado, aos turistas, aos jornalistas,  a todos os nossos visitantes, que vão ter a oportunidade de assistir aos Jogos no Rio de Janeiro.

A cidade do Rio de Janeiro receberá, como legado, um importante conjunto de obras de mobilidade, que irão facilitar muito o deslocamento pela cidade dos cariocas e dos milhões de turistas que visitam a Cidade Maravilhosa, e isso, sem dúvida nenhuma, ficará de legado para a população do Rio e do Brasil.

Dedicamos atenção especial, como mostrou o ministro Leyser, à preparação de nossos atletas. Com o Plano Brasil Medalhas, atletas de alto nível receberam, desde 2012, apoio para sua integral preparação para as Olimpíadas e as Paralimpíadas. Como legado esportivo, após os jogos, essas estruturas estarão disponíveis para treino de atletas, formação de profissionais e farão parte, sem dúvida, de uma Rede Nacional de Treinamento, que envolverá, ainda, Centros de Iniciação ao Esporte, em dezenas de municípios do país.

Eu tenho muito orgulho do Centro de Preparação de Atletas Paralímpicos, em São Paulo. E a afirmação do espírito olímpico deve ultrapassar as fronteiras do esporte. O Brasil é um país onde expressões culturais das mais diversas, inclusive no campo religioso, têm o seu espaço e a sua vez. Essa capacidade de culturas diferentes conviverem de forma respeitosa é uma das principais mensagens que as Olímpíadas e as Paralimpídadas afirmam como exemplo para a humanidade. E nós temos que nos esforçar para não perder esse espírito de tolerância cultural e, também, de tolerância e de convívio com opiniões diferentes.

A diversidade cultural de nossa Nação vai se fazer presente, sem sombra de dúvida, nos Jogos Olímpicos e Paralímpicos em uma programação que reunirá a expressiva qualidade estética da cultura brasileira. Serão mais de dois mil espetáculos e atividades de todas as linguagens artísticas, em 80 locais de apresentação, com a participação de cerca de dez mil artistas de todos os estados brasileiros.

Sem sombra de dúvida, todos os olhos do mundo estarão voltados para o Brasil. Estamos preparados para atender às mais elevadas expectativas durante os jogos. Trabalhamos muito para isso. Contamos com a conhecida hospitalidade e alegria do povo brasileiro. Assim, seremos, sem sombra de dúvida, nós, o povo brasileiro, os melhores anfitriões que as Olimpíadas já conheceram.

A tocha olímpica será recebida com alegria em todas as cidades do nosso imenso Brasil. Em todas essas cidades por onde passar vai deixar claro que a Olimpíada se dá em cada canto desse País. O seu fogo vai iluminar a visão de um país hospitaleiro e responsável. Sabemos as dificuldades políticas que existem em nosso país hoje. Conhecemos a instabilidade política. O Brasil será capaz de, mesmo convivendo com um período dificil, muito difícil, verdadeiramente crítico, da nossa história e da história da democracia do nosso País, saberá conviver porque criamos todas as condições para isso, com a melhor recepção de todos os atletas e de todos os visitantes estrangeiros.

Tenho certeza que um país cujo povo sabe lutar pelos seus direitos e que preza e sabe proteger sua democracia é um país onde as Olimpíadas terão o maior sucesso nos próximos meses.

Deixemos que essa chama guie toda a humanidade, todos os países que vierem aqui ao Brasil participar, mais uma vez, celebrar a paz entre as nações. Vamos todos nós, juntos, ter o orgulho de estarmos oferecendo a melhor Olímpiada do mundo, e sermos quem somos e mostrar ao mundo o nosso valor dentro e fora da arena; dentro e fora de todos os equipamentos onde a competição terá lugar.

Nós sabemos que o que vale, como disse o Thiago, o que vale é a luta. E nós sabemos lutar. Somos todos olímpicos. Somos todos Brasil.

Muito obrigada”

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