Dilma: “Até as emas sabem que a lei para mim é uma e para eles é outra”

Questionada sobre a possibilidade do fatiamento da votação de seu julgamento ser utilizado como argumento a favor do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, Dilma insistiu na tese de que são duas situações completamente diferentes

A ex-presidente Dilma Rousseff concedeu uma entrevista coletiva à veículos da imprensa internacional na tarde desta sexta-feira (2), e voltou a defender que foi vítima de um golpe parlamentar. Questionada sobre a possibilidade do fatiamento da votação de seu julgamento ser utilizado como argumento a favor do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ), Dilma insistiu na tese de que são duas situações completamente diferentes. "Até as emas do Alvorada sabem que a lei para mim é uma e para parlamentares é outra", brincou a petista.

Dilma lembrou que, ao contrário de Cunha, não tem contas no exterior e não é acusada de corrupção. "Não tenho contas no exterior, não cometi nenhuma irregularidade do ponto de vista de praticar ilícitos, não sou sou acusada de corrupção. O que acontece com o Sr. Eduardo Cunha? Tem contas no exterior comprovadas, acusações de inúmeros delatores de que ele recebia propina, recebia recursos. Eu sou julgada, o Sr. Eduardo Cunha não".

A presidente insinuou que a votação da cassação do peemedebista, marcada para o dia 12 de setembro, será adiada para novembro. "Todas as emas estão dizendo que vai ficar para novembro", disse Dilma, em mais uma referência aos conhecidos animais que vivem nos jardins do Palácio da Alvorada. "É verdade, eu ouvi também", concordou, sorrindo, Cardozo. "Se vocês olharem, essas emas são animais bastante fofoqueiros", acrescentou Dilma, rindo.

Recursos

Acompanhada de seu advogado, José Eduardo Cardozo, a petista disse que recorrerá contra seu julgamento "em todas as instâncias possíveis". Cardozo disse que na próxima segunda ou terça-feira irá entrar com um novo mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal. Um dos pontos que serão levantados no novo recurso será o chamado vício de processo judicial. A defesa de Dilma argumentará que não foi respeitado o devido processo legal, com violação flagrante do direito de defesa.

"Vamos pedir o ingresso no processo que foi impetrado pelos partidos governistas que pretendem cancelar a decisão do Senado relativa à manutenção dos direitos políticos", disse o advogado. Na avaliação de Cardozo, é improvável que o STF anule apenas a segunda votação (que manteve os direitos políticos de Dilma), sem nenhum prejuízo da primeira (que cassou seu mandato). Portanto, o entendimento é de que, não há como a corte rever uma decisão sem considerar a outra. "Porque quando os senadores foram votar, eles podem ter avaliado o segundo voto a partir da primeira votação", afirmou Cardozo.

Para o advogado, a outra questão em jogo no STF é: "pode-se analisar questões interna corporis do legislativo ou não? Se o Supremo entender que pode, todas as nossas solicitações anteriores sobre o processo também podem ser analisadas"

O advogado explicou que irá esperar uma decisão do Supremo antes de avaliar quais medidas poderão ser tomadas em outras instâncias internacionais. Aos jornalistas estrangeiros, Dilma disse que seu processo de impeachment é caracterizado "pela imensa fragilidade jurídica". "A fragilidade da acusação se deve ao fato de que essa turbulência política se caracteriza pela ação da Operação Lava Jato, pela investigação generalizada de vários dos que me julgaram. Eu sou uma pessoa que não tive nenhuma acusação nesse sentido", argumentou a ex-presidente.

Dilma mencionou as gravações feitas pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, em que o ex-ministro de Temer, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) diz que é preciso "estancar a sangria" da Lava Jato. "A ideia é essa: ou tira ela ou a investigação continua. Este é um dos motores deste processo de impeachment. O outro motor é o fato de que eu fui eleita por 54 milhões de votos. O projeto que estão tentando aplicar no Brasil não teve os votos necessários para que ele fosse aplicado", defendeu a petista. "Não foi esse o programa de governo que me levou e que infelizmente levou comigo o meu vice", disse Dilma. "Se ele se dá ao direito de utilizar a condição de vice para assumir a Presidência, ele também tem de usar a condição de vice para cumprir o programa que o deu o mandato nas urnas. Caso contrário, a ilegitimidade é total", disparou.

"Vocês se lembram do Taffarel?", perguntou Dilma, citando o ex-goleiro da seleção brasileira para dizer que, a cada oportunidade de recurso, ela diz para seu advogado: "Vai que é tua Taffarel" - frase cunhada pelo locutor Galvão Bueno durante a Copa de Mundo de 1994 quando o goleiro precisava realizar alguma defesa.

Votação

"Eu acho que é estranhíssima essa dupla votação. Vota uma vez de um jeito, vota outra vez de outro jeito", avaliou Dilma. Para ela, a segunda votação, que manteve seus direitos políticos, prova que ela não deveria ter sido condenada pelos senadores. "O segundo voto eu acho que é o voto daqueles que não consideram que de fato cabia uma punição", afirmou a ex-presidente. "São senadores que estavam indecisos, que sofreram pressões e votaram no sentido de que eu não teria a inabilitação dos meus direitos políticos por 8 anos", conclui a petista.

Imprensa

A ex-presidente fez críticas à cobertura do processo de impeachment por parte da mídia nacional e destacou a importância do papel de veículos de imprensa internacionais na análise do caso. "Se para algo servir o meu afastamento, ele deve servir para que nós façamos a partir de agora uma análise muito séria sobre as consequências de termos quatro grupos de mídia controlando toda a comunicação no Brasil", afirmou Dilma.

"Temos que fazer uma reflexão muito séria sobre as versões, a indução a certos tipos de visões. Acho que isso está ficando claro para a imprensa internacional. Até então eu acredito que não havia uma consciência tão forte a esse respeito, agora eu acho que isso surgiu de uma forma significativa", avalia a ex-presidente.

"Eles não podem falar que o The New York Times é petista, que o Le Monde é petista, que o El País é petista. É muito importante o que aconteceu e o papel da mídia internacional no Brasil. A partir do dia em que eu fui afastada, quero dizer a vocês que eu fui literalmente expelidade de alguns meios de comunicação e quem permitiu que o próprio Brasil tivesse conhecimento do que se passava aqui o foram as repercuissões na imprensa internaiconal", afirmou a petista. "Senão nós teríamos tido um deserto de informações", concluiu.

Futuro

A presidente disse aos jornalistas que não tem um projeto eleitoral em vista. "Tenho um projeto político. Eu farei oposição a esse governo independente da posição em que eu esteja", afirmou.

Dilma disse que irá para Porto Alegre na próxima semana, mas que também passará uma temporada no Rio de Janeiro, onde mora sua mãe. A ex-presidente informou que pretende realizar viagens a países da América Latina, mas não especificou a data.

Aos netos

Na última terça-feira (31), a coautora da denúncia contra Dilma, Janaína Paschoal, pediu desculpas à então presidente e disse esperar que Dilma um dia a perdoe por ter provocado tanto sofrimento. "Peço que ela um dia entenda que eu fiz isso pensando também nos netos dela", disse a advogada, com a voz embargada na tribuna do Senado.

Questionado sobre a fala de Janaína, Dilma, que tem dois netos disparou: "O comportamento da doutora é um comportamento de uma pessoa cujo as convicções não se parecem com as minhas nem do ponto de vista político, cultural ou humano. Não respeito uma pessoa capaz de falar o que ela falou", disse Dilma. "Para os meus netos eu quero um Brasil democrático cheio de oportunidades. E eles terão. Tenho certeza de que terão e não será por causa da doutora Janaína", concluiu.

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