Dilma: “Não tenho de renunciar, suicidar ou fugir”

“Não renuncio porque eu sou absolutamente incômoda. Como eu não cometi crime, como não recebi dinheiro da corrupção, podem me virar de todos os lados", discursou a presidente afastada em seu último ato público antes do início do julgamento no Senado

Em sua última aparição pública antes do início do julgamento do impeachment no Senado, a presidente afastada Dilma Rousseff afirmou, na noite dessa quarta-feira (24), ainda ter esperança de retomar o cargo, voltou a chamar o processo de “golpe” e comparou sua situação à dos ex-presidentes Getúlio Vargas e João Goulart.

Dilma foi recebida por aliados no Teatro dos Bancários, em Brasília, no “Ato em Defesa da Democracia”. Em seu discurso, a petista afirmou que vai ao Senado, na próxima segunda-feira, defender a democracia. “Vou ao Senado defender a democracia, o projeto político que eu represento, defender os interesses legítimos do povo brasileiro e, sobretudo, construir os instrumentos que permitam que isso nunca mais aconteça em nosso país”, discursou.

A presidente afirmou que o “golpe” que enfrenta é diferente do liderado pelos militares que conduziu o país a uma ditadura de 21 anos. Segundo ela, o golpe militar é como um machado que derruba os direitos fundamentais das pessoas. Já o processo em curso contra ela, ressaltou, é como uma invasão da “árvore da democracia” por parasitas. “A única coisa que mata as parasitas antidemocráticas é o oxigênio do debate, da crítica e da verdade”, ressaltou.

Dilma disse que os defensores do impeachment queriam que ela renunciasse. Mas, segundo ela, o seu gesto de não desistir mostra que o país vive outro momento em relação à luta pela democracia.

“Hoje eu não tenho de renunciar, não tenho de me suicidar, não tenho que fugir para o Uruguai. É outro momento histórico”, discursou. “Não renuncio porque eu sou absolutamente incômoda. Como eu não cometi crime, como não recebi dinheiro da corrupção, podem me virar de todos os lados. A minha presença coloca de forma clara que há no Brasil uma ruptura democrática”, emendou.

Embora tenha dito ter esperança de retomar o mandato, a presidente afastada afirmou que será necessária a realização de nova eleição para “recompor todas as instâncias democráticas no país”. "Temos de ser capazes de resgatar a democracia em nosso país, porque golpe desse tipo, mesmo ainda não concluído e que todos nós esperamos que não se conclua, deixa marcas. A principal é a ruptura democrática.”

Dilma também criticou propostas defendidas pelo governo interino, sobretudo a emenda constitucional que limita os gastos públicos. A medida, segundo ela, vai comprometer a aplicação de recursos na saúde e na educação.

"A PEC 241, que pretende congelar os gastos da educação e da saúde, em termos reais por 20 anos... Deus me livre. O que ela significa? Um golpe grandão. Nós sabemos o que vem por aí caso eles ganhem [a votação do impeachment]. Eles adotarão medidas impopulares. Eles falam na maior cara de pau", atacou.

Para a petista, o processo de impeachment mostra que a luta na vida deve ser permanente. “Você nunca tem a democracia garantida. Eu achei em determinado momento da minha vida que nunca mais eu ia viver processos arbitrários, rupturas democráticas, golpes de estado. Estou vivendo isso de forma bastante intensa. Quero dizer que na vida a gente sempre tem que lutar. Nunca tem um dia que a gente fala: agora acabou.

Dilma chegou ao Teatro dos Bancários acompanhada de ex-ministros como Jaques Wagner, Eleonora Menicucci e Miguel Rossetto. Representantes do PT, do PCdoB, da Central Única dos Trabalhadores (CUT), do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), da União Nacional dos Estudantes (UNE), da União da Juventude Socialista (UJS), da Marcha Mundial das Mulheres, da Frente Brasil Popular, do Levante Popular da Juventude e da organização Rosas pela Democracia integraram a plateia.

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