Dilma: “Gestão Temer é síntese do que pensa Cunha”

Em programa da TV Brasil, presidente afastada insiste na tese do golpe e diz que deputado impõe a pauta no governo interino. Para a petista, Aécio ainda não aceitou a derrota, e apenas um plebiscito pode reverter o rompimento do “pacto democrático”. Assista à íntegra da entrevista

Em entrevista concedida à TV Brasil, emissora estatal pivô de uma disputa de poder entre Dilma Rousseff e Michel Temer, a presidente afastada declarou que a gestão de seu vice e chefe de Estado interino está submetida à pauta do deputado Eduardo Cunha (PMDB), afastado há cerca de um mês da Presidência da Câmara e réu na Operação Lava Jato. Segundo Dilma, que reclamou da impossibilidade de negociar com a Câmara, Cunha impõe suas vontades desde que foi eleito líder do PMDB na Casa, em 2013.

“O que eu vivi, e está claro no governo Temer, e que o governo Temer é a síntese do que pensa o Eduardo Cunha, expressa claramente a pauta do Eduardo Cunha”, declarou Dilma, para quem Cunha exerce “liderança de direita dentro do centro”, com projeto conservador de poder. “Sabe qual o grande problema de compor com o Eduardo Cunha? É que ele tem pauta própria. O problema é a pauta que ele representa, conservadora e de negócios. E aí tem o efeito da Lava Jato...”, acrescentou Dilma, que enfrenta a última etapa de processo de impeachment no Senado.

“Não acho que o mesmo tipo de política é visto no PMDB do Senado, que é qualitativamente diferente. Tem uma pauta mais progressista, e um nível de discussão de outro patamar – e isso fica claro no processo de aceitação do impeachment”, relatou a petista, para quem era “impossível” negociar com a Câmara.

Para Dilma, o processo de rompimento de Cunha com o governo teve início com uma mudança de postura, que ela considerou “extremamente grave”. “Já no começo do meu governo, houve uma movimentação muito atípica [de Cunha] para a direita dentro do centro”, observou, mencionando as discussões sobre o Marco Regulatório Portos e o Marco Civil da Internet.

Assista à íntegra da entrevista:


“Vingança”

Dilma voltou a dizer que Eduardo Cunha só deu andamento ao processo de impeachment na Câmara por vingança. Ela lembrou que, em dezembro do ano passado, os três deputados do PT membros do Conselho de Ética haviam declararam voto a favor do processo de cassação que o peemedebista enfrenta por ter mentido à CPI da Petrobras, segundo a acusação, sobre contas que omitiu da Receita Federal no exterior. O posicionamento dos deputados contra Cunha foi o estopim para que ele avalizasse o impeachment, afirmou Dilma.

“Ele fez isso de forma pública. No dia em que não aceita os três votos [petistas], o próprio Miguel Reale [Júnior] diz: ‘Trata-se de uma chantagem explícita’”, rememorou a presidente afastada, mencionando declaração do jurista que subscreve a denúncia por crime de responsabilidade que deu origem ao processo.

Nesse ponto da entrevista, Dilma passa a criticar justamente o objeto da acusação – seis decretos sem autorização do Congresso e as chamadas pedaladas fiscais, procedimento contábil que acabou por maquiar a situação fiscal do país, segundo a denúncia. “O Plano Safra chega a ser ridículo. Eu sequer assinei uma vírgula”, acrescenta Dilma, referindo-se aos repasses do Banco do Brasil para o projeto agrícola – tarefa que, segundo a petista, coube ao ex-secretário do Tesouro Nacional Arno Augustin e ao Ministério da Agricultura. Dilma aproveitou para rebater o noticiário sobre sua relação estreita com Arno, de maneira que ela não poderia negar a autoria das assinaturas.

“Ocorre que, em 2015, o Secretário do Planejamento [Tesouro] não era o Arno, era o Dyogo [Oliveira, atual ministro do Planejamento]. Veja: o principal executor do Plano Safra é, hoje, o ministro do Planejamento!”, afirmou a presidente. “Os ex-presidentes que me antecederam assinaram muito mais decretos do que eu”, acrescentou a presidente.

“Golpe”

A entrevista, gravada, foi conduzida pelo jornalista Luís Nassif, que teve contrato cancelado com a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) depois da posse temporária de Temer – questão que gerou questionamentos jurídicos dentro e fora da estatal de comunicação. Na primeira chamada para o intervalo, o jornalista interrompe a entrevista dizendo que no próximo bloco se dedicará a discutir “o golpe”.

Instantes antes, no final do primeiro bloco da entrevista, Dilma criticou nominalmente o presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (MG), adversário por ela derrotado na corrida presidencial de 2014. Para a petista, Aécio e seus correligionários ainda não se conformaram com o resultado das urnas.

“A reação de meu adversário foi bastante atípica em relação ao que vinha ocorrendo no Brasil. Ninguém pediu recontagem de votos. Ele pediu. Ninguém pediu auditoria nas urnas eletrônicas, ele pediu. Depois, eu tinha de ser diplomada no início de dezembro, e eles entram no TSE [Tribunal Superior Eleitoral] alegando que minha campanha tinha problemas e eu não poderia ser diplomada”, reclamou a presidente afastada.

O dia seguinte

No segundo bloco da entrevista, Dilma e Nassif tratam o processo de impeachment como golpe – e nesse sentido, avisou a mandatária, não há mais diálogo com o peemedebista. Para Dilma, um “pacto democrático” que vigorava desde a Constituição de 1988 foi rompido de maneira grave com o “golpe” que, em sua opinião, foi orquestrado pelo grupo de Temer e Cunha – e, para que a situação seja revertida, acrescenta a petista, apenas a população pode ser protagonista. A presentador quis então saber o que aconteceria em caso de derrubada do processo de impeachment no Senado.

“Eu não acredito que não se remontará esse pacto dentro de gabinete. A população vai ter de ser consultada. Mas, para que possamos refazer esse pacto, é necessário que haja o fim do golpe. Significa que nós ganhemos no Senado. Não acredito que podemos refazer pacto algum com Temer em exercício”, sentenciou, cogitando a consulta popular por meio de plebiscito. Para ela, a consulta popular é capaz de ajudar a “lavar e enxaguar essa lambança que é o governo Temer”.

“Eu não vou dar o menu total, mas é uma coisa que está sendo muito discutida”, avaliou, para depois reclamar do processo político do Brasil nos últimos anos.

“No Brasil, a regra tem sido o golpe”, sentenciou, referindo-se às gestões incompletas vistas no país nas últimas décadas. “Todo mundo que não consegue se eleger, porque não tem voto pra isso, não pode achar que a saída é o impedimento do seu adversário.”

Economia

A crise econômica foi o tema escolhido para iniciar o programa, intitulado “Especiais TV Brasil”. O jornalista começa a entrevista com um resumo sobre o desenvovimento da crise econômica e diz que coube a Dilma administrar o cenário político dela decorrente. Dilma então diz que começou seu primeiro mandato, em 2011, diante de um diagnóstico de que a crise chegaria aos países emergentes, com a moeda europeia (euro) em risco.

A certa altura de seu primeiro mandato, relata Dilma, a saída de Guido Mantega do Ministério da Fazenda, por razões pessoais, levou a um entendimento na equipe econômica de que medidas de austeridade e ajuste fiscal teriam de ser implementada – nesse ponto da entrevista, ela faz menção à Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira, a polêmica CPMF. E como começariam tais ações? A própria petista pergunta e responde.

“Reduzindo as desonerações que nós mesmos demos e, segundo, ampliando os impostos. Nós não conseguimos fazer isso completamente”, afirma a presidente.

Comando em xeque

O mero anúncio da entrevista já havia causado polêmica nos meios político e jornalístico em Brasília. O motivo é o próprio comando da EBC, que decide o que é levado ao ar em veículos como a Agência Brasil (site) e a própria TV Brasil. Dias depois de substituir Dilma no Palácio do Planalto, temporariamente, Temer determinou a exoneração do jornalista Ricardo Melo, presidente da empresa na gestão petista, e a posse de Laerte Rimoli, jornalista com experiência em campanhas do PSDB. Mas uma decisão liminar do ministro do STF Dias Toffoli considerou a legislação que fixa em quatro anos o mandato do presidente do grupo, e determinou a reincorporação de Ricardo Melo ao posto.

Para justificar a veiculação da entrevista, a EBC disse que o faria em conjunto com a Rede Minas, por manifestação de interesse dessa emissora. Mesmo assim, houve quem reclamasse da atitude da direção em veicular o material. Segundo reportagem do jornal O Estado de S. Paulo desta quinta-feira (9), o representante dos funcionários, Edvaldo Cuaio, queixou-se formalmente no Conselho de Administração da EBC e classificou a iniciativa como “afronta” e “indignidade”. Entre outras reclamações, Cuaio lembrou que Nassif teve contato suspenso pela gestão Temer, mas mesmo assim teve despesas bancadas pela EBC para se deslocar até Brasília e realizar a entrevista.

Na internet, a polêmica foi indiretamente abordada pela direção da EBC. “A entrevista se insere no esforço da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) para produzir um jornalismo com equilíbrio editorial e pluralidade de pontos de vista. Com esse objetivo, a EBC encaminhou solicitação de entrevistas, no mesmo formato, ao presidente da República interino, Michel Temer, ao presidente do Senado, Renan Calheiros, e ao presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Ricardo Lewandowski”, registrou o site da emissora mais cedo.

“Nessas solicitações, o próprio presidente da EBC, Ricardo Melo, reforça que a TV Brasil e a EBC foram criadas para cumprir o dispositivo constitucional que estabelece a complementariedade dos sistemas público, estatal e privado na radiodifusão. Melo destaca, ainda, que o jornalismo da TV Brasil tem um papel de destaque nessa missão, pautando-se pelo equilíbrio editorial e pela pluralidade dos pontos de vista apresentados”, acrescenta o texto institucional.

 

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