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Dias de turbulência: caras-pintadas do DF avaliam que foram decisivos para momento histórico

 

Por Saulo Branquinho e João Carrusca

Material originalmente publicado na Agência de Notícias UniCeub

“Eu estava lá onde tudo começou, quando a primeira bomba de gás explodiu. Foi depois de um integrante da manifestação jogar uma lata de refrigerante dentro do lixo, um PM falou alguma coisa e o cara mostrou o dedo para ele. Aí ele lançou a granada, tudo começou ali”. Quem relembra a história é o webdesigner brasiliense Aurélio Soares Neto. Na época, ele era estudante secundarista e participava das manifestações na Esplanada dos Ministérios a favor do impeachment do presidente Fernando Collor de Mello.

O ano era 1992, os retratos que ficaram da época já são coloridos. Os jornais estampavam multidões em preto e branco, mas, de perto, os rostos ganhavam luzes. Nos olhos arregalados, na boca aberta do grito, e na pele, as tintas. Com o tempo, o suor fazia aquelas cores escorrerem pelo pescoço, com a veia saltada e voz rouca. Mas o grito ecoou longe.

“Alguns minutos após essa bomba ter explodido, os policiais fizeram uma marcha para levar as pessoas para a rodoviária, não deu certo porque já era perto das 18h, a rodoviária entupiu de gente, confusão para todo lado.” A cena descrita pode parecer um cenário de caos para a maioria das pessoas. Porém Aurélio relembra com saudosismo dos conflitos entre os manifestantes de cara pintada e os homens da Polícia Militar. “Foi lindo saber que naquele dia o povo disse ‘basta’ numa só voz: ‘Fora Collor’”, afirma.

Os caras-pintadas, segundo historiadores ouvidos pela reportagem, ajudaram a derrubar Fernando Collor, o primeiro eleito depois do longo período de ditadura militar no Brasil, e o mais jovem a chegar ao Palácio do Planalto. Apesar dessas manifestações estarem marcadas na memória dos jovens dos anos 90, não há consenso em como manifestantes de fato influenciaram este evento, como ativistas primordiais ou massa de manobra.

 

[/caption]Carona no Eixão

As manifestações eclodiram após o irmão de Collor fazer uma série de acusações contra o então presidente, a Câmara dos Deputados instaura uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar ilegalidades dentro do governo Collor. Após quase três meses de discussão foi aprovado pela comissão o relatório que incrimina Collor. O impeachment seria votado. O aumento nas manifestações de rua com os caras-pintadas teve como contexto o repúdio às palavras de Collor, que em pronunciamento feito em rede nacional pedia que os brasileiros saíssem às ruas vestindo as cores do Brasil. O efeito foi o contrário. Grande parte da população vestiu-se de preto, outros colocaram faixas pretas nas janelas dos prédios e os motoristas com fitas pretas nas antenas dos carros.

Chegava o dia 29 de setembro, o tão esperado dia da votação do Impeachment do presidente Collor na Câmara dos Deputados, em Brasília, jovens desembarcavam na rodoviária do Plano Piloto. Muitos iam caminhando pelas superquadras, outros pediam carona no Eixão, todos com um só destino: o Congresso Nacional, onde seria decidido o futuro do presidente Collor. Alguns estavam sozinhos, outros com colegas de colégio ou em família. A multidão em sua maioria vestida de preto e com rostos pintados em verde e amarelo. Bandeiras e cartazes eram erguidos. Cada um se manifestando à sua maneira, querendo fazer parte desse grande momento da história política e democrática do Brasil. Era um novo modo de fazer manifestação, usando o bom humor e a ironia.

Apesar de toda a nostalgia em volta das manifestações que ocorreram em 1992, diversos historiadores e cientistas políticos avaliam que as manifestações dos Caras Pintadas não foram fatores primordiais para a queda de Fernando Collor de Mello. O historiador Frederico Tomé, que chegou a participar das manifestações contra o ex-presidente, não vê os Caras Pintadas como protagonistas do Impeachment de Collor. “Acho que há um estimulo anterior de grupos políticos, grupos econômicos que decretam o fim do governo, e a partir daí você tem as ações próprias, para que aconteça a derrubada no âmbito político e jurídico, para que você tenha legalidade neste processo”.

Porém não vê esses dois aspectos como únicos na derrocada do “Caçador de Marajás”. “No caso do Collor a legalidade desse processo foi bem calcada em provas, tinha o PC Farias, as denúncias do irmão, aí foram aparecendo os casos, apareceu a Elba” relembra. Segundo o historiador, os diversos casos que eram apresentados contra Collor evidenciam a corrupção em seu governo. “O Collor caiu por conta de um Fiat Elba. O valor do carro em si era insignificante pela a fortuna que ele tinha, mas evidenciou-se claramente que as contas pessoais dele estavam sendo pagas pelo seu chefe de campanha (PC Farias), que atuava quase como um governo paralelo”, afirma.

Tais provas ajudaram a mobilizar as pessoas para as manifestações que pediam sua saída. “Pouquíssimas pessoas se atreveram a defender ele, porque realmente não tinha mais apoio popular. A desconstrução da imagem dele foi muito rápida, muito por colaboração dele também”. Apesar das manifestações terem sido uma das maiores da história do Brasil, em público, levando cerca de 60 mil pessoas apenas em Brasília, Frederico não vê uma influência dos Caras Pintadas em outras gerações. “Acredito que o movimento se esgotou ali. Logo depois do Collor, ainda teve a tentativa de manter a mobilização dos estudantes, mas essa tentativa não surtiu tanto efeito. Depois desse episódio não teve mais, os caras-pintadas ficaram reduzidos ao tempo de Collor” explica.

Os manifestantes, muito ainda menores de idade, saiam em comboios de escola, muitas vezes encabeçadas por movimentos estudantis como a UniãoBrasileira dos Secundaristas (UBES) e a União Nacional dos Estudantes (UNE), então presidida pelo atual senador da República, e colega de Collor, Lindbergh Farias. Tal engajamento dos jovens, fez desse um movimento essencialmente estudantil.

Os jovens que participaram das manifestações de 1992 entretanto, se julgam como figura fundamental na queda do primeiro presidente eleito por voto popular no Brasil desde 1960, e a maioria avalia como uma época de muita luta e amadurecimento político.

“Foi uma época para mim de consciência política, passei a prestar mais atenção na política e ir mais atrás do que julgo certo. Reivindicar. Era emocionante ver todos juntos unidos por um objetivo”, relembra Flavia Pires, que fez parte do movimento dos caras-pintadas e na época tinha 17 anos. “Era emocionante ver todos juntos unidos por um objetivo. O povo estava indignado com o falso caçador de marajás”, recorda.

Lembranças

A advogada Ana Karine Mousinho relembra do dia com muito entusiasmo e a sensação de estar lutando por um país melhor. Ela conta que foi com a mãe e irmãs para a Esplanada dos Ministérios. “O que mais me marcou foi uma musiquinha que todo mundo cantava: “O Collor vai ganhar uma passagem pra sair desse lugar, não é de carro, de trem, nem de avião, é algemado, num camburão… eita, Collor ladrão”.

Joelma Santos, hoje com 46 anos, explica que havia um “clima de unidade, porém de muita indignação”. Joelma conta que foi com amigos de juventude para a Esplanada se manifestar contra o presidente Collor. “Estávamos com receio de confusão e bombas de gás, mas o importante é que não íamos nos calar”, explica.

O advogado Bruno Correia Ribeiro Dantas, que atualmente está com 42 anos, conta que foi com sua família, todos de caras pintadas. Influenciado pelos pais, Bruno conta que participou ativamente do movimento. “Havia uma quantidade imensa de pessoas no gramado em frente ao Congresso Nacional gritando todos juntos ‘Fora Collor’. Era um sentimento diferente. Ao mesmo tempo em que tínhamos medo da polícia, sabíamos que estávamos fazendo parte da história”.

Krys Guerreiro recorda que foi à esplanada apenas para se divertir “Fui com alguns amigos, só queria estar na bagunça e que ele fosse impitimado. Enfim, me diverti, pintei o rosto e ‘protestei’.” Porém, acredita que se fosse atualmente seria diferente. “Infelizmente eu não sabia direito o que estava fazendo ali, não tinha dimensão do que o Collor tinha feito”, assume.

Segundo o publicitário Mauro Panzera, de 47 anos, presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) à época do impeachment, a relação dos manifestantes com a mídia era um misto de ódio e amor: “Eles davam muito espaço para as manifestações, com matérias, entrevistas mostrando de forma positiva, porém defendiam as medidas conservadoras de Colllor,” explica.

Para o historiador e professor da Universidade de Brasília (UnB) Antônio José Barbosa, fica uma lição do processo que tirou dois presidentes da República em menos de 25 anos. “Ficou marcado em primeiro lugar o fato de que todo presidente no Brasil contemporâneo que não consegue ter bom relacionamento com o Congresso Nacional, acaba tendo muitos problemas e no extremo sofre impeachment, isso aconteceu com o Collor e aconteceu com Dilma Rousseff” afirma.

Antônio Barbosa explica também o porquê de apesar de tantos anos após o Impeachment de Collor, os Caras Pintadas continuam sendo vistos como primordiais na queda do ex-presidente. “Os caras-pintadas tiveram um papel muito menor do que se supõe, do que a narrativa consagrou, porém a história é feita de narrativas e normalmente os vitoriosos é que fazem as suas narrativas”, e explica qual o fator primordial para a queda de um presidente da República. “É claro que as manifestações de rua ajudam a criar um clima favorável, porém sabe-se hoje que fatores políticos tem uma relação de muito mais peso em um Impeachment do que o clamor popular”.

O senador Lindbergh Farias não respondeu os questionamentos da reportagem. Ainda sobre o assunto, a assessoria do senador Fernando Collor de Mello se limitou a enviar uma frase para “Novo Olhar”: “Nossa resposta é o silêncio”.

Supervisão de Luiz Claudio Ferreira e Vivaldo de Sousa

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