Diálogos revelam detalhes sobre a ação de bolsonaristas na UnB

Conversas de Whatsapp usadas para organizar invasão à UnB revelam motivação homofóbica, machista e racista. "A parada é meter bala nesses caras e fazer uma chacina. Matas uns cinquenta, tudo de uma vez só", diz um dos interlocutores

"Se sair um print daqui já vai todo mundo para cadeia", escreveu um membro do grupo intitulado inicialmente como "Invasão CA [Centro Acadêmico] Sociologia", que foi usado para organizar o protesto com ataques a estudantes da Universidade de Brasília (UnB). O ato reuniu cerca de 15 pessoas na noite da última sexta-feira (16). As conversas, obtidas pelo grupo Mídia Ninja, mostram que a claque montou uma estratégia de protesto usando bombas, teaser, spray de pimenta e canos de PVC simulando bandeiras.

 

O grupo escolheu o Instituto Central de Ciências (ICC) da UnB para promover o ato. Os manifestantes entraram na universidade chamando os estudantes de "vagabundos", "maconheiros", "parasitas" e "gays safados". Os registros das conversas mostram que eles são defensores do deputado Jair Bolsonaro (PSC/RJ) – que ontem (terça, 21) se tornou réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por incitação ao crime de estupro. No dia do ato, o rosto e o nome do parlamentar estampavam também camisetas dos participantes.

Segundo o Mídia Ninja, o grupo que arquitetou a invasão é formado por ex-alunos da universidade, servidores públicos, profissionais liberais e ativistas conservadores da extrema direita. Eles dizem que a motivação do protesto é responder "na mesma moeda" às agressões que os seguidores da extrema direta sofrem na Universidade. Porém, o grupo, liderado pela ativista Kelly Cristina Cardoso – denunciada pelo Ministério Público e mais conhecida como Kelly Bolsonaro – precisou procurar uma aluna adepta às suas ideologias para "justificar" o protesto.

Veja o vídeo da invasão:

 

A aluna, de nome ainda desconhecido, por sua vez, afastou-se do grupo por discordar da violência vinculada às suas respectivas imagens. “Gostaria muito de pedir a todos vocês que estão organizando uma manifestação na UnB que parem de querer arrumar confusão. Porque isso vai ficar muito feio pro nosso lado (…) Eu não concordo com nenhum tipo de violência, isso vai manchar os nossos nomes e, principalmente, o meu ali dentro (…) Se forem partir pra ataques e agressões, não façam isso na UnB. Já pararam pra pensar que é muito melhor que eles fiquem com fama de violentos e inescrupulosos? Que eles que são os agressores raivosos?”, escreveu a aluna no grupo de WhatsApp. De todo modo, nenhum membro da universidade falou às autoridades sobre o teor da manifestação.

As características de protesto do grupo invasor é evidenciado na maioria das mensagens trocadas via WhatsApp. "A parada é meter bala nesses cara e fazer uma chacina. Matas uns cinquenta, tudo de uma vez só. Vai ficar um ano o país de luto", disse um dos membros em áudio enviado aos comparsas. Outra manifestante diz que "se levar uma cusparada" a "porrada vai comer na hora".

Ouça trechos da conversa divulgados pelo grupo de jornalismo alternativo Mídia Ninja

Apesar de, no grupo, os manifestantes dizerem que a polícia está "do lado" deles, a Polícia Civil do Distrito Federal está investigando o caso e não descarta analisar as conversas online para apurar os fatos. A UnB também investiga a origem do ato e, em nota, a reitoria afirmou que "reitera a postura de respeito ao direito à diversidade nos seus quatro campi e repudia qualquer ato de intolerância e de agressão".

 

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