Dia ‘D’ para acampamentos anti-Dilma no Congresso

Em vídeo, acampados há semanas nos arredores do Parlamento divergem sobre ordem de desocupação: grupos como MBL prometem “resistência pacífica”, mas há quem fale em reação armada. Prazo para saída termina no início da noite de hoje, mas haverá tolerância de horário

Fábio Góis
A atenção de boa parte da imprensa estará voltada, neste fim de semana, para os arredores do Congresso. Mais precisamente para as áreas gramadas integradas aos espelhos d’água em frente ao prédio e, mais adiante, para o descampado diante ao Palácio do Itamaraty. É nesses dois pontos que dois acampamentos pró-impeachment da presidente Dilma Rousseff, um deles com defensores do que chamam de “intervenção militar constitucional”, esperam a chegada de forças da segurança pública para a operação de desocupação do local.

Os autodenominados “militaristas” prometem resistência à ordem de retirada – um deles, identificado como Felipe Porto, chegou a avisar que ele e seus colegas recusam qualquer debandada pacífica e que partirão para o confronto com forças de segurança. “Vamos resistir. Estamos armados e, se houver isso [determinação de retirada], vai haver uma carnificina aqui”, disse, na última quinta-feira (19), o membro do grupo pró-intervenção militar. Ao Congresso em Foco, no entanto, colegas de acampamento de Felipe disseram que tudo não passou de bravata, que a declaração foi um “erro”, e que o grupo não tem líder – logo, ele não poderia falar em nome dos acampados.

Na área mais próxima ao Congresso, reina a calmaria entre os membros do outro grupo de manifestantes anti-Dilma – no auge da mobilização, eram cerca de cem barracas e tendas no local, mas agora esse número não chega a três dezenas. Mas a ideia é resistir. Nesta entrevista em vídeo ao site, o coordenador do Movimento Brasil Livre em Minas Gerais, o empresário Pedro Cherulli, 61 anos, diz que a tendência do grupo é deixar a área gramada em frente aos prédios da Câmara e do Senado, onde está acampado há cerca de um mês. Mas com a certeza de que haverá “resistência pacífica” entre os manifestantes anti-Dilma, e sem que seja cumprido o prazo estipulado por autoridades da República – o início da noite de hoje (sábado, 21).

O Congresso em Foco apurou junto à Polícia Legislativa do Senado que um período de “tolerância” será dado até a manhã do próximo domingo (22), extrapolando-se em algumas horas o tempo acertado para a saída. Já a ordem do Governo do Distrito Federal é cumprir o prazo dado para a desocupação, que deve ser executada no início da noite de hoje. Se necessário, com uso de força policial.

"Prefeito" do acampamento, Pedro diz neste vídeo abaixo que os acampados deixarão o local aos poucos, e que provavelmente ainda estarão no local durante todo o domingo (22), quando já terá expirado o prazo de desocupação. A entrevista foi concedida à reportagem no meio do que restou da tribo de ativistas, de onde o empresário olhava uma tenda da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e dizia que, enquanto a estrutura lá estivesse, o MBL não sairia dali.

Veja:

 

A ordem de desocupação tem 48 horas para ser cumprida e foi determinada no início da noite de quinta-feira (19), após reunião dos presidentes do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), com o governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg (PSB). Nos últimos dias, ocorrências policiais chamaram a atenção e expuseram o risco de confrontos violentos entre grupos favoráveis e contrários ao impeachment de Dilma.

Mas, se de um lado o acampamento encabeçado por grupos como MBL e Revoltados Online estão em marcha de debandada, os chamados militaristas anti-Dilma estão determinados a permanecer acampados. Eles alegam estar dentro do prazo de 30 dias que, dizem, foi-lhes dado para acampar no local. Rollemberg, por sua vez, garante que o grupo não tem autorização do Governo do Distrito Federal (GDF) para acampar em qualquer ponto da Esplanada dos Ministérios. Apenas os cerca de 800 metros quadrados de área gramada em frente ao Congresso estão sob responsabilidade da instituição, ao passo em que todo o restante do gramado ao centro da Esplanada, a partir de uma alameda de bandeiras de estados brasileiros, está sob a guarda do GDF.

Entre os militaristas, a ordem é de resistir, e só deixar o local depois do “devido processo legal e uma ordem judicial”. Foi o que disse ao Congresso em Foco, neste vídeo abaixo, o policial civil maranhense Marcelo Penha, 42 anos, espécie de líder informal do grupo – que, paradoxalmente, diz não admitir liderança única entre seus integrantes.

 

Marcelo foi um dos dois policias flagrados, na última quarta-feira (18), disparando arma de fogo durante a Marcha das Mulheres Negras, na área entre os dois acampamentos. Depois do incidente, Marcelo foi detido para averiguação e prestou depoimento na Corregedoria da Polícia Civil do Distrito Federal, onde ficou preso há até poucos instantes antes da gravação deste vídeo. Ele alega ter agido em defesa de colegas durante o ato das mulheres negras, promovido com o apoio de deputadas e senadoras. No “acampamento militar”, recebe tratamento de herói por supostamente ter salvo, com os tiros que desferiu para cima, uma mulher ameaçada de agressão por grupos pró-Dilma.

Teatro de operações

Nos últimos dias, além de Marcelo, outro policial foi detido ao fazer disparos entre manifestantes. Em outro episódio, a polícia encontrou tabletes de maconha na tenda armada no gramado em frente ao Congresso por membros da CUT, que chegaram ao local na quarta-feira (18), mas já levantaram acampamento. O assunto foi discutido no Plenário da Câmara entre Cunha e o presidente da Comissão de Direitos Humanos, deputado Paulo Pimenta (PT-RS).

Fábio Góis
Mas, além dos disparos a esmo, outra ocorrência deixou autoridades de segurança pública sob alerta. Na última quinta-feira (12), um manifestante anti-Dilma foi preso com um verdadeiro arsenal de combate em seu carro, estacionado em via paralela ao gramado do Congresso: além de uma pistola calibre .380, 12 cápsulas de spray de pimenta, 16 instrumentos perfuradores de coco, um canivete de modelo conhecido como soco-inglês e um bastão de madeira.

 

 

 

 

Os episódios, a pressão de parlamentares e, finalmente, a decisão conjunta põe fim à resistência de Cunha em concordar com a retirada – o deputado foi o responsável pela autorização para que os grupos acampassem no local, o que é proibido por ato conjunto do próprio Congresso, assinado em agosto de 2001 pelos então presidentes da Câmara, Aécio Neves (PSDB-MG), e do Senado, Edison Lobão (PMDB-MA). Diante dos acontecimentos, Cunha se viu obrigado a recuar depois que, por meio de nota, Rollemberg defendeu a retirada de todos os acampados do local. Antes, o próprio Renan já havia defendido a desocupação.

“O Governo de Brasília alerta para o risco iminente de conflitos de graves consequências. Para evitar novos confrontos, o governo entende que todos os grupos de manifestantes devem ser retirados das duas áreas conjuntamente. Assim, o governador Rodrigo Rollemberg está em contato com os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado Federal em busca de um entendimento para que a ação de desocupação de toda a área ocorra o mais rápido possível”, diz trecho final da nota.

Colaborou Luma Poletti.

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