Desastre com barragem da Samarco acordou “monstro” de poluentes no Rio Doce, diz perito

Leonardo Merçon/Instituto Últimos Refúgios/Divulgação

“Com a passagem da lama, que veio de uma vez com muita energia e grande volume, o movimento revolveu o fundo do leito do rio. É como se tivesse acordado um monstro”, diz Marcus Vinícius Andrade

 

Para a especialista em água da SOS Mata Atlântica, Malu Ribeiro, condições naturais também têm influenciado a situação do rio. “A seca extrema e o baixo volume de água causaram uma concentração dos poluentes, o que fez com que a poluição, apesar de imperceptível a olho nu, esteja em concentração bem maior do que no ano passado.” Para Marcus Andrade, a recuperação do rio deve demorar muito tempo. “Não é só a toxicidade do rejeito, mas a própria característica de os compostos ficarem suspensos e manter a turbidez, com a pouca transparência da água. Até hoje, isso prejudica muito a proliferação da vida aquática ou a utilização do rio.”

O perito criminal federal Rodrigo Mayrink, que é veterinário e fez exames nos peixes mortos no Rio Doce, concorda que metais pesados que aparecem nas coletas são resultado do desastre que teria revirado o fundo do leito. Ele lembra que o rio atravessa polo industrial importante em Minas Gerais, o que contribui historicamente para a poluição. “No Vale do Aço, há uma série de pequenas e médias indústrias, como de papel e celulose, que acabam jogando rejeitos no rio, que são tratados de uma forma ou de outra.”

Valor do prejuízo

O oceanógrafo e professor gaúcho Antonio Philamena, que realiza perícia independente em Mariana, faz um estudo para apontar o valor monetário do prejuízo do desastre para a sociedade. Ele utiliza duas metodologias, uma para avaliar o dano na bacia e outra para avaliar os danos indiretos. Philamena defende a valoração para subsidiar políticas públicas e legislações, a fim de coibir instalações de empresas sem aporte financeiro para lidar com cenários como esse em Minas Gerais.

“Nossa questão é entender como uma indústria de determinado valor acaba com um rio. Eu vou fazer um cálculo para avaliar qual seria o valor de um rio. Estou melhorando o modelo para servir de base. Multa é diferente de reparação. O rio virou um canal. Como uma barragem pode fazer uma destruição tão grande? Se a empresa não tem dinheiro para cobrir um desastre, não deveria funcionar.” Alguns gastos são mensuráveis, outros não. “A parte tecnológica é até mais simples, mas o impacto social não tem como calcular.”

 

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