Deputada quer que empresa devolva R$ 1,1 milhão à CPI da Petrobras

Trabalho da norte-americana Kroll se resumiu a duas páginas do relatório final do colegiado. Para Eliziane Gama, que promete acionar a PGR, foi servida a tradicional “pizza” da Casa

Membro da CPI da Petrobras, a deputada Eliziane Gama (Rede-MA) ajuizará representação na Procuradoria-Geral da República (PGR) para obrigar a empresa norte-americana de consultoria e investigações especiais Kroll a devolver R$ 1,1 milhão aos cofres públicos brasileiros. Esse foi o valor pago pelo colegiado para que a Kroll identificasse contas suspeitas e repasses ilegais de dinheiro ao exterior, sob suspeita de lavagem de dinheiro por operadores do esquema de corrupção descoberto pela Operação Lava Jato, da Polícia Federal.

Eliziane lembra que o trabalho da Kroll se resumiu a duas páginas inseridas no relatório final da CPI, elaborado pelo deputado Luiz Sérgio (PT-RJ) sem qualquer orientação de indiciamento de políticos envolvidos no esquema – como o próprio presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que aparelhou a comissão com aliados e, denunciado ao Supremo Tribunal Federal por lavagem de dinheiro e corrupção passiva, complicou-se com a descoberta de que mantinhas contas clandestinas na Suíça. Segundo investigadores suíços e brasileiros, Cunha movimentou milhões de dólares e francos suíços na Europa, como forma de lavar dinheiro de propina.

“Não podemos admitir que o dinheiro do poder público seja gasto da forma como foi. A própria Kroll chegou a suspender esse contrato, sabe-se lá por quais razões. Eu, pelo menos, não fiquei nem um pouco convencida das razões que foram apresentadas para a suspensão”, reclamou a parlamentar maranhense.

Para a deputada, houve blindagem de políticos e o trabalho da CPI fracassou – ou, na linguagem popular por ela mencionada, terminou em “pizza”. “Nós tivemos um relatório pífio e incompatível. Um relatório que nos leva, infelizmente, àquilo que está no inconsciente popular: toda CPI acaba em pizza. Deixamos, por exemplo, de ouvir o [presidente do Instituto Lula] Paulo Okamoto, o [ex-ministro Antonio] Palocci. Quando passamos a ter elementos, como as famosas contas na Suíça, a CPI para. Ou seja, a CPI não cumpriu o seu o papel”, sentenciou Eliziane, referindo-se às complicações de Eduardo Cunha.

Ainda segundo Eliziane, o relatório apresentado por Luiz Sérgio não traduz as dimensões do escândalo de corrupção que subtraiu bilhões de reais da Petrobras. “Quero deixar aqui registrado o meu descontentamento e a minha frustração por todo o trabalho que foi feito. Nós poderíamos ter tido um relatório conclusivo. Fica o meu protesto contra esse relatório na CPI da Petrobras”, arrematou a parlamentar, que participou da votação do parecer final e dos sub-relatórios na madrugada desta quinta-feira (22).

754 páginas e nenhum indiciamento

Em sessão que fugiu dos holofotes e adentrou a madrugada, o relatório final foi aprovado por 17 votos a nove, com uma abstenção, e isenta de responsabilidade nas irregularidades da Petrobras o ex-presidente Lula, a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidentes da estatal José Sérgio Gabrielli e Graça Foster. Com 754 páginas, o texto não pede o enquadramento de qualquer parlamentar e apenas lista sugestões de indiciamento formuladas pelos quatro sub-relatores da comissão. Um dos nomes apontados é o do ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, incluído de última hora pelo relator para garantir a aprovação do documento.

Em suas conclusões, a CPI critica duramente as investigações da Lava Jato, sobretudo o número de delações premiadas e a tese de que houve pagamento de propina disfarçado de doações oficiais a partidos políticos. De acordo com o relatório, não houve “corrupção institucionalizada” na Petrobras. Segundo Luiz Sérgio, a estatal foi vítima de um cartel de empreiteiras que contou com a participação de maus funcionários da petrolífera.

Por outro lado, parlamentares de PMDB, PSDB, Psol, PPS, PHS e PSD atacaram o relatório. O deputado Ivan Valente (Psol-SP), por exemplo, acusou governistas e oposicionistas de promoverem um grande acordo para não incluir os nomes de políticos investigados. “Colocaram que não temos pernas para acompanhar as investigações da Lava Jato e que não poderíamos ser cobrados por isso. A CPI poderia ter andando mais rápido com os políticos, porque, aqui, os que estão sendo processados têm foro privilegiado, e tínhamos a prerrogativa de convocar deputados, senadores, ministros e ir adiante. E nós não o fizemos”, lamentou.

Mais sobre CPI da Petrobras

Mais sobre Operação Lava Jato

Mais sobre Eduardo Cunha

Continuar lendo

Assine e obtenha atualizações em tempo real em seu dispositivo!