Deputada quer júri de político que matou filho dela

Christiane Yared critica decisão de Lewandowski que adia julgamento do ex-deputado estadual Carli Filho, que provocou a morte de seu filho e um amigo enquanto dirigia embriagado em alta velocidade. "País que não pune, não educa"

A deputada Christiane Yared (PTN-PR) disse nesta terça-feira (19) que “o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Ricardo Lewandowski, foi induzido a erro por assessores” ao suspender, na semana passada, o júri popular do ex-deputado estadual paranaense Luiz Fernando Ribas Carli Filho. Christine teve seu filho Gilmar Yared, de 26 anos, e o amigo dele, Carlos Murilo de Almeida, de 20 anos, mortos num acidente de carro em 2009. O ex-parlamentar é acusado de participar de um racha, em alta velocidade e sob efeito de álcool, quando bateu no veículo em que estavam os rapazes.

Agora, a esperança de Christiane é que a ministra Carmem Lúcia, presidente em exercício do STF durante as férias de Lewandowski, já em curso, revogue a liminar e que Carli Filho vá a júri ainda esta semana.

“Ainda acredito que esse júri será um divisor de águas no país. País que não pune, não educa”, disse Christiane ao Congresso em Foco. “Nós não vamos desistir e vamos levar o senhor Luiz Fernando Ribas Carli Filho ao banco dos réus”, insistiu a deputada.

Na última quarta-feira (14), a parlamentar e seu marido, Gilmar Yared, receberam a notícia de que o ministro Ricardo Lewandowski, presidente d o Supremo Tribunal Federal, havia suspendido o júri popular do acusado, que estava marcado para esta semana.

Negado

Os advogados do ex-deputado tentam, no STF, por meio de recurso especial com agravo, desclassificar o crime para duplo homicídio culposo, recurso que, segundo Yared, já havia sido negado pelo ministro Gilmar Mendes. O ex-deputado estadual Carli Filho responde por homicídio doloso eventual. Um exame detectou 7,8 decigramas de álcool por litro de sangue de Carli. O exame foi desclassificado pela Justiça porque o material foi colhido com o ex-parlamentar desacordado - portanto sem seu consentimento, o que contraria a lei. O acusado dirigia um carro blindado.

Na semana passada, a parlamentar conseguiu se reunir com o ministro Lewandowski, em Curitiba. Depois do encontro no Palácio da Justiça, sede do Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR), Christiane disse esperar que o júri do ex-deputado seja marcado para daqui a dois ou três meses.

Yared entregou um memorial do caso para o magistrado, responsável pela liminar que suspendeu o júri de Carli Filho. A deputada disse que Lewandowski foi atencioso e explicou a ela que suspendeu o julgamento porque há recursos impetrados pela defesa do ex-deputado que ainda não foram avaliados. Se o júri ocorresse antes da avaliação desses recursos, o julgamento poderia ser anulado, disse o ministro.

Música

A deputada é uma empresária curitibana do ramo de alimentação que entrou para a política para buscar justiça contra a impunidade nos crimes de trânsito. Filha de desembargador, nasceu em Curitiba, onde estudou piano, tornou-se professora de música. Após a morte do filho, criou uma ONG de apoio a vítimas e familiares de acidentes de trânsito. Tornou-se a deputada mais votada no estado em 2014, em sua primeira eleição, com mais de 200 mil votos.

Multa

O marido de Christiane, Gilmar Yared, recebeu nessa terça-feira uma informação que pode mudar o rumo do caso. Um motorista que recebeu uma multa de trânsito emitida por um radar instalado a poucos metros do local das mortes enviou para a família uma cópia do auto de infração, registrado quatro minutos antes do desastre, o que contraria as informações da empresa responsável pelos radares de Curitiba.

Na época do caso, a empresa Consilux declarou que não podia fornecer as imagens do trajeto percorrido pelo ex-deputado Carli Filho, porque segundo ela os equipamentos estavam desligados naquele dia. A notícia reforça as suspeitas da família de que as imagens tenham sido removidas.

Abaixo a entrevista exclusiva da deputada Christiane Yared.

Congresso em Foco – Deputada, alguma novidade quanto à suspensão do júri do ex-deputado Carli Filho?

Christiane Yared – Estamos numa briga, aqui, para ver se conseguimos que a ministra Carmem Lúcia possa reverter essa situação. Porque esperaram o ministro Gilmar Mendes sair de férias, o ministro Lewandowski foi induzido a um erro, e vamos ver se a gente consegue reverter, de modo a manter o júri para esta quinta, ainda, se a ministra revogar a liminar.

Quem induziu o ministro Lewandowski a erro?

Ah, os próprios assessores. Você sabe como funciona isso, não é? Favor de um, favor de outro...

Mas, se tivesse sido mantida a data, o processo correria mesmo risco de ser anulado, conforme explicou o ministro Lewandowski?

Eu acho que não. Porque o pedido deles é para decidir se é culpa ou dolo. Mas se é doloso ou culposo é o próprio júri quem decide, não o STF. Esse recurso não suspende o júri. O MP do Paraná acredita que a reversão é possível, a depender do entendimento da ministra. O ministro Gilmar Mendes já havia negado esse recurso.

Como a senhora vê alguns tipos de manobras protelatórias que podem ser feitas junto a tribunais?

A Justiça precisa ser mais célere. A justiça, quando demorada, acaba prejudicando o país todo. Esse clima de impunidade que reina no país é uma coisa maligna. Já não é sensação de impunidade, é certeza mesmo. Isso acaba dando ao infrator o direito de que ele pode matar no trânsito que não será punido.

E o Congresso, o que se pode fazer? Quais as principais dificuldades que a senhora vê?

Nós, como legisladores, podemos rever algumas situações e fechar essas brechas. Reunir os legisladores que entendam do assunto e ver a necessidade da sociedade. Não adianta reunir notáveis que possam acabar criando uma legislação mais retrógrada ainda. O novo Código Penal, por exemplo, tem lá no artigo 21 uma emenda que a gente apelidou de “emenda Carli Filho”, porque foi proposta pelo próprio advogado defensor da família Carli, que é um ilustre jurista, chamado um dos notáveis. É o artigo 121 do novo CP, um artigo que beneficia todo aquele que mata fazendo racha em alta velocidade, usando carro, jet ski, moto, ultraleve, essas coisas que pobre não tem. Propõe que o ato só seja considerado crime doloso se a pessoa confessar que assumiu o risco de matar. Ora, quem mata dirigindo em alta velocidade, drogado, bêbado, disputando racha, vai dizer que quis matar cinco pessoas num ponto de ônibus? Ora, não eu tenho mais dois filhos, tenho netos.

E no Legislativo, quais as dificuldades que a senhora vê, para acabar com a impunidade nos crimes de trânsito?

Precisamos fazer com que as leis sejam cumpridas. Tem muita brecha. Em maio, vai fazer sete anos da morte do meu filho. Tudo pronto para o julgamento. Aí a defesa arranja outro recurso. Essas brechas precisam ser removidas. Também não se pode garantir à pessoa que bebeu e matou no trânsito o direito de não produzir provas contra si. O teste do bafômetro tem de ser obrigatório. Por que um crime contra um passarinhou ou uma árvore é inafiançável e o crime de trânsito, que mata filhos das pessoas, não? Também é preciso reduzir a quantidade de 0,06 ml de álcool permitida para motoristas pela Lei Seca. Dependendo da pessoa, isso tira sua saúde mental, incapacita o indivíduo para dirigir.

Como está sua vida depois dessa mudança de empresária, professora de música e filha de jurista, para o papel de parlamentar em busca de justiça?

Sou uma pessoa muito temente a Deus e sinto que para tudo na vida há um propósito. Nada acontece por acaso. Quando eu e meu esposo decidimos plantar o meu filho – não gosto de falar que enterrei, eu o plantei -, eu decidi deixar um legado para o meu país. Eu sou mãe, estou deputada. E quero fazer com quer esses quatro anos valham para todos os meus irmãos brasileiros. Eu não conseguia compreender isso, que estamos todos ligados, até perder o meu filho. Cada vez que você acende uma luz para outra pessoa, você está iluminando o seu caminho também. O problema não é só na casa do vizinho, na Assembleia Legislativa, no Congresso, na presidente. O problema é de todos. O país que eu quero começa em mim.

E a possibilidade de uma reeleição?

Se as pessoas entenderem que posso ser útil em representa-las, estou à disposição, já falei. Não vou desistir de lutar pelas coisas em que acredito.  Já tive propostas, em Brasília, de empresas grandes, fabricantes de bebidas, me oferecendo recursos, propostas milionárias, em troca de parar de bater em certos assuntos. Sempre respondi que a conversa era muito desconfortável para mim. Se o meu país começa em mim, eu tenho de ser a primeira a dizer não. Não dá para eu deixar para o meu sucessor essa tarefa. A hora da mudança é agora.

Qual sua opinião sobre a propaganda de bebida na TV?

Estamos preparando um projeto visando a proibir a veiculação da cerveja. Como já não tem de cigarro. É uma briga enorme, vamos lutar contra gigantes. Então, é preciso dar o primeiro passo. O que não posso aceitar é o que vejo diariamente nos meios de comunicação: inocentes morrendo, filhos que enchiam as casas de alegria agora estão enchendo cemitérios. Precisamos de campanhas massivas de conscientização das pessoas. Informar que o crime de trânsito gera prisão. Esta luta não é só minha. É de todos nós, brasileiros.

Leia íntegra de matéria com cópia de multa

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