Depoimentos expõem racha na CPI do Cachoeira

Apenas nas primeiras sessões, deputados e senadores já estão divididos. Enquanto a maioria governista quer investigação centrada no bicheiro, parte da oposição quer aumentar o foco de trabalho

A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) que investiga a relação do bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, com agentes públicos e privados mal começou, mas já visível a divisão entre parlamentares da base e da oposição. Enquanto petistas defendem o foco na atuação da organização supostamente chefiada pelo contraventor, tucanos querem abrir as investigações, chegando a governadores, políticos citados e até ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel.

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Nesta semana, ocorreram as duas primeiras oitivas da CPMI. Na terça-feira (8), foi ouvido o delegado da Polícia Federal Raul Alexandre Marques Sousa. Ele comandou a Operação Vegas. Hoje, prestou depoimento aos deputados e senadores o delegado Matheus Mella Rodrigues, responsável pela Operação Monte Carlo. Segundo o policial, Cachoeira tinha uma empresa sediada na ilha Curaçao, país autônomo vinculado ao Reino dos Países Baixos no Caribe usado como paraíso fiscal. Somente a oitiva de Rodrigues consumiu aproximadamente nove horas e meia. Das palavras deles depende a convocação ou não da subprocuradora-geral Cláudia Sampaio, mulher de Roberto Gurgel. Ela é quem deveria ter dado um parecer sobre a Operação Vegas, fato que não ocorreu até hoje.

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O que intensificou o racha entre os integrantes da CPI foi a divulgação, pelo delegado, de uma lista de mais de 80 nomes que aparecem citados nos grampos da investigação. O delegado Matheus deixou claro que informava apenas os nomes de pessoas que eram mencionadas em conversas, e não que elas teriam ligação com o esquema. Até a presidenta Dilma Rousseff é citada.

"Eu acho que essa é uma CPI do Cachoeira. Todo mundo pode querer colocar tudo... mas eu acho que essa CPI precisa ter um foco. Investigar a organização do Cachoeira e seus tentáculos e se limitar a isso aí, porque quem tanto abraça, pouco aperta", afirmou o deputado Paulo Teixeira (PT-SP). A bancada do PT na CPMI, com o maior número de representantes, tem posição fechada sobre o assunto. Desde o início, os parlamentares ressaltam que a investigação deve se limitar a Cachoeira.

O principal argumento para isso é a quantidade de informações já disponíveis. Para deputados e senadores se debruçarem sobre os inquéritos das operações Vegas e Monte Carlo - ambas relacionadas ao jogo ilegal em Goiás e em outras unidades da federação -, vai precisar de muito tempo. Ao aumentar o foco das investigações, o corte dado em cada um será mais superficial. "Não podemos banalizar as convocações", acrescentou o deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP).

Na visão dos governistas, investigar a relação de Cachoeira com os governos federal e estaduais vem em um segundo momento. Isso se ele vier a acontecer. "O que a gente não pode é querer ampliar tanto para não investigar quem está. Quem está dentro da organização, trabalhou para ela e recebeu por ela, tem que ser investigado e punido. Agora, a ampliação faz o seguinte: faz perder o foco dessa investigação", ressaltou Teixeira, que liderou a bancada do PT no ano passado.

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"Fatos novos apareceram que justificam um novo foco da comissão", afirmou o líder do PSDB no Senado, Álvaro Dias (PR). O tucano defende, por exemplo, a convocação do procurador-geral da República. Após o depoimento do delegado Raul, na terça-feira, é consenso entre os parlamentares da comissão que Gurgel deve explicações. No entanto, governistas cogitam, no máximo, uma representação ao Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Já a oposição quer convocá-lo. Se não for possível, cogitam chamar sua mulher, Cláudia Sampaio.

Para o deputado Francisco Francischini (PSDB-PR), os governistas se recusam a ampliar o foco das investigações com o receio de trazer a construtora Delta para a CPMI. "O perder o foco é pegar novos peixes, que podem dar problema para o governo. Investigar a Delta no país inteiro é colocar o próprio governo e as obras do PAC na investigação", opinou.

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