Depoimento de Eike levou Mantega à prisão, diz MPF

Empresário contou que, a pedido do então ministro da Fazenda, destinou US$ 2,3 milhões ao casal João Santana e Mônica Moura, que fizeram as campanhas de Dilma e Lula. Pedido de prisão foi deferido ainda em agosto, segundo procurador da Lava Jato

Antonio Araújo/Câmara dos Deputados
A prisão temporária do ex-ministro Guido Mantega - um dos alvos da 34ª fase da Operação Lava Jato, batizada de Arquivo X - já havia sido determinada pela Justiça há mais de um mês, segundo investigadores da força-tarefa. O pedido de prisão foi feito pelo Ministério Público em julho, e foi deferido em agosto. No entanto, só foi cumprido nesta quinta-feira (22) "por questões operacionais" como a realização dos Jogos Olímpicos Rio 2016, explicou o procurador da República Carlos Fernando Lima, durante coletiva de imprensa após a ação.

"As medidas eram necessárias e estavam há muito tempo deferidas. Não havia como prever o infortúnio de estar Guido Mantega no hospital", disse o procurador.

O delegado da Polícia Federal Igor Romário disse que, quando os agentes chegaram à residência do ex-ministro, encontraram apenas a empregada doméstica e o filho de 16 anos de Mantega, que estava no hospital Albert Einstein, acompanhando a esposa em  um procedimento cirúrgico. "Não houve entrada de policiais no hospital, muito menos no centro cirúrgico para retirar o ministro", esclareceu o delegado. "A cirurgia não era de conhecimento nosso", acrescentou.

Ele disse que o ex-ministro recebeu duas ligações antes de encontrar parte da equipe de agentes que o aguardava próximo ao hospital. "A cirurgia ainda não havia começado. Ele aguardava com a esposa quando foi comunicado", afirmou Igor Romário.

Acompanhado dos agentes, Mantega retornou ao apartamento, onde foi cumprido o mandado de busca e apreensão na presença dele. O ex-ministro segue de São Paulo para Curitiba ainda hoje, onde ficará na superintendência da PF.

Carlos Fernando Lima informou que o ex-ministro estava sendo investigado desde 2015, em função de um depoimento prestado em agosto por um delator, mas foram as informações apresentadas espontaneamente pelo empresário Eike Batista, em junho de 2016, que resultaram na prisão de Mantega. "Ele [Eike Batista] compareceu espontaneamente à Procuradoria da República, prestou depoimento onde narrou os fatos e apresentou provas", disse o procurador, que enfatizou que, nessa condição, o empresário "é ouvido como testemunha, e não como colaborador".

Na ocasião, o empresário disse que se reuniu com Mantega em novembro de 2012, quando o então ministro da Fazenda e presidente do Conselho de Administração da Petrobras pediu R$ 5 milhões para quitar dívidas de campanha do Partido dos Trabalhadores, supostamente referentes às eleições de 2010. Eike informou aos investigadores que Mantega fez o pedido e que o pagamento foi operacionalizado por meio de um contrato firmado com a empresária Mônica Santana, esposa do marqueteiro João Santana - ambos denunciados na operação. Após uma primeira tentativa frustrada de repasse em dezembro de 2012, em abril de 2013, foi realizada transferência de US$ 2,35 milhões, no exterior, entre contas de Eike Batista e dos publicitários.

"Guido Mantega era ministro e membro do Conselho das Petrobras, uma proximidade muito grande para que nós não consideremos como suficientes para iniciar e aprofundar a investigação a respeito", disse o procurador.

Questionado sobre a necessidade de tomar medidas também contra o empresário, o procurador disse que Eike será investigado, mas que, neste momento, não há por que prendê-lo. "Neste caso não verificamos necessidade dele ser conduzido ou preso temporariamente", declarou.

Ao final da coletiva, o procurador comentou o andamento da operação: "A Lava Jato é muito maior do que a Petrobras. Hoje é uma investigação sobre o financiamento da política eleitoral no Brasil".

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