Delação de Pedro Corrêa cita Lula, Dilma, Aécio e políticos de vários partidos

Depoimento ainda não homologado pela Justiça faz longo relato sobre diversas fases do esquema de corrupção descoberto na Petrobras pela Lava Jato. Revista Veja teve acesso ao documento

Em depoimento de 132 páginas e 72 anexos, o ex-deputado pernambucano Pedro Corrêa (PP), delator da Operação Lava Jato, faz um relato com detalhes sobre esquemas de corrupção executados desde a época da ditadura militar na Petrobras. No documento, obtido pela revista Veja, o ex-parlamentar aponta como beneficiários de propina governadores, ex-governadores, senadores, deputados, ministros e ex-ministros de diversos partidos, além de ministros do Tribunal de Contas da União. A colaboração premiada ainda não homologada pela Justiça. Segundo estimativas da Lava Jato, o esquema de corrupção desviou R$ 89 bilhões de contratos com a petrolífera.

Médico por formação, Pedro Corrêa declarou ao juiz federal Sérgio Moro, responsável pela Lava Jato na Justiça comum, como funcionava o esquema de desvios na Petrobras e era acertada a partilha de cargos e dinheiro no governo Lula (2003-2010). O ex-deputado dá detalhes, segundo a revista, sobre episódios e negociatas que eram feitos dentro do Palácio do Planalto durante a gestão do petista. Ainda de acordo com a reportagem, Lula gerenciava pessoalmente o esquema de corrupção na estatal – “da indicação dos diretores corruptos da estatal à divisão do dinheiro desviado entre os políticos e os partidos”, registra o texto assinado pelo repórter Robson Bonin.

A revista informa, sempre com base na delação de Pedro Corrêa, que Lula foi o responsável pela indicação e manutenção de Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento da estatal condenado por Moro a sete anos e seis meses de prisão como um dos operadores das irregularidades em contratos com empreiteiras. O delator descreve situações em que o ex-presidente discutiu com caciques do Partido Progressista, legenda com mais investigados na Lava Jato, sobre a farra nos contratos no departamento comandado por “Paulinho” – como Lula e demais interlocutores o chamavam.

“Uma das passagens mais emblemáticas, segundo o delator, se deu quando parlamentares do PP se rebelaram contra o avanço do PMDB nos contratos da diretoria de Paulinho. Um grupo foi ao Palácio do Planalto reclamar com Lula da ‘invasão’. Lula, de acordo com Corrêa, passou uma descompostura nos deputados dizendo que eles ‘estavam com as burras cheias de dinheiro’ e que a diretoria era ‘muito grande’ e tinha de ‘atender os outros aliados, pois o orçamento’ era ‘muito grande’ e a diretoria era ‘capaz de atender todo mundo’”, diz trecho da reportagem.

Paulo Roberto Costa foi um dos primeiros a firmar colaboração premiada na operação. Em um dos trechos da pré-delação de Pedro Corrêa, Lula cobra do ex-presidente da Petrobras José Eduardo Dutra (morto em outubro de 2015) pressa na nomeação de Costa na diretoria de Abastecimento. “Oh, Dutra, nós não nos comprometemos com o PP, que indicou o Dr. Paulo Roberto, já há algum tempo, para a Diretoria de Abastecimento da Petrobras. Porque até agora ele não foi nomeado?”. Segundo a delação, Dutra respondeu dizendo que se tratava de questão delicada na petrolífera. “Porque essa mudança de diretor é um assunto complicado dentro da Petrobras. Está havendo resistências, além de a competência não ser só minha para nomeá-lo”, diz o ex-dirigente.

Dilma

Em outro anexo da pré-delação, Pedro Corrêa diz que a própria presidente afastada Dilma Rousseff prometeu, em 2003, ajudar na nomeação de Paulo Roberto Costa. Na época, segundo o relato, Dilma era ministra de Minas e Energia e tratou do assunto em uma reunião na casa de João Claudio Genu, ex-assessor de José Janene (ex-deputado do PP paranaense morto em setembro de 2010), quando se discutiu uma reforma no setor elétrico.

Segundo Pedro Corrêa, Dilma foi ao encontro do assessor e de um grupo de deputados do PP para saber dos termos da indicação da relatoria da reforma para o partido. A delação lembra que Janene, à época da reunião, presidia a Comissão de Minas e Energia da Câmara, e seu partido queria assumir a função. “O PP aproveitaria a oportunidade da relatoria para levantar valores de propina em troca de proposições específicas na Reforma para atender aos interesses dos empresários do setor para o pagamento de propina”, registra trecho do anexo.

No anexo seguinte, quando Pedro Corrêa relata episódios de 2010, há o registro de que Dilma foi a uma reunião para prestigiar Paulo Roberto Costa na casa do ex-deputado João Pizzolati (PP-SC). À época candidata à Presidência da República, continua a delação, Dilma se comprometeu com a manutenção de Costa no Abastecimento e a preservar o comando do Ministério das Cidades com o PP. A petista aproveitou a ocasião para pedir dinheiro para a campanha presidencial, acrescenta o ex-deputado.

Gestão FHC

A delação de Pedro Corrêa menciona também a indicação do senador cassado Delcídio do Amaral, ex-líder do governo Dilma no Senado, para a diretoria de Gás e Energia da Petrobras na gestão Fernando Henrique Cardoso (1995-2002). Segundo Veja, coube ao atual ministro-chefe da Secretaria de Governo do interino Michel Temer, Geddel Vieira Lima, bancar a nomeação de Delcídio. Nesse ponto da reportagem, a revista transcreve um diálogo que, incluído na delação, mostra FHC e Geddel falando do assunto.

Confira trecho do diálogo:

FHC: Geddel, eu preciso de um novo nome. Um nome mais técnico para a Diretoria de Gás e Energia.

Geddel: Presidente, o Delcídio foi diretor da Eletrosul, da Eletrobras, secretário-executivo de Minas e Energia e ministro de Minas e Energia. Ninguém é mais técnico do que o Delcídio para esta função.

FHC: Mas eu gostaria de mais um nome...

Geddel: Então o senhor escolha um Reischul (genro de FHC e presidente da BR Distribuidora) da vida, que nós não temos outro nome. Só temos o de Delcídio.

FHC: (após alguns segundos) Está bem. Até logo, Geddel.

PMDB e PSDB

Segundo a revista Veja, Pedro Corrêa relatou que o PMDB cobrou, em 2006, para afiançar a manutenção de Paulo Roberto Costa e Nestor Cerveró, também ex-diretor da Petrobras. Segundos os relatos, o partido cobrou propina de US$ 18 milhões – valor a ser pago a tempo de financiar a campanha eleitoral daquele ano –, mas só recebeu US$ 6 milhões.

Corrêa declarou que atual ministro do Turismo, Henrique Eduardo Alves, embolsava parte de todo o montante arrecadado no quinhão do PMDB. Presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), réu na Lava Jato, também recebeu parte dos US$ 6 milhões, segundo o relato. O ex-deputado afirmou ainda que o ex-ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, senador do PMDB maranhense, também era beneficiado com dinheiro desviado de contratos com empreiteiras.

A delação também que políticos cobravam vantagens de empresas que se candidatavam a tocar projetos do programa “Minha Casa Minha Vida”, um dos carros-chefe do governo Dilma, e que o senador Aécio Neves (MG), presidente nacional do PSDB, negociou pagamentos para a legenda por meio de desvio em contratos para Furnas Centrais Elétricas. Aécio, Lula e Dilma também foram mencionados como beneficiários do petrolão em outros depoimentos, como o que Delcídio firmou depois de ser preso, em novembro do ano passado.

A defesa de Pedro Corrêa na Lava Jato não confirma o conteúdo da delação, que ainda está sob exame dos investigadores da Lava Jato. A não confirmação não significa que os advogados neguem a veracidade das informações.

 

Leia trecho da reportagem

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