CPI ajudou defesa de Cachoeira, diz deputado

Fernando Francischini diz que, ao mandar perguntas para o advogado do bicheiro Carlos Augusto Ramos, alguns membros da CPI prepararam terreno para a defesa do acusado

O deputado e delegado Fernando Francischini (PSDB-PR) irritou-se com a atitude de alguns de seus colegas na CPI do Cachoeira, que entregaram ao ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, advogado de Carlinhos Cachoeira, perguntas por escrito na esperança de que o bicheiro as respondesse depois. Para Francischini, diante da constatação óbvia de que Cachoeira nada responderá, a única coisa que esses parlamentares fizeram foi adiantar à defesa do bicheiro possíveis linhas de investigação. “Deram de presente pro Márcio Thomaz Bastos toda a linha de investigação”, reclamou o deputado.

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O deputado só fez duas perguntas simples ao bicheiro e deixou guardadas as mais importantes. “Não quis revelar as minhas cinco perguntas, porque senão eu daria munição ao competente Márcio Thomaz Bastos para preparar o Cachoeira no dia em que ele voltar para respondê-las”.

O deputado entende que Cachoeira não fez bravata ao afirmar na CPI que “tem muito a dizer”, apesar do silêncio combinado com sua defesa. O delegado acredita que o bicheiro poderia ser um colaborador da Justiça e obter um acordo de delação premiada, já que sua condenação na 11ª Vara Federal de Goiânia é dada como certa. Mas ontem Márcio Thomaz Bastos negou a possibilidade de acordo com os investigadores do caso.

Assim como outros parlamentares da CPI, Francischini defende a quebra imediata de todos os sigilos da Delta Construções – e não só da filial no centro-oeste. Essa é o principal foco do momento, na opinião do deputado. O presidente da comissão, Vital do Rego (PMDB-PB), ontem disse que estuda mudar o rumo da apuração para evitar o que Francischini prevê: uma série de inúteis depoimentos regados a silêncio.

Silêncio de Cachoeira pode mudar rumo da CPI

Prisão de traficante e de falso teólogo

Francischini foi oficial do Exército e policial militar antes de ingressar na PF. Evangélico, é contrário à legalização da maconha e à ampliação das possibilidades de aborto. Atua na defesa de bandeiras ligadas à religião com o mesmo pé em que briga por uma legislação mais dura com traficantes e criminosos do colarinho branco. Na Interpol, trabalhou o setor de repressão a drogas.

Em seu livro Em nome da lei, Francischini descreve os detalhes da prisão do traficante colombiano Juan Carlos Rámírez Abadia, um de seus maiores feitos como delegado da PF.

No seu primeiro mandato como deputado, ele armou um flagrante dentro de seu gabinete, no anexo III da Câmara. Francischini deu voz de prisão a uma pessoa que tentava se passar por dirigente de uma ordem de teólogos aparentemente de fachada para cooptar parlamentares. O falso pastor acabou preso pela Polícia Legislativa da Câmara, que abriu inquérito para apurar o caso.

No fim do depoimento de Cachoeira, no final da tarde de terça-feira, Francischini falou com o Congresso em Foco em seu gabinete. Veja a entrevista:

Congresso em Foco – Que perguntas importantes a CPI ainda não respondeu?
Fernando Francischini –
É a questão da Delta. A quebra do sigilo nacional. A Delta não tem como estar meio envolvida no crime organizado. Se no Centro-Oeste a Delta estava envolvida com o crime organizado e mostra um modus operandi capaz de corromper um senador da República, deputados, se envolver com governadores, não há por que se imaginar que isso acontecia também em outras regiões. A Delta recebeu dinheiro público em sua conta. Nós queremos saber para onde foi esse dinheiro. Se havia empresas laranjas recebendo esse dinheiro, se houve doações ocultas, como já apareceram várias até o momento. Agora, enquanto a gente ficar blindando a Delta e o governo usando rolo compressor para impedir essa votação [do requerimento de quebras de sigilos], nós não vamos avançar. Semana passada, eu tive o compromisso – hoje confirmado pelo presidente e pelo relator – de pelo menos seguir o que a democracia brasileira diz: botar em votação. As coisas no Congresso e na democracia são decididas no voto. Meu requerimento de convocação dos governadores, do Marconi [Perillo, PSDB], que pediu para ser convocado, do Agnelo [Queiroz, PT] e do Sérgio Cabral [PMDB] tem que ser votados. A quebra de sigilo nacional da Delta, um requerimento meu, também tem que se votar. Porque até agora a CPI está na UTI. Ela só está repetindo o que a Polícia Federal já fez na Monte Carlo e na Vegas. Uma CPI serviria para investigar o envolvimento de políticos com o crime organizado. E nós só vamos chegar nos políticos seguindo o dinheiro. Você chega no político seguindo o dinheiro que entrou na conta da Delta, para qual empresa foi, para qual empresa laranja, aonde circulou. Se o Coaf [Conselho de Controle de Atividades Financeiras] fez indicativos de movimentação atípica.

Em Goiás, já surgiram indícios de que dinheiro possa ter ido parar nas contas de campanha do governador Marconi Perillo. Isso acontece em outros estados também?
Em vários casos, eu já vi indícios de doação de campanhas. É o que precisamos aprofundar investigando a Delta não só no Centro-Oeste mas em todo o país. A Delta tinha um modus operandi. Precisamos saber: além de Goiás, onde mais essa Delta está enfiada?

O senhor acha que a convocação do Fernando Cavendish pode trazer alguma informação ou pode ser como a do Carlinhos Cachoeira?
Eu acho que o mau exemplo do Cachoeira, bem orientado pelo competente Márcio Thomaz Bastos, vai servir de mau exemplo para todos os outros que vão ser ouvidos na CPMI. Dificilmente agora alguém vai depor na CPI. Todos vão permanecer calados.

Em várias CPIs já houve esse silêncio.
Mas eu acho que dessa vez... Nunca nós tivemos tantos governadores, deputados, um componente envolvendo a maior empreiteira do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). A “mãe” do PAC é a presidente Dilma Rousseff, que era chefe da Casa Civil. São componentes explosivos que, se bem investigados, podem causar grandes transtornos políticos para o governo, para partidos de todos os espectros de poder, inclusive o meu partido.

Isso não pode levar o PSDB a colaborar para que a CPI nada apure?
Mas o PSDB quer apuração. Quando ele põe como membro da CPMI um delegado da Polícia Federal e um promotor de Justiça, que é o deputado Carlos Sampaio [SP], ele dá um indicativo de quer uma apuração.

O que basearia a ampliação da investigação da Delta em todo o território nacional?
Temos interceptações telefônicas que mostram Cachoeira conversando com o senhor Cláudio Abreu, que era diretor da Delta no Centro-Oeste, falando de contratos com a Delta no sudeste, pedindo que os contratos que vão fechar com a Delta englobem todo o Brasil.

Cachoeira disse que tem “muito a dizer” e que depois poderia ser convocado.
Achei um desrespeito com a CPMI. Ele acha que está tratando com as pessoas que ele corrompeu, os parlamentares que ele corrompeu. Na verdade, eu chamei a atenção dele e cobrei do presidente uma ação enérgica em relação ao investigado porque, em tom jocoso, ele disse que não iria falar, mas que, quando pudesse falar, a gente ia ver. Então, eu acho que ele ali, como investigado, causou danos ao país, à imagem do país, mostrou o crime organizado dentro das esferas do poder. Ele tem que vir é colaborar agora. Por isso eu propus que ele aceite uma delação premiada com o Ministério Público para a gente ter um resultado satisfatório.

A condenação dele na 11ª Vara Federal em Goiânia é certa, não?
Certeza. Não tenho a mínima dúvida da condenação. Agora, ele pode diminuir sua pena. Como? Entregando provas, fazendo depoimentos com indícios verdadeiros de quem são os políticos, quem são as autoridades e aonde foi parar o dinheiro público envolvido.

O senhor acha que ele falou aquilo por bravata ou ele realmente tem informação que pode ajudar?
Tenho certeza de que ele tem informações, tem gravações, tem vídeos guardados, que podem desbaratar a grande organização criminosa no poder público.

Seu partido pode ser investigado. O PSDB está unido? Semana passada, na votação de requerimento para convocar governadores, o senador Álvaro Dias (PR) disse que, se convocassem o Perillo, pediria a do Agnelo. Depois, ele votou a favor da convocação dos governadores e o senhor e o Sampaio votaram contra. O que está acontecendo?
A bancada dos deputados federais do PSDB está unida. Votam juntos e decidem juntos. Eu só posso falar como deputado. Eu acho que o PSDB, quando escolheu um delegado e um promotor de Justiça, sabia que nós íamos nos unir para investigar. Investigar não é sair açodadamente atropelando tudo, mas quebrando o sigilo devido de quem está envolvido, ouvindo as pessoas que ainda não foram chamadas para depor, apoiando o Ministério Público e a Polícia Federal para que continuem nos fornecendo informações novas que venham a surgir no curso das investigações que ainda estão ocorrendo. Esse é o papel dos deputados federais do PSDB na CPMI.

O deputado Carlos Sampaio disse ao Congresso em Foco que a CPI está no ritmo certo, que esse é o caminho para se chegar os políticos. Mas o senhor diz que CPI está na UTI.
Temos duas visões de pessoas que querem o mesmo. Eu sou mais ácido nas críticas, por realmente acreditar que eu preciso do apoio da opinião pública brasileira através da mídia para que a pressão dos eleitores em cima dos seus deputados e senadores nos ajude a votar esses requerimentos.

Que perguntas o Cachoeira poderia responder objetivamente hoje [ontem] ao senhor?
Eu me reservo o direito de guardá-las. Fiz duas perguntas simples. Mas eu não quis revelar as minhas cinco perguntas, porque senão eu daria munição ao competente Márcio Thomaz Bastos para preparar o Cachoeira no dia que voltar para respondê-las.

E os parlamentares que entregaram as perguntas por escrito?
Deram de presente pro Márcio Thomaz Bastos toda a linha de investigação. Mas tenho certeza que vários dos deputados e senadores – eu acompanhei – não fizeram perguntas e vários deles também guardaram as perguntas verdadeiras para a possível volta do senhor Cachoeira à CPI.

Tem gente que entregou perguntas falsas?
Não falsas, mas aquelas que não eram as mais fortes. Tenho certeza que a grande maioria dos parlamentares se resguardou e guardou as perguntas mais incisivas, sabendo que sem resposta não tinha por que fazer perguntas.

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