Corrupção leva à prisão e ao ostracismo cinco dos principais caciques políticos de Brasília

Para o pesquisador Leonardo Barreto, excesso de poder e defeitos do sistema político favorecem práticas criminosas. Tema será tratado nesta quinta em debate promovido pelo Congresso em Foco sobre os grandes desafios da capital do país

 

Agência Brasil

 

 

O primeiro senador cassado da história da República (Luiz Estevão), o primeiro governador preso no exercício do mandato (José Roberto Arruda). Dois ex-senadores e um ex-vice-governador encarcerados (Arruda, Gim Argello e Benedito Domingos). Dois ex-senadores que renunciaram ao mandato para escapar da cassação (Arruda e Joaquim Roriz). Em comum entre eles, a condição de caciques regionais acusados de corrupção que vivem hoje entre o ostracismo político, a prisão e os rolos judiciais. Neste começo de século, a política de Brasília se tornou pródiga na produção de escândalos. A série parece não ter fim: o comando do Legislativo do Distrito Federal, por exemplo, está afastado há quase dois meses de suas funções, após determinação judicial, por suspeita de envolvimento em um esquema de corrupção.

Mas por que a capital do país, que já abriga centenas de parlamentares sob investigação dos 26 estados do país, também gera tantos políticos acusados de irregularidades? Para o cientista político Leonardo Barreto, a vida centrada no poder público e os defeitos do sistema eleitoral favorecem o envolvimento de autoridades com corrupção. “Há um excesso de dependência do poder público. Essa vinculação excessiva cobra um preço alto de Brasília”, avalia. “Na capital, quem é empresário vira fornecedor do poder público. Há diversas categorias vinculadas ao serviço público. Isso gera muitas possibilidades de desvios”, complementa o cientista político, sócio da consultoria Factual Informação e Análise.

Doutor em Ciência Política, Leonardo é um dos participantes do debate que o Congresso em Foco promoverá nesta quinta-feira (20) para discutir os desafios econômicos, políticos, urbanísticos e ambientais de Brasília. Além dele, também participam do encontro, aberto a todos os interessados, o arquiteto José Galbinksi e o economista José Luiz Pagnussat. O evento, que será realizado das 9h às 12h no auditório do Uniceub, marca o lançamento da página do site voltada para a capital federal.

Contradição e “fratura social”

Em sua exposição, Leonardo Barreto vai explicar por que, na visão dele, a política local de Brasília vive uma contradição permanente ao acumular tantas crises institucionais. “Por um lado, tem a população mais escolarizada e urbana do Brasil, mas isso não se converte na qualidade do seu sistema político, como se poderia prever”.

Na avaliação de Barreto, as instituições políticas da capital federal ainda não se consolidaram. De um lado, parte da população contesta a existência da Câmara Legislativa, criada pela Constituição de 1988, Por outro, o Executivo já enfrentou experiências traumáticas, como a prisão do então governador José Roberto Arruda, em 2010. Dez anos antes, Arruda já havia renunciado ao mandato de senador, acusado de violar o painel de votação do Senado, para escapar da cassação. Em 2014, ele tentou voltar ao Executivo local, mas foi barrado pela Lei da Ficha Limpa. O ex-governador acumula condenações na Justiça.

Segundo Leonardo Barreto, o sistema político de Brasília reflete a “fratura social” que existe no Distrito Federal. “Essa divisão social e geográfica se reflete muito politicamente. Só há uma outra força que rivaliza com a territorial, que é a divisão corporativa”, explica. Em sua tese de doutorado, o cientista político mostra como a Câmara Legislativa é composta basicamente por dois universos. “Há deputados regionais, de comunidades, e deputados de corporações. Em Brasília, de cada dez votos, só três se convertem em mandato. Outros sete vão para um candidato que vai perder a eleição. Isso arrasa a conectividade entre o eleitor e seus representantes. Cada deputado fica tentando atender o seu cliente.”

Soluções

Para ele, a solução passa por uma reforma do sistema político e também administrativa. Uma das alternativas apontadas pelo cientista político é a redução da estrutura do Legislativo local, com a possibilidade inclusive de que os deputados distritais deixem de ser remunerados e passem a trabalhar como voluntários.

A política de Brasília não será o único tema a ser discutido no debate desta quinta-feira, no auditório do Bloco 1 do Uniceub, na 907 Norte. A necessidade de gerar mais oportunidades de trabalho numa unidade federativa com taxa de desemprego próxima de 20% e as medidas exigidas para desenvolver o Distrito Federal sem descuidar da sua identidade urbanística e da preservação ambiental também serão discutidas.

A iniciativa marca o lançamento de uma nova seção neste site, que nasce com o propósito de ajudar a compreender a capital do país. Com atualização diária, a página Congresso em Foco Brasília pretende debater pontos centrais para o futuro da cidade, que aos 56 anos de existência já é a terceira mais populosa do Brasil, com aproximadamente 3 milhões de habitantes. O rápido crescimento da população tem trazido problemas próprios das metrópoles brasileiras, como o aumento da violência, o trânsito cada vez pior e a precariedade dos serviços de saúde, educação e transportes.

Como as vagas são limitadas, garanta a sua presença confirmando o comparecimento na página do evento no Facebook ou pelo endereço congressoemfoco@congressoemfoco.com.br. O evento tem o apoio do Uniceub e da Federação de Comércio do Distrito Federal (Fecomércio-DF).

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