Conta do pasteleiro pagou pessoas ligadas a Mabel

Eduardo Militão

Em meio aos 20 inquéritos policiais e 67 indiciamentos que compõem o golpe da creche, a Polícia Legislativa da Câmara tem um quebra-cabeças financeiro para decifrar. São as movimentações bancárias dos funcionários laranjas usados para que o esquema se concretizasse. O cruzamento das informações com os depoimentos pode esclarecer quais são de fato os principais beneficiados com o golpe.

E, do que já começou a ser investigado, uma coincidência chama a atenção. O Congresso em Foco obteve detalhes do rastreamento da movimentação financeira a partir da conta do pasteleiro Severino Lourenço Neto. Sob a promessa de receber uma “Bolsa-Família”, Severino aceitou assinar papéis que o transformaram num funcionário fantasma da Câmara, usado pelo esquema que ficou conhecido como golpe da creche. O que o rastreamento da conta revela é que, embora a maior parte do dinheiro de Severino tenha ido parar nos bolsos de Francisco José Feijão de Araújo, o Franzé, apontado como o chefe da quadrilha do golpe da creche, parte dos recursos serviu também para pagar pessoas ligadas ao líder do PR na Câmara, deputado Sandro Mabel (GO).

Algumas das pessoas que receberam dinheiro da conta do pasteleiro são as mesmas que recebiam dinheiro diretamente da chefe de gabinete de Mabel, Maria Solange Lima. Se isso é apenas uma coincidência ou não, caberá à investigação da polícia definir.

Sete beneficiários

Segundo documento da Caixa Econômica, datado de 26 de novembro de 2009 e entregue ao pasteleiro Severino, a conta corrente do funcionário “laranja” serviu para pagar boletos e fazer transferências eletrônicas. A partir dela, foram transferidos R$ 7.070 para contas de sete beneficiários.

O que chama a atenção é o perfil das pessoas dessas listas que foram identificadas. Se o chefe da quadrilha, Franzé Feijão, é o maior beneficiário da conta, tendo recebido R$ 3.260, a segunda pessoa a mais receber dinheiro é a estudante Débora Ferreira Leal. Da conta do pasteleiro, ela recebeu R$ 1.650.

O problema é que Débora também recebia dinheiro diretamente de Mabel. E quem diz isso, em depoimento à polícia, é exatamente a sua chefe de gabinete, Solange. Débora é filha de uma aliada política de Mabel, a ex-prefeita de Flores de Goiás Maria dos Reis Leal, do mesmo PR de Mabel.
Segundo Solange, Mabel saca, todos os meses, uma quantia em dinheiro para pagar despesas variadas.

“Juntamente com as demais contas do gabinete, o deputado sacava o valor total em espécie e entregava o dinheiro em mãos da depoente, que distribuía para o pagamento das contas supra”, diz trecho da oitiva tomada em 11 de dezembro de 2009, à qual o Congresso em Foco teve acesso. Esses pagamentos, diz Solange, eram feitos pelo mesmo Franzé que chefiava a quadrilha da creche.

UM QUEBRA-CABEÇAS PARA DECIFRAR
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Clique para ampliar (Arte: Felipe Costa/CF)
Fonte: Congresso em Foco, com base em documento da Caixa e depoimentos de Solange Lima e Celeste Romualdo

Quem é quem na conta do pasteleiro

Segundo Solange, R$ 1.970,09 eram para pagar prestações de seu próprio automóvel, que Mabel ajudava a pagar. E R$ 800 eram para pagar a faculdade de Débora Ferreira Leal. Informada disso, a mão de Débora, a ex-prefeita Maria dos Reis Legal prometeu retornar ao Congresso em Foco, mas isso não aconteceu. Débora não é a única coincidência.

Solange fala em pagamento de R$ 50 para Clayton Rossi Fonseca, um colaborador político de Mabel em Formosa. Da conta do pasteleiro, saiu exatamente R$ 50 para Clayton. Ela ainda cita R$ 50 de uma pensão-alimentícia para Maria Cristina Barreto, ex-companheira de Franzé. Da conta de Severino, saiu R$ 100 para Maria Cristina. Procurada, Cristina não foi localizada. 

Comprar presentes

Em outro depoimento, do dia 18 de dezembro de 2009, Solange diz que havia no gabinete de Mabel uma funcionária de nome Andreza Batista de Souza, cuja função era comprar presentes para “aniversariantes do gabinete”. Eventualmente, diz Solange, Andrezza comprava os presentes com seu próprio dinheiro, e era depois ressarcida com um depósito em sua conta corrente. Ou com o dinheiro do pasteleiro Severino. Da conta dele, saiu R$ 794 para Andrezza. A ex-funcionária de Mabel não foi localizada em seu antigo trabalho. Seus colegas disseram não ter mais nenhum contato de Andreza.

No mesmo dia 18 de dezembro, Solange identificou em seu depoimento Wanda Rocha de Paula como sendo uma eleitora de Sandro Mabel. Para ela, diz Solange, Mabel mandou certa vez Franzé depositar R$ 40. Da conta do pasteleiro, ela recebeu R$ 110. A reportagem não localizou Wanda.

Aparecida Margarett Lima é, segundo Solange, uma colega do gabinete. Ela pediu uma vez que Franzé depositasse para ela R$ 78 na conta de um filho, Paulo Guilherme Lima Santos. Que recebeu da conta de Severino, o pasteleiro, R$ 406. Procurado pelo Congresso em Foco, Paulo Guilherme não quis comentar o assunto porque já prestou depoimento na Polícia Legislativa: “Tudo já foi falado lá.” Margarett não retornou os contatos feitos pelo site.

A conta poupança da pesquisadora Márcia Mudado Suassuna recebeu R$ 220 da conta do pasteleiro. De acordo com depoimento da aposentada Maria Celeste Romualdo da Silva, Márcia emprestou-lhe a conta para que ela recebesse um empréstimo de R$ 200 Solange Lima, que é sua amiga. Celeste disse à polícia que não tinha conta corrente e, por isso, recorreu a Márcia.

Em entrevista ao Congresso em Foco, Márcia Mudado diz que emprestou sua conta a Celeste muito tempo antes. “Eu emprestei meu cartão para ela receber uma rescisão de trabalho e ela ficou um tempinho com ele”, conta a pesquisadora. “Ela pediu o dinheiro emprestado e eu não sabia a procedência.” Márcia e Celeste não foram indiciadas pela polícia.

Uma pessoa não-identificada ainda recebeu R$ 480 no dia 16 de abril de 2009, segundo a Caixa. Trata-se de Adriano Gamberoni Viana.

Solange não retornou nenhum dos contatos feitos pelo site na semana passada. Franzé e sua esposa, Abigail Pereira, outra apontada como líder da quadrilha, não têm se manifestado sobre o caso. Procurado, o deputado Sandro Mabel afirmou, por meio de sua assessoria: “Todas as perguntas pertinentes ao fato já foram respondidas no inquérito. Prefiro aguardar o final das investigações para que os fatos sejam totalmente esclarecidos”.

Severino, o pasteleiro, disse ao Congresso em Foco que, apesar da lista que recebeu da Caixa, não sabe quem foi o responsável pela fraude. “Não sei nem o que dizer. Fui lá no banco no dia pegar o cartão e não fiquem com ele”, afirmou ele, na última sexta-feira (5). Ele espera que as novas informações o livrem do indiciamento na Polícia Legislativa. “Depois das reportagens, estão vendo que eu não tenho nada com isso.”

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