Candidato a governador gay denuncia discriminação

Ailton Lopes, que disputa o governo do Ceará, afirma que parte dos eleitores não votará nele por sua orientação sexual. Alvo de dez representações por beijo gay, ele diz que sua candidatura pretende "derrubar o muro da hipocrisia"

Único candidato a governador declaradamente gay, o bancário cearense Ailton Lopes (Psol), 36 anos, virou alvo de dez representações judiciais desde que levou ao horário eleitoral cenas de beijos entre pessoas do mesmo sexo. Todos os pedidos para a exclusão de seu nome do programa foram negados pela Justiça eleitoral do Ceará. Essa, no entanto, não foi a única barreira enfrentada por ele nesta campanha em razão de sua orientação sexual. “Várias pessoas disseram que não vão votar em mim porque sou gay”, diz em entrevista ao Congresso em Foco.

 

O vídeo com o beijo entre casais homossexuais foi levado ao ar no dia 30 de agosto. Ailton Lopes, que aparecia com 4% das intenções de voto no início daquele mês, segundo o Datafolha, viu seu percentual cair para 2% no levantamento seguinte, divulgado em 3 de setembro. Ele tinha apenas 1% da preferência dos entrevistados na pesquisa feita pelo instituto na última quarta-feira (1º).

Segundo Ailton, sua candidatura tem como objetivo “derrubar o muro da hipocrisia e do conservadorismo”. “Sou o primeiro candidato assumidamente gay. Mas não duvido nada que já tenha tido governador gay, só que não assumiu. Quantas pessoas são LGTB e não se assumem e até fazem parte de famílias hetero?”

Formado em Letras e com mestrado em Linguística, o candidato começou sua militância na Pastoral da Juventude, ligada à Igreja Católica, ainda na adolescência. Em seguida, ingressou no movimento estudantil universitário. Atualmente, milita no Movimento Sindical Bancário. Em 2003, deixou o PT para ajudar a criar o Psol no Ceará. Durante nove anos, viveu em união homoafetiva. O relacionamento com o companheiro acabou em outubro de 2013.

A seguir, Ailton Lopes fala das dificuldades de assumir sua orientação sexual, do preconceito e dos desafios dos candidatos que empunham a bandeira LGBT (gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros):

Congresso em Foco – Como é tocar uma campanha sendo o único candidato a governador assumidamente gay no Brasil?
Ailton Lopes – É desafiador. Porque a gente vive numa sociedade muito machista, muito homofóbica e, pior, que esconde debaixo do tapete, para dentro do armário, dizendo “não sou homofóbico, não sou machista”. Mas todos os dias está lá,oprimindo. As pessoas dizem que não são homofóbicas ou preconceituosas, mas não querem ver beijo gay. É aquela lógica do “desde que não seja o meu filho, desde que não seja o meu amigo”. Ou seja, desde que não seja ninguém, né? É aí que a homofobia fica ainda mais revelada. Dizem que não precisava colocar o beijo na propaganda. É fundamental mostrar o afeto. Por que os héteros podem demonstrar afeto e os homossexuais, lésbicas, gays, bis, trans não podem demonstrar? O afeto é uma demonstração de amor, não pode ser considerado agressivo ou aviltante. A nossa sociedade tem se pautado por mais intolerância, por mais violência, mais criminalização, mais ódio. Então, o grande mau do fundamentalismo, do conservadorismo, é que eles apostam numa sociedade da violência, numa sociedade do medo. Por isso pedem a redução da maioridade penal. Nossa campanha não está disputando somente um cargo, uma cadeira de governador. Nós estamos fazendo uma coisa que parte grande da esquerda abandonou, que é a disputa de hegemonia na sociedade, que se dá disputando valores, concepções de mundo. Então, como uma velha esquerda que chegou ao poder foi abdicando dessas bandeiras, o conservadorismo foi crescendo, se fortalecendo. Ela abriu mão de algumas bandeiras em nome de um pacto conservador chamado coalizão.

Quais são as dificuldades que o senhor vive como político gay?
A minha candidatura sofreu muita discriminação. Inclusive porque houve mais de dez pessoas que entraram com processo na Justiça alegando que a minha campanha era contra a família. Várias pessoas disseram que não vão votar em mim porque sou gay ou porque eu mostrei aquilo na TV. Existe, realmente, um preconceito muito grande, mas para nós é fundamental pautar isso, porque senão a sociedade não avança. Eu sempre digo que quando a gente sai do armário tira uma série de relações do armário. A mãe, às vezes, que tinha uma postura preconceituosa, acaba compreendendo e aí muda sua posição. O vizinho, o amigo, o colega. Então, assumir é fundamental. Você se declarar gay, assumir a sua sexualidade é fundamental, porque temos a capacidade de deslocar as pessoas para outra posição, para outra perspectiva. Só assim que a gente pode avançar.

O ambiente político é extremamente pautado pelo conservadorismo. Como conviver com isso?
O conservadorismo convive com a hipocrisia, porque em outras candidaturas há gays, lésbicas, bissexuais, mas muitos não assumem. Eu digo assim: eu sou o primeiro candidato assumidamente gay. Mas não duvido nada que já tenha tido governador gay, só que não assumiu. Quantas pessoas são LGTB e não se assumem e até fazem parte de famílias hetero? Então, o conservadorismo caminha ao lado da hipocrisia. Por isso, tenho dito que a nossa campanha é para derrubar o muro da hipocrisia e do conservadorismo.

A nova legislatura do Congresso tende a ser ainda mais conservadora. A bancada LGBT tem apenas o Jean Willis(Psol-RJ). Qual o rumo para combater esse conservadorismo dentro do Legislativo?
O fundamental que eu tenho dito é a unidade. A unidade do movimento LGBT com outros movimentos. A unidade na diversidade. A gente fala de diversidade, então a gente tem que construir essa unidade com o movimento de mulheres, com o movimento de negros, com o movimento de indígenas. Porque todos nós somos vitimizados por essas bancadas. A bancada ruralista, por exemplo, ela se junta com a bancada fundamentalista. Então, eles constroem essa aliança na hora de tirar os direitos dos indígenas, na hora de retirar os direitos dos LGBTs, na hora de passar por cima do direito das mulheres. Portanto, eles são unidos, eles constroem uma unidade conservadora.Nós, do lado de cá, temos que construir uma ampla unidade. Hoje a quantidade de candidatas mulheres também é muito pequena. A participação LGBT reduz a um (Jean Wyllys). É a unificação de todas essas lutas de minorias que no final das contas faz a diferença. Este Congresso se borra de medo quando as pessoas se mobilizam, a gente viu com as manifestações de junho do ano passado.

Como você vê a posição dos candidatos à presidente?
As três principais candidaturas à Presidência recuaram na pauta LGBT. A da Dilma depois se reposicionou por causa do recuo ferrenho da Marina e pelo fato de os fundamentalistas da campanha dela terem migrado para Marina ou Pastor Everaldo. Se não fosse, ela teria assinado o mesmo pacto da campanha de 2010. Ela recuou em relação ao projeto de lei de combate à homofobia, recuou em relação ao kit para as escolas, recuou em todas as pautas de direitos humanos em relação à população LGBT. E recuou em relação às mulheres na questão do aborto. Diante desses recuos, ou a gente se organiza como movimento social e de maneira unitária, ou então vamos continuar sendo massacrados por essa união conservadora. Pior do que um discurso incipiente e raso é que esses candidatos estão aliados com as bancadas que combatem os nossos direitos.

Qual a maior dificuldade que vocês enfrentam? Arrecadação ou mobilização?
A maior que eu e vários companheiros do Psol aqui no Ceará vivenciamos é que não temos um modelo de democracia no país. Isso é a verdade. Nós temos uma farsa democrática. E não é para os partidos, mas pelo próprio eleitor. É lastimável que os eleitores não tenham acesso a todas as candidaturas. Quando você dá menos tempo de TV a um candidato do que a outro, quando o poder econômico interfere para candidaturas apareçam mais do que outras. Pra piorar, tem ainda a questão da compra de votos.

 

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