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Caiado: “Planalto foi tomado por sindicalismo mafioso”

Senador mais bem avaliado pela internet no Prêmio Congresso em Foco, Caiado aponta falência do presidencialismo e “sindicalismo mafioso” como responsáveis por crise. Para ele, solução passa por saída de Dilma e antecipação das eleições

Cirurgião ortopedista, o senador Ronaldo Caiado (DEM-GO) diz que o Brasil enfrenta um quadro de “contaminação generalizada” e só sobreviverá se substituir imediatamente a presidente Dilma Rousseff e antecipar a eleição presidencial. Para ele, a sociedade sofre de desencanto com as promessas eleitorais não cumpridas e com a indefinição sobre um eventual impeachment. Essa demora, segundo Caiado, é causada pela falência do sistema presidencialista, que impede a superação de crises políticas. Situação agravada, na avaliação do senador, pelo “sindicalismo mafioso” instalado no Palácio do Planalto.

“Essa prática foi disseminada para o Congresso Nacional e a partir daí você tem a contaminação por continuidade”, afirma Caiado em entrevista exclusiva à Revista Congresso em Foco, concedida antes da abertura do processo de impeachment de Dilma.

Em sua estreia no Senado, após cinco mandatos na Câmara, o goiano foi o senador mais bem avaliado pelos internautas no Prêmio Congresso em Foco 2015. De líder da bancada ruralista a um dos principais nomes da oposição, Caiado se apresenta agora como pré-candidato à Presidência.

Assista a trechos em vídeo e leia a entrevista logo abaixo:

Revista Congresso em Foco – O que levou o Brasil a essa crise política, em que as principais lideranças do país, inclusive da oposição, enfrentam elevados índices de rejeição popular? Ronaldo Caiado – O Brasil está numa crise crescente, um descontrole generalizado. A classe política, mesmo a oposição, está sofrendo desgaste. A sociedade, ao diagnosticar o estelionato eleitoral, questiona: se o ex-presidente Fernando Collor foi apeado do poder em quatro meses, por que agora não há essa celeridade? A presidente tem prerrogativas enormes, uma grande estrutura de ministérios e aparelha a União com milhares de cargos comissionados. Tem todas as estatais em suas mãos e um poder de pressão muito forte. O governo não tem como objetivo atender à demanda da sociedade, está aparelhado para atender aos interesses partidários. Essa prática está disseminada. Temos dificuldade para deslanchar o processo de impeachment e isso produz um desencanto.

Mas o próprio Congresso está sob forte questionamento, com os presidentes da Câmara e Senado denunciados ao Supremo. Além disso, Dilma tem base no Congresso. Não é diferente de Collor?
A presidente distribuiu mais de 30 ministérios e todas as estatais para sustentar a base político-partidária no Congresso. Isso é capacidade de articulação ou um toma lá dá cá? É o que há de mais deplorável na democracia, decepciona o eleitorado e, ao mesmo tempo, frustra a sociedade com a falta de iniciativas ou de um plano de governo.

A oposição erra ao não exigir a saída de Eduardo Cunha da presidência da Câmara?
Não é uma tese tão maniqueísta. Para tudo há um rito, senão é um processo inquisitivo. Há um rito tanto para tratar das ações do Cunha, do Renan e da presidente. Por que as ações da presidente da República podem produzir efeitos colaterais e as ações do presidente da Câmara e do Senado não? Há uma contaminação generalizada, estão todos dentro de um mesmo processo.

Em que a situação da Dilma é mais complicada do que a de Cunha e de Renan?
Primeiro, o negócio da refinaria de Pasadena foi um assalto. Segundo, não podem ser desprezadas as delações que sinalizam repasse de dinheiro desviado da Petrobras para a campanha eleitoral. Em terceiro, tudo aquilo que foi mostrado pela candidata na campanha se caracterizou como um estelionato eleitoral.

Por que o senhor defende o impeachment de Dilma?
Defendo que tenhamos a abertura do processo diante das denúncias de pedalada, de Pasadena, de caixa 2 na campanha, de uso político do BNDES, dos fundos de pensão. A presidente está lá encastelada no Planalto e o cidadão é quem sofre as consequências do populismo fiscal, da utilização da máquina do governo, da corrupção nas estatais. O quadro todo foi mascarado nas eleições e se induziu a um processo que não é legítimo.

Qual o legado que ficará do governo Dilma?
O grande desserviço foi a cultura de que, para se manter no poder, vale a troca de benesses, o aparelhamento do Estado ou a propina. Não estou dizendo que isso não acontecia antes, mas a deterioração do Congresso vem de uma política implantada e disseminada pelo PT. Esse partido foi forjado no sindicalismo mais atrasado no mundo, o da coação e o da corrupção. Esse sindicalismo mafioso foi transportado para o Palácio do Planalto. Por isso, não podemos olhar a situação do Legislativo só pelo Congresso. Seria a mesma coisa que focar as investigações da Operação Lava Jato apenas no empresariado.

A presidente Dilma tem condições de concluir o mandato?
Não. Como manter essa estrutura por mais três anos? Qual empresário está investindo? Pelo contrário, estão pedindo recuperação judicial. Chegamos a 2 milhões de postos de empregos fechados e há uma apreensão generalizada no pais. Dilma não tem base popular nem política e essa situação se agrava a cada dia. Ela deveria ter o espírito público e sair, como acontece no regime parlamentarista. Fiz campanha pelo presidencialismo e hoje dou a mão à palmatória: o presidencialismo brasileiro não está preparado para conviver com crises.

Como sair dessa crise?
Não vejo governabilidade com as atuais condições. Quem suceder Dilma não terá como modificar esse sistema nem se impor para fazer mudanças substantivas. Quem vai ter autonomia para fazer os cortes necessários, diminuir a máquina pública e implantar as reformas administrativas? Por isso, defendo a antecipação das eleições.

O senhor seria candidato à Presidência?
Como pessoa física, digo sim. Mas temos de separar a pessoa física daquilo que seria uma candidatura para aglutinar partidos e uma tese. Tivemos reunião com várias lideranças da oposição para começar a produzir um projeto embasado naquilo que proporíamos ao país. Ninguém tem varinha de condão para resolver o problema do dia para a noite. Será uma travessia dura.

Em 1989 o senhor foi candidato a presidente e tinha imagem ligada ao campo. Agora tem circulado pela Avenida Paulista. Como o senhor analisa essa mudança de perfil?
Na elaboração da Constituição de 1988, o Estado queria ser dominador das propriedades rurais. Me insurgi contra aquilo. Nunca neguei e tenho orgulho enorme de ter uma origem ruralista. Hoje no Brasil a única coisa que deu certo foi o setor rural, que nós não deixamos o PT colocar a mão. Virou referência mundial. Nós garantimos o direito de propriedade, fizemos as negociações das dívidas e implantamos tecnologia, ciência e pesquisa para garantir o boom da produtividade. Sou respeitado na Avenida Paulista, mas jamais deixei de ser um homem do campo.

Por que o senhor acredita que foi o senador mais bem avaliado pelos internautas no Prêmio Congresso em Foco 2015?
Primeiro, me dedico quase em tempo integral ao meu trabalho no plenário, nas comissões e nas redes sociais. Em segundo lugar, não me omito dos debates de todos os temas, sejam eles confortáveis ou não. Além disso, sempre marquei minha vida dentro de uma coerência de postura. Não oscilo de acordo com quem está no poder.

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