Cachoeira queria heliporto em parceria com Marconi

Governador indicou área para empreendimento, diz dono de laboratório. STJ pediu explicações sobre parceria. Tucano não fala sobre o assunto

No momento em que o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), aparece como o principal alvo do relatório do deputado Odair Cunha (PT-MG) na CPI e contesta as acusações, novas denúncias surgem da sua relação com o bicheiro Carlinhos Cachoeira. De acordo com áudios e documentos obtidos pelo Congresso em Foco, Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, e dois empresários do ramo farmacêutico planejavam fazer uma parceria público-privada (PPP) com o governo de Goiás para administrar um heliporto por 30 anos numa área pública ao lado do estádio Serra Dourada, em Goiânia. Segundo o dono do laboratório Teuto, Walterci de Melo, o governador Marconi Perillo deu aval à negociação e ainda lhe indicou um local para a construção do empreendimento destinado a pousos e decolagens de helicópteros. Nos grampos telefônicos do inquérito da Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, Cachoeira confirma o aval do governador. Durante a negociação, eles revelam a previsão de uma reunião em Paris entre Marconi e o outro parceiro na empreitada, o dono do laboratório Neoquímica, Marcelo Limírio Gonçalves.

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A ideia do grupo do bicheiro era fazer uma troca com o governo. No local, funcionam instalações do governo estadual, que seriam reformadas, e um projeto social privado, que receberia quadras esportivas e um campo de futebol. No restante, funcionaria um terminal de embarque de passageiros, área de pouso e uma oficina mecânica para helicópteros. No total, seriam 470 mil metros quadrados, ou 66 campos de futebol, numa das áreas mais valorizadas de Goiânia, próximo do Serra Dourada e da rodovia BR-153.

O ministro do Superior Tribunal de Justiça Humberto Martins, relator do inquérito contra Marconi, pediu explicações ao governo de Goiás sobre a existência do projeto de parceria público-privada. Ele atendeu a pedido do procurador geral da República, Roberto Gurgel. Até o momento, não há notícia de que o governo tenha esclarecido o negócio. Gurgel não explicou ao Congresso em Foco se eventualmente suspeitava de direcionamento para Cachoeira e a empreiteira Delta, com quem tinha ligações estreitas.

Depois do Flamboyant

Na noite de 15 de junho do ano passado, o empresário Walterci de Melo está num restaurante com uma pessoa identificada apenas como Igor. De lá, telefona para Cachoeira para saber “como é que tá o negócio do heliponto (sic)”. O bicheiro diz estar com a proposta pronta para ser apresentada. Walterci diz que falou com Marconi Perillo no dia anterior quando voltavam de uma viagem a São Paulo. “Ele me falou que o André tá falando que tem uma área perto do (...) depois do Flamboyant. Como é que chama lá?”, explica o dono dos genéricos Teuto. Flamboyant é o nome de um shopping center de Goiânia.

Ouça o áudio da conversa entre Walterci e Igor

Cachoeira retruca e diz que aquele lugar não é bem localizado e tem uma proposta melhor. Igor pega o telefone e pergunta sobre uma área ao lado do estádio Serra Dourada. Os dois consideram aquela região “excelente”. O bicheiro comenta que o tamanho do terreno pode viabilizar o negócio com o governo de Goiás. “Ele é grande pra nós e pequeno pro governo. Dá certinho”.

O ‘ok’ de Marconi

Em 29 de junho, uma quarta-feira, Cachoeira conversa com o coronel da Polícia Militar Massatoshi Sérgio Katayama, chefe do policiamento de Goiânia. Ele explica ao policial, um dos réus na Operação Monte Carlo, que Walterci e Limírio são seus sócios numa parceria com o governo para construir um heliporto. E que o melhor local é a Defesa Civil, perto do estádio. Tudo com o aval do governador, segundo o bicheiro. “O Marconi não tem problema nenhum. Ele já deu o ‘ok’.”

Katayama sugere usar uma área de um quartel da PM ao lado. “Lá é meu, é da mesma unidade e aí fica muito mais fácil. Senão, não fazemos”, explica o coronel. Depois, ele explica que o campo utilizado pelo projeto social da Fundação Pró-Cerrado também pertence à Polícia Militar. Cachoeira se anima e observa que, assim, podem ficar com uma área maior. “Então moço, a gente tem que pega a área maior, isso com o Marconi já tá conversado, isso aí que eu preciso falar com você então.”

Ouça a conversa entre Katayama e Cachoeira:

Na conversa, o bicheiro tenta marcar uma reunião com o coronel, Limírio e Walterci. Katayama sugere que os três observem a área. Mas isso só acontece dois dias depois, na manhã de sexta-feira, 1º de julho. Cachoeira e Walterci vão ao local ao lado do estádio Serra Dourada. Às 9h24 daquele dia, Walterci avisa o bicheiro que Limírio, da Neoquímica, não poderia ir.

“Maravilhoso”

Mesmo assim, Limírio de alguma forma foi informado das características do terreno e, antes mesmo da visita acontecer, gostou da negociação para construir o heliporto. Às 9h43, ele comemora com Cachoeira: “Fantástico, hein? Vamos discutir”. Cachoeira diz que “esse pedaço aí tá na área lá também”. Limírio afirma que viu. Cachoeira continua: “Muito melhor esse daí, né?”. Limírio responde: “Com certeza. Nossa Senhora, maravilhoso, maravilhoso mesmo. Vamos discutir (...) Vamos falar mais tarde”.

Áudio da conversa entre Limírio e Cacheira:

Sigilo

A visita à área está marcada para as 10h30. À porta da empreiteira Delta Construções, o bicheiro se encontra com um policial militar identificado apenas como Ananias. De lá, seguem para o terreno. Às 10h54, Cachoeira liga para Ananias para pedir sigilo sobre o verdadeiro interesse dele, montar um heliporto. Instrui o policial a dizer que o objetivo é um projeto social no parque.

Depois, às 11h41, Walterci comenta com Cachoeira que gostou do lugar. Afirma que é possível arrumar o parque das crianças, duas quadras cobertas e um campo de futebol. Lá, um trabalho social já era feito pela Fundação Pró-Cerrado. Walterci explica que vai criar uma oficina mecânica para manutenção de helicópteros. Cachoeira pede para Walterci acertar os detalhes e marcar uma reunião com Limírio. No dia seguinte, sábado, pouco antes da 17h, os grampos telefônicos mostram que o bicheiro se encontra com os dois empresários no apartamento de Walterci, no Edifício Excalibur, um prédio em área nobre de Goiânia onde também morava Cachoeira.

Autorizações

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) informou à reportagem que houve sete pedidos de construção de helipontos em Goiânia desde o ano passado, mas nenhum de heliporto, um empreendimento mais sofisticado, com terminal para embarque e desembarque de passageiros. Todos os pedidos foram autorizados, mas nem todos estão em funcionamento. A Anac não quis revelar o nome dos empresários que solicitaram a construção alegando que são “empreendimentos privados”. O Congresso em Foco reforçou o pedido de esclarecimentos com base na Lei de Acesso à Informação e aguarda resposta.

Por meio de assessoria, Marconi não prestou nenhum esclarecimento específico sobre 12 perguntas a respeito do heliporto. Enviou nota ao site em que, genericamente, diz que o relator da CPI do Cachoeira, Odair Cunha (PT-MG), não provou “a mínima conexão ou favorecimento do governador Marconi Perillo com o grupo Delta-Cachoeira”. O assessor de imprensa do tucano, Isanulfo Cordeiro, afirmou que o governador, por não querer mais “entrar nessas polêmicas”, não falará sobre o heliporto.  “Ele vai responder ao STJ apenas”, disse.

Os empresários Walterci e Limírio, além do advogado de Cachoeira, Nabor Bulhões, também nada esclareceram.

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