As conclusões da polícia

José Coimbra participou da morte de Preciosa, afirma delegada que investigou o assunto. Deputada quer federalizar caso.

Lúcio Lambranho *

O novelo de lã que põe no mesmo enredo casos de homicídio ocorridos no Espírito Santo e autoridades estaduais acusadas de ligações com o crime organizado dá sinais de que pode ser desenrolado. Em entrevista ao Congresso em Foco, a delegada da Polícia Civil Fabiana Maioral Foresto afirmou ter concluído que o ex-vereador de Vitória José Coimbra (PSDB – foto acima) participou do assassinato de José Carlos Preciosa, em junho de 1993.

“Acho… acho não, tenho certeza… que ficou comprovado, com relação à participação do irmão do Lelo, que ele realmente tinha envolvimento na morte do Preciosa, a partir das investigações que nós fizemos e encaminhamos aos autos”, disse a delegada.

“Lelo” é o ex-vice-governador do estado e atual deputado federal Lelo Coimbra (PMDB-ES). Seu irmão é o ex-vereador e advogado José Coimbra, que os amigos costumam chamar apenas de Coimbra. Como revelou reportagem de Maria Elena Azevedo, publicada neste site na última sexta-feira (leia mais), os dois foram acusados pelo executor do crime, o puxador de samba Wanderley da Silva Ferreira, mais conhecido como Thor do Império.

Thor disse à polícia e à Justiça que matou Preciosa a mando de Coimbra e que Lelo o orientou quanto ao comportamento que deveria adotar: basicamente, assumir sozinho a responsabilidade pelo crime, atribuindo-a à vingança da morte do irmão, Odilon dos Santos Ferreira, o Testa, 19 anos, executado a tiros em 1991 – dois anos antes, portanto, do assassinato de Preciosa.

A principal motivação do homicídio, segundo o presidiário, foi outra: impedir que Preciosa repassasse ao delegado Francisco Badenes Júnior informações que demonstrariam a conexão entre irregularidades praticadas na Prefeitura de Vitória, que Hartung administrou entre 1993 e 1996, e outras ações criminosas. Thor também disse ter visto o atual governador na sede da Scuderie Le Cocq, organização ligada a práticas de extermínio que foi condenada à ilegalidade graças, em grande parte, ao trabalho desenvolvido no Espírito Santo pelo procurador da República Ronaldo Albo.

Questionado por e-mail sobre o depoimento de Thor, por meio de sua assessoria de imprensa, Paulo Hartung não deu resposta. Lelo nega todas as acusações e as credita a uma armadilha de adversários. Lembra ainda que Thor do Império chegou a desmentir seu depoimento, dizendo que acusou os Coimbra e Hartung porque recebeu dinheiro de adversários dos três. Ontem (segunda, 2), o Congresso em Foco fez novas tentativas de ouvir José Coimbra, mais uma vez, sem sucesso.

A trilha da investigação

José Coimbra chegou a ficar preso durante 49 dias, entre junho e agosto de 2005, acusado de participação na morte de Odilon e Preciosa. Que, por sua vez, era segurança e diretor social do Clube Náutico Brasil, do qual Coimbra foi presidente por muitos anos. Funcionavam no clube a sede e o local de reuniões da Le Cocq, da qual o ex-vereador foi um dos chefes no estado.

A macabra novela russa não tem fim, e requer concentração das leitoras e dos leitores para ser compreendida. Porque todos esses fatos vieram à baila no curso das investigações do assassinato do juiz Alexandre Martins Filho, 32 anos, ocorrido em março de 2003. Treze dias antes de ser morto, o juiz ouviu Thor e ficou muito animado quanto às perspectivas de investigação que seu depoimento abria.

Em 23 de março de 2005, Fabiana concluiu e assinou o último relatório da Polícia Civil sobre a morte do juiz. Ela conta que não chegou a encerrar as investigações a respeito do caso porque a apuração levou à indicação do juiz Antônio Leopoldo Teixeira como mandante da morte de Alexandre, que havia denunciado o colega por graves atos irregulares na condução da 5ª Vara de Execuções Penais. “Toda vez que há o envolvimento de alguém do Judiciário, compete ao Poder Judiciário dar prosseguimento à investigação”, explica a delegada.

Ela explica que as acusações contra os Coimbra e Hartung foram tratadas no âmbito do processo da morte de Preciosa, em que Thor do Império – preso desde 1993 – terminou sendo condenado a mais de 20 anos de prisão. “Ali já havia outro inquérito policial instaurado. Nós até fizemos algumas diligências, e [isso] foi encaminhado para que fosse anexado ao processo”, relata.

“As investigações que pude fazer eu fiz e encaminhei para que fossem juntadas nos autos”, completa. “Eu não tive acesso aos autos que apuram a morte do Preciosa. O que apurei foi a morte do Alexandre”.

Mas Fabiana ressalva: “Nosso poder é limitado, aliás, limitadíssimo. Quando você se depara com o envolvimento de alguém do Judiciário, você tem que parar a investigação e mandar tudo para lá”.

A investigação policial apontou a responsabilidade de Leopoldo, do coronel da PM Walter Gomes Ferreira e do ex-policial civil Cláudio Luiz Andrade Baptista, o Calu, como mandantes, todos ainda aguardando julgamento; e de Odessi Martins da Silva (Lombrigão), Giliarde Ferreira de Souza, o Gi, sargento Heber Valêncio, sargento Ranilson Alves da Silva, Fernandes de Oliveira Reis (Fernando Cabeção), André Luiz Tavares (Yoxito) e Leandro Celestino de Souza (Pardal), como executores, todos já condenados.

Deputada quer federalização

Conforme informou o Congresso em Foco na última sexta-feira, o Ministério Público Estadual requereu, em julho de 2006, que o ex-vereador e advogado José Coimbra fosse impronunciado (não levado à júri) como mandante das mortes do ex-presidiário Odilon dos Santos Ferreira e do segurança José Carlos Preciosa.

De acordo com o juiz titular da 1ª Vara Criminal de Vitória, Marcelo Noto, a impronúncia de Coimbra foi pedida pelo próprio Ministério Público, por entender que as denúncias feitas por Thor do Império contra ele não foram comprovadas. Conclusão oposta, portanto, à que chegou a delegada Fabiana.

O ex-vereador, que exerceu o cargo por dois mandatos e depois não conseguiu mais a reeleição nas duas eleições posteriores que disputou, foi denunciado pelo Grupo de Repressão ao Crime Organizado (GRCO), do Ministério Público Estadual. Desde o período de 49 dias em que permaneceu preso no Quartel-General da PM, encontra-se em liberdade.

Segundo a delegada Fabiana, não houve comprovação quanto à participação de Lelo e Hartung em quaisquer atos criminosos. O juiz Carlos Eduardo Lemos e o procurador da República Ronaldo Albo, que integravam junto com Alexandre a missão especial criada pelo governo Fernando Henrique para combater o crime organizado no estado, disseram ao Congresso em Foco que o subprocurador da República José Roberto Santoro, chefe da força-tarefa, se encarregou de encaminhar ao Superior Tribunal de Justiça o pedido de investigação dos fatos atribuídos ao já então governador (em 2003) e seu vice.

O assunto jamais chegou ao STJ. Procurado na semana passada para se manifestar sobre a questão, Santoro ainda não deu retorno a este site.

Todos esses fatos levarão a deputada Iriny Lopes (PT-ES) a pedir, pela terceira vez, a federalização do caso da morte do juiz Alexandre. Em duas oportunidades, ela levou, sem êxito, a mesma solicitação ao então procurador-geral da República, Cláudio Fontelles.

A deputada capixaba alegava a falta de isenção do desembargador Pedro Valls Feu Rosa para conduzir o inquérito contra Antônio Leopoldo Ferreira. “Não sou advogada”, disse a parlamentar, “mas ainda estudo qual medida será necessária para pedir o desarquivamento da federalização. Pode ser um novo pedido diante das informações publicadas. Mas só pelo fato dos acusados estarem usando ações protelatórias e não terem sido julgados ainda já deveria caber uma ação da Procuradoria-Geral da República”.

Ela conclui: “Minha tese é que não foi dada uma atenção devida ao depoimento do Thor e se continuar assim, o crime não será resolvido nunca”.

* Colaborou Maria Elena Azevedo

Matéria publicada em 03.04.2007.


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