Arrabalde, tá ligado? Parte 2

Hebe Camacho faz confissões e desabafos no seu camarim

Hebe no Camarim. Profundamente irritada,amargurada. Bebe um copão de Gim,e fuma compulsivamente.

Hebe: Filha da puta de negrinha! Tinha que ser sequestrada … Era o que me faltava! Onde é que vamos parar? Faz cinquenta anos que entrei nessa merda de televisão. Nem na época da esculhambação do Jango aconteceu um absurdo desses! Antigamente as pessoas tinham talento! Era tudo precário, improvisado … mas tinham talento! Eu era jovem, bonita… recém-casada com aquele pústula do Silveira… Ah, J.J Silveira! O grande filho da puta… chantagista, escroque. Ele entrou nessa história por causa de uma troca de favores. Isso mesmo! Eu lembro, naquela época as pessoas trocavam favores,e obtinham algo em troca! Simples, simples … Tudo bem, eram podres. Mas tinham uma ética, minha Nossa Senhora! Silveira mesmo, apesar de ser um canalha, nunca me faltou com o respeito. Lembro como se fosse hoje: na ocasião em que foi pego com a boca na botija, conseguiu manter a classe. Abafou o caso.

Naquela época, 1950, 51, no Rio de Janeiro, todas as senhoras e senhoritas que trabalhavam no meio teatral, tanto faz se fosse teatro sério ou rebolado, recebiam cartas e telefonemas de um sujeito muito polido e enigmático, que pedia en-ca-re-ci-da-men-te para que elas deixassem para ele, na portaria do teatro, sapatos velhos, de preferência de saltos bem altos e de cor marrom. Adivinha quem era o tarado?

Quem podia ser? Pego, Silveira teve de negociar, pois na época trabalhava no gabinete do dr. Lacerda. Fez tudo na surdina, e ficou por isso mesmo … Ah, minha Santa Rita … Tarado era tarado, ladrão roubava gente rica! Não acredito que sequestraram minha empregada! Merda! Vai atrasar tudo… Tive que cancelar a manicure para negociar a libertação da infeliz … (imita a empregada) “Ai,dona Hebe eles me pegaram”. Que se foda, eu falei pros sequestradores… Quero que essa infeliz morra! Adiantou alguma coisa? Nada, os marginais disseram que iam ligar pra central de jornalismo da emissora, e que iam me denunciar por falta de sensibilidade social. Caralho! Sensibilidade social? Por causa dessa merda, chegamos onde chegamos. Na minha época tínhamos ética, talento. Quando entrevistei Cartola – se não me falha a memória …em 1972 – ele sabia que era um lavador de carros, sabia que era um ne-gro, e sabia principalmente qual era o lugar dele. Foi por isso que fez as músicas que fez … Hoje? A gente é obrigada a dar colher de chá para esses maloqueiros, tratá-los como se fossem gente – tem que dizer que a carapinha deles é linda – e o que ganhamos em troca? (Imita o sequestrador) “A senhora não tem sensibilidade social”. Ora, como não? Essa infeliz tem carteira assinada, décimo terceiro salário, come a mesma comida que eu como, viaja para Campos de Jordão no mesmo carro que a Tatá, minha poodle … Viaja e não gasta um centavo do próprio bolso, a gente paga! E trata como se fosse de casa, e o filho da puta vem me dizer que eu não tenho sensibilidade social? E o carnê das criancinhas aidéticas? Não deixei de pagar uma prestação! … Também tem o carnê dos velhinhos cegos, ou é o carnê dos aleijados? Nem sei, é aleijado, é cego, é carnê pra casa do câncer, prestação pra casa do caralho … O que mais que esses merdas querem? Vão tomar no cu! Tive que rebolar muito pra chegar onde cheguei. Aguentei o nojento do Silveira por trinta anos, ele, suas taras e suas amantes. As meninas de hoje falam em “orgasmos”… Eu lembro que vomitava muito depois de ir pra cama com o Silveira. Não foi fácil, porra! Quando cheguei em São Paulo, me humilhei feito uma cadela. Mas eu era uma cadela. E sabia disso, essa que é a diferença! Também fui empregadinha! Trabalhei de copeira na mansão dos Matarazzo… O máximo que podia acontecer – e foi o que aconteceu, porra! – era o Conde querer me comer. E eu dei pra ele, e daí? Aquele homem era de uma generosidade ímpar! Me usou, usou sim, e recomendou para os amigos dele, passei de mão em mão até conhecer o Silveira. O canalha do J.J.Silveira. Mas eu sabia qual era o meu lugar, e tinha um vozeirão e um corpo lindos. Minha Nossa Senhora! Vá lá, eu era jovem, bonita… Ainda não tinha essa cara de peixe retorcido por causa das dezessete plásticas que fiz em quarenta anos … Ou vinte e sete plásticas em cinquenta anos ? Sei lá, porra! Eu era bonita, mas tive que rebolar. Nunca desisti do meu sonho. Graças a generosidade do Conde, embarquei para o Rio de Janeiro. No começo, as coisas não iam nada bem pro meu lado … Apesar dos contatos que o Conde havia me passado, minha carreira não deslanchava … Comi o pão que o diabo amassou… Pensei até – juro por Deus! – em dormir com negros para pagar o aluguel. Eu era uma menina, uma caipira. Mas eu lutei, lutei, até que consegui ir ao programa do Ary Barroso … e fiquei entre os três melhores! O Ary era foda, ou como diziam naquela época, “criterioso”, ele não dava moleza. Não tinha esse nhenehenen de hoje … Em primeiro lugar, a música tinha letra, falava de auroras, luares, estrelas … E depois havia os interpretes, Chico Alves, Dalva de Oliveira, e tantos outros, e havia os tenores, as grandes orquestras, o Cassino do Quitandinha e seus bailes memoráveis, era um tempo em que as mulheres eram damas e os homens cavalheiros … E os corsos no carnaval ? … Ah, nunca vou me esquecer do carnaval de 1952: Os pierrôs morriam pelo amor das colombinas…( canta) : “Ó jardineira, por que estás tão triste/ mas o que foi que aconteceu/ foi a camélia que caiu do galho/, deu dois suspiros e depois morreu … Foi naquele ano,1952, que conheci o Ademar. Saudoso, Ademar (suspira): Um gentleman! Ai! … e que rôla… Huummm Hummmm (pigarreia,e tome um gole de Gim).

Hoje até o clima está de pernas para o ar! Naquela época tínhamos, as quatro estações do ano bem definidas, verão, primavera, outono e inverno . Agora virou bagunça: Uma atochadinha,vem cá minha safadinha (canta e faz o gesto de trazer o quadril para frente e para trás): Dá uma atochadinha/ vem cá minha safadinha…

O que aconteceu com o mundo? Alguns anos depois da guerra, 1949ou 50 … fui para o teatro rebolado… aí sim, fiz nome. Construí um nome! Tive generais, ministros e senadores aos meus pés. Saudades do Cassino da Urca … Eu, Virgínia Lane, Mary Montilla…Ìris Bruzzi, Derci, Elvira Pagã … Outros tempos. Elvira Pagã era uma diva de verdade… Numa ocasião, consegui o espartilho da vedete para o Silveira … Inesquecível Elvira ! … Se não me engano, foi em troca de uma viagem para os States, o tarado desfilava com o espartilho da Elvira na cobertura de Copacabana para políticos e cupinchas , todos tão nojentos ou mais nojentos que ele, mas era tudo no maior respeito! Quando a televisão chegou no Brasil,eu estava lá. Não ia adiantar nada o Silveira usar de influência … Se eu não fosse uma estrela, a grande Hebe Camacho! Naquela época, era no fio de bigode! Homem era homem e mulher era mulher. Hoje é tudo viado e sapatão. Talento, pra quê? Você quer fazer sucesso? Fácil, basta ser analfabeto,maltrapilho… mal ajambrado. Onde é que já se viu? Outro dia, quase que ponho um psicanalista pra correr … Se não fosse o ponto! (ajeita o ponto na orelha). O sujeito vem aqui no meu programa, e diz que os adolescentes de hoje assumiram a bissexualidade sem os traumas na geração anterior… Pera lá, eu disse. Como é que é,doutor? Que safadeza é essa? Não é que ele teve o topete de falar em “erotismo anal”! … No meu programa?! Quase ponho o sem-vergonha pra correr… Mas o ponto, esse maldito ponto me segurou … Tarados, cascateiros… Se o sem-vergonha do Silveira estivesse vivo…estaria se esbaldando… “Erotismo anal”. Sei, sei. Outro dia entrevistei uma menina que não sabia nem falar o próprio nome… Devia ter o quê? No máximo 15 anos de idade, maaaagra. Uma caveirinha. Tive vontade de mandá-la para o hospital. Mas me obrigaram – o ponto, sempre o maldito ponto – me obrigou a dizer que ela era uma fofa! Uma caveira! No meu tempo, a sociedade apontava: Olha lá,o pederasta! E eles tinham vergonha, alguns até se matavam. Olha lá o mongolóide! E a família trancava no sótão. Hoje viraram atores de novela, tocam piano. Os pederastas vão pras ruas, e têm orgulho! Orgulho do quê? De dar o rabo? O Silveira tinha lá suas manias, até que gostava de um dedinho… Mas era tudo entre quatro paredes, na surdina, porra! No maior respeito! Isso mesmo! As pessoas se respeitavam, diziam bom-dia, boa-tarde e boa-noite… Era tudo mais bonito. Tínhamos vergonha na cara! (Acende um cigarro no outro, dá uma longa tragada)…. Ai, de quem implicasse com cigarro! Fumar era fino,cchique. Em Hollywood os galãs fumavam… Clark Gable fumava, Gary Cooper fumava, Cary Grant fumava … e que homens!,Machões de verdade! Homem era homem, mulher era mulher, preto era preto… cada macaco no seu galho; … e filho da puta nenhum sequestrava a emprega dos outros. Puta que pariu! Me falta sensibilidade social! (a luz vai enfraquecendo, My Way interpretada por Frank Sinatra)

Black Out

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