Aposentado e poder de consumo

O aposentado se transformou em alvo precioso para as empresas, mas precisa exigir maior contrapartida, escreve Milton Dallari.

Milton Dallari*

 

O aposentado está em alta no atacado e no varejo. De uns tempos para cá, seu poder de compra foi descoberto por empresas dos mais diversos ramos, interessadas em lucrar com uma parcela da população que antigamente só tinha seus gastos associados a remédios e supermercado.

 

Ocorre que uma nova geração de aposentados tem empregado parte de seus rendimentos em viagens, eletrodomésticos e outras formas de lazer. Aos poucos, eles também passaram a chamar a atenção de bancos que oferecem empréstimos a juros menores que os praticados em geral – o que não significa que não sejam menos extorsivos, é bom destacar.

 

Há 30 anos, a imagem do aposentado era completamente diferente. Quando se falava em alguém com mais de 50 anos, vinha logo na cabeça o sujeito com sandálias nos pés e uma vara de pescar mão. Com o aumento da expectativa de vida, o perfil dessas pessoas está mudando. Muitos sequer deixaram o mercado de trabalho com essa idade. E fazem isso porque são úteis ao empregador e ainda se sentem dispostos a ingressar em novos projetos. O aposentado deixa de ser um mero espectador da febre de consumo na sociedade e se transforma em alvo precioso para as empresas.

 

Quem ainda não deixou o mercado, apesar de teoricamente ter direito ao benefício, tem a seu favor o fato de receber um salário mensal. Desde março, pode sacar também o FGTS mensalmente. Imagine como essa renda-extra poderá modificar a vida das pessoas que antes tinham de abrir mão de uma atividade profissional se houvesse interesse em sacar esse dinheiro para outros fins: ajudar na educação de um neto, reformar a casa ou até mesmo comprar uma TV maior e mais moderna para ver o futebol.

 

Em algumas cidades do interior do país, a economia é movimentada pelas pensões e pelos benefícios pagos por governos e iniciativa privada. A tendência é que a importância desses recursos aumente ainda mais nas próximas décadas.

 

Fundos de previdência municipal e estadual têm chamado a atenção de grandes bancos, sobretudo depois que a legislação permitiu que eles ficassem responsáveis pelo gerenciamento de recursos que, somados, ultrapassam a casa dos R$ 23 bilhões, segundo estimativas da Associação Brasileira de Instituições de Previdência Estaduais e Municipais (Abipem).

 

O Ministério da Previdência contabiliza mensalmente o pagamento de 24,6 milhões de benefícios, dos quais apenas 8,1 milhões encontram-se acima do salário mínimo. Isso, porém, não significa que a grande maioria das pessoas seja desprezada pelos empresários. Pelo contrário. Os bancos e as financeiras travam uma batalha para atrair novos clientes dispostos a pegar dinheiro emprestado com taxas menores que as praticadas no mercado. O crédito consignado funciona se houver comprometimento do tomador do empréstimo, mas pode ser um tiro no pé se a pessoa se empolgar com a facilidade do crédito e não controlar suas despesas mensais.

 

Diante desse cenário, o aposentado também deveria exigir maior contrapartida das empresas que lhe prestam serviços. Mais do que nunca, o momento é bom para colocar em discussão outros assuntos importantes, como a aplicação de alguns itens do Estatuto do Idoso, como a preferência de pagamento de precatórios e os descontos em ônibus interestaduais. Aos poucos, começamos a ser um pouco mais respeitados. Mas ainda falta muito para acabarmos com as injustiças e avançarmos em outras questões.

 

* Milton Dallari é consultor empresarial, engenheiro, advogado e presidente da Associação dos Aposentados da Fundação Cesp. O e-mail para contato é o miltondallari@terra.com.br.

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