ANA: ‘otimismo injustificado’ causou falta d’água em São Paulo

Opinião foi manifestada pela Agência Nacional de Águas (ANA) em comissão da Câmara. Diversos gestores do sistema hídrico paulista alegaram compromissos para não participar de audiência

A falta d'água no estado de São Paulo é fruto de tratar com normalidade uma situação que já era crítica no começo do ano de 2014. A opinião foi trazida à Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio pela Agência Nacional de Águas (ANA).

A reunião, organizada pelo deputado Guilherme Campos (PSD-SP), deveria contar com vários gestores do sistema hídrico paulista, como a secretaria de Recursos Hídricos de São Paulo, e as empresas que gerem o sistema, mas todos alegaram outros compromissos para não virem à Câmara.

Também faltaram representantes do consórcio que gerencia a bacia que abrange os rios Piracicaba, Capivari e Jundiaí. Esses são os principais rios que abastecem tanto o Sistema Cantareira de Barragens, que abastece a capital paulista, quanto as maiores cidades do interior, na região de Campinas.

"O governo de São Paulo fez uma opção pelos paulistas que moram na capital, e deixou à míngua os paulistas do interior", desabafou Campos. Segundo ele, pelo menos 35 municípios do estado de São Paulo já decretaram o racionamento de água. A cidade de Itu, por exemplo, sofre há quatro meses com a falta d’água. "Se não houver um dilúvio, vai faltar água. A falta com a verdade do governo para enfrentar a crise joga com otimismo para chuvas futuras", disse.

Chuvas

Pelos dados da ANA, seriam necessários 100 m³ por segundo no sistema, para continuar com a retirada de 23 m³ por segundo. Essa média de chuvas é superior aos máximos históricos, mesmo nos melhores anos, pelos dados da agência.

Para o diretor-presidente da ANA, Vicente Andreu Guillo, foi a persistência em olhar para o futuro de maneira otimista que colocou São Paulo numa situação pior do que deveria. “As decisões deveriam ser tomadas num cenário mais conservador, mas o governo de São Paulo agiu como se estivéssemos num período de normalidade, e não estamos”, disse.

Para demonstrar esse otimismo irreal, Guillo mostrou que, na justificativa enviada à ANA pela Sabesp, empresa responsável pelo fornecimento de água, coleta e tratamento de esgotos de 364 municípios do Estado de São Paulo, para utilização do volume morto do Sistema Cantareira, a empresa fez uma projeção de 15 m³ de água entrando nos reservatórios para o período logo posterior, mas na realidade a entrada foi de menos de 4 m³.

“Além disso, não podemos fazer administração do volume morto como se ele não fosse para uso em emergência, isso é a projeção de futuro que se adapta às medidas que estão sendo tomadas no curto prazo”, disse.

Volume morto é o volume de água que está estocado em barragens, abaixo do que é usado para abastecimento, compensando tempo de chuva com tempos de seca, e não deveria ser usado. Pelos dados da ANA, o Sistema Cantareira não tem 11% de reserva como anunciado: ele está com 20% negativo do seu volume. “A consequência é que você perde o controle do seu sistema hídrico, e fica dependente exclusivamente do regime de chuvas”, disse.

Obras

Indagado se as obras que estão sendo feitas serão suficientes para resolver o problema, Guillo disse que, no curto prazo, apenas chuva e medidas restritivas, como racionamento, são possíveis. “Dizer que uma obra  resolve é tirar o foco, porque as obras começam agora, mas precisam de dois ou mais anos para entrar em funcionamento. Uma obra que está programada e pode ficar pronta em nove meses em São Paulo está ligando um rio que está seco a outro que também está seco, ou seja, você depende de chuvas”, disse.

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