Amazônia, violência, “fora Temer”… Discursos políticos viram hit de todas as tribos no Rock in Rio

 

“Purgatório da beleza e do caos”, a Cidade Maravilhosa continua linda e a encantar gregos e troianos mesmo imersa em uma gravíssima crise de segurança pública, com a comunidade da Rocinha, a maior favela da América Latina, vivendo uma verdadeira guerra de narcotraficantes. Nem tão longe das rajadas e das balas perdidas, no Parque Olímpico da Barra da Tijuca, o Rock in Rio, um dos maiores festivais musicais do mundo, não deixaria de ser palco para discursos e manifestações políticos, e não só contra a violência no Rio de Janeiro.

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Com atrações nacionais e internacionais dispostas em dois finais de semana, astros e celebridades – e não só do mundo da música – se revezaram em manifestações diversas. Alertas para as ofensivas do governo Michel Temer sobre a Amazônia; pedidos de paz na Rocinha e em outros rincões da cidade; palavras de ordem contra os “canalhas” da política (aspas de Rogério Flausino, do Jota Quest)... E, show sim, outro também, o principal hit do festival: coros de “fora Temer” – a tradução sonora dos índices de rejeição popular do presidente, que gira em torno de 85%.

Aqui, o público entoa o hit no show de Evandro Mesquista, da Blitz:

 

“O Brasil não é isso. O Brasil é a verdade, é a coragem de cada um de nós que sai de casa todo dia para trampar [trabalhar], para poder cuidar da família, para poder estar estar aqui no Rock in Rio. A paz é mais importante do que todos os motivos que esses canalhas têm para passar a mão na nossa grana”, discursou Flausino na noite de sexta-feira (22), na hora de apresentar a canção “Dentro de um abraço”, pedindo um abraço coletivo para as dezenas de milhares na plateia.

Mas foi a “übermodel” brasileira Gisele Bündchen que deu início à pegada política do festival. Em aparição luminosa e emocionada ao lado da estrela baiana Ivete Sangalo, Gisele chorou e discursou para defender a Amazônia – ela que já havia criticado Temer, em mais de uma plataforma, pela extinção da Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca), que abre espaço para a mineração em uma área que se estende pelo Amapá e pelo Pará, e pela redução da floresta Jamanxim (PA).

Reprodução

Alicia Keys e a líder indígena Sonia fazem o mais impactante protesto contra o governo Temer no festival

Na abertura da festa, na sexta-feira (15), Gisele voltou à carga, parecendo encantada em um vestido branco e cintilante. “Sonho com o dia em que viveremos em total harmonia com a Mãe Terra, em total gratidão por tudo o que ela nos provê”, declarou a modelo, que promove o debate ambiental e filantrópico em redes sociais como o Twitter, em que tem 4,77 milhões de seguidores. Na ocasião, antes de cantar “Imagine” (John Lennon) com Ivete, Gisele lançou o site believe.earth/amazonialive, projeto socioambiental do Rock in Rio.

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“Um movimento global, uma plataforma para inspirar e conectar todos os que acreditam e que querem se unir para criar um mundo melhor”, acrescentou, no momento em que o “fora Temer” voltou com toda força.

Veja abaixo (a partir de 2:25):

 

A questão das demarcações de terras indígenas ganhou espaço privilegiado no palco da cantora, compositora e instrumentista Alicia Keys, que levou ao seu show, na sexta-feira (18), a líder indígena Sonia Bone Guajajara, no protesto político mais impactante do festival. Enquanto um tambor, um cavaquinho e uma cuíca serviam de fundo musical em voluma baixo, a índia deu seu recado, enquanto Alicia bailava, silente e em postura de reverência.

“O governo quer colocar à venda uma gigantesca área de reserva mineral. No próximo dia 20 haverá uma votação no Senado de um decreto legislativo que pode barrar todo esse absurdo. Senadores, vocês têm a chance de evitar isso. E nós estaremos de olho!”, advertiu Sonia, levantando a plateia e o “fora Temer” já habitual em momentos como esse. Sonia se referiu à votação no Senado, não realizada no dia prevista, que poder anular os efeitos do decreto presidencial que extinguiu a Renca. Presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE) já avisou que pautará a matéria para esta semana.

Veja:

 

Os protestos contra Temer era vistos e ouvidos por toda a extensa área delimitada para acomodar a megaestrutura do festival. Nos palcos ou fora deles. No vídeo abaixo, um grupo deu início ao coro “fora Temer” no meio de uma tentativa de entrevista de Bruno De Luca, apresentador que fazia as vezes de repórter no Rock in Rio. Bruno conversava amenidades com uma entrevistada quando, diante da manifestação – que teve até celular com a frase na tela –, resolveu interromper a cena.

Confira:

 

A reação de Bruno destoou da atmosfera de protesto desta edição do Rock in Rio, talvez a mais politizada desde a primeira, em 1985. Mas a postura do apresentador, como em toda democracia que se preze, também tem o seu lugar. Seja qual for a ideologia política dos roqueiros e congêneres, o certo é que a ausência temporária das manifestações nas ruas foi substituída pela indignação patente na grande arena musical.

E coube a um mineirinho dar a real para a classe política, no sábado (16). “Eu queria fazer um apelo à classe política desse país: que não nos tornasse tão árdua e difícil a missão de ver, de enxergar um pouco de integridade neles, um pouco de moral. Fica difícil de acreditar no Brasil – aliás, no Brasil eu acredito. Não acredito é na classe política. Nosso dinheiro está escorrendo pelo ralo [...]. Quero deixar claro, aqui, que de um lado e de outro a gente não se parece com vocês, políticos brasileiros. A gente é divertido, é diferente. Vocês são piores do que ladrão. Vocês matam gente!”, bradou Samuel Rosa, líder da banda Skank, ao anunciar a pertinente “Indignação”. Ato contínuo, mais “fora Temer” na plateia.

Assista ao protesto (o coro começa a partir de 1:50):

 

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