Aeroporto Internacional Serra da Capivara: uma base aérea para pássaros

Inaugurada quase duas décadas após o início das obras, estrutura no interior do Piauí ainda não atende aos propósitos de sua construção, de cerca de R$ 20 milhões. Pista de apenas 1.650 metros já o desqualifica como internacional e desestimula visitação de turistas a parque arqueológico tombado pela Unesco

Edjalma Borges
Especial para o Congresso em Foco

Inaugurado em outubro de 2015, quase duas décadas depois do início das obras, o Aeroporto Internacional Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, a 530 km de Teresina (PI), ainda não atende aos propósitos de sua construção, que custou quase R$ 20 milhões. Pensado para facilitar o acesso de turistas ao parque homônimo, o aeroporto só recebe dois voos por semana vindos da capital do estado. São aeronaves de nove assentos da empresa Piquiatuba, única a se interessar para operar na região.

Na cidade com pouco mais de 30 mil habitantes, muitos ainda não sabem que existem voos com destino a Teresina. Outros sabem, mais vão de ônibus, pagando R$ 95 em um trajeto de seis horas. Para embarcar de aeronave é preciso desembolsar R$ 330, o que inviabiliza a viagem de dona Maria das Dores, por exemplo, que frequentemente precisa ir à capital fazer tratamento – com o que ganha, no entanto, ela mal consegue comer e custear os remédios de que necessita. Sem falar que tem “medo deste bicho que voa”.

Leia também:
Sem verba, parque que abriga vestígios dos primeiros homens das Américas corre risco de fechar

Com uma pista de apenas 1.650 metros que já o desqualifica como internacional, o aeroporto não tem estrutura para aduana e imigração, e é tão emblemático quanto o nome escolhido. O projeto arquitetônico, que só pode ser reconhecido do alto, representa um animal. E não é a capivara, como sugere o título, mas o veado.

A confusão é antiga, mas menos distante no tempo do que registros pré-históricos como o do Boqueirão da Pedra Furada, um dos principais sítios arqueológicos do Parque Nacional Serra da Capivara, que também fora interpretado por pesquisadores, por muitos anos, como alusão às capivaras. Mas erraram: o bichinho na verdade era um veado. Até aí já tinham nomeado o parque e, depois, o aeroporto. Tanto a pintura-símbolo da reserva ambiental quanto a arquitetura do aeroporto possuem prolongamento que sugere uma cauda. Capivara não tem rabo e, pelas pinturas do parque, elas aparecem em menos sítios do que as pinturas dos veados, animal que ainda existe na região e parece ter sido muito apreciado pelos pré-históricos que ali viveram.

Na época dos índios, segundos os pesquisadores, havia água abundante na região. Acabaram a água e as capivaras; proliferaram-se os veados.

Ilha de modernidade em meio ao mato

O aeroporto é moderno, mas parece uma ilha em meio à caatinga que circunda os arredores de São Raimundo Nonato. Uma cerca de arame farpado impede parcialmente a entrada de visitantes.

Nos arredores, o mato e a sujeira tomam conta; a entrada que daria acesso ao piso superior está interditada, uma vez que a Esaero, empresa que administra o aeroporto, tenta há dias instalar uma tela de proteção para impedir a entrada de pássaros, que acharam ali abrigo do sol e do forte calor do interior piauiense.

A Esaero não tem autorização para prestar informações ou mesmo para cuidar definitivamente do local. Embora a obra esteja concluída, a empresa construtora ainda não a entregou ao Governo do Piauí.

A construtora se chama Sucesso e alega que o Governo do Piauí lhe deve, e que já entregou a obra ao estado. A empresa pertence à família do ex-senador João Vicente Claudino (PTB), que cumpriu mandato de oito anos e, depois, retirou-se da política. As construtoras Sucesso e Jurema – esta, pertencente a outro grupo político, a família Castro, do deputado federal Marcelo Castro, ex-ministro da Saúde no governo Dilma Rousseff – são as campeãs de licitações no Piauí.

Praticamente todas as grandes obras do estado são tocadas pelas duas. Nas obras do aeroporto de São Raimundo, a Sucesso foi cobrada pelo Ministério Público Federal no estado por prejuízo de R$ 8,7 milhões. Na obra, por exemplo, a Sucesso não construiu o tamanho da pista acordado em contrato e utilizou materiais de qualidade ruim, comprometendo a vida útil da pista de poso.

À Esaero o Governo do Piauí paga R$ 1.777.892,52 por ano. A empresa deve empregar no mínimo 22 pessoas, mas no local trabalham apenas 17 nos serviços de vigilância, agente de pátio, gerência de operações, segurança e serviços gerais.

O visitante ou turista que precise, por exemplo, fazer um lanche no aeroporto está impedido. Na única lanchonete do local há apenas uma geladeira, nada mais.

Nacional

O aeroporto é internacional no nome e no papel, e nessa condição deveria receber voos das principais empresas aéreas do país, bem como facilitar a chegada de turistas ao Parque Nacional Serra da Capivara, declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela Unesco, em 1991, devido à concentração de sítios arqueológicos.

A arqueóloga Niède Guidon, responsável pela criação do parque em 1979, doou mais de R$ 100 mil para apressar a conclusão do aeroporto. Ela afirma que o terminal chegou tarde demais e, apesar de estar funcionando, ainda não favoreceu o aumento de turistas.

“Serra da Capivara recebe 25 mil turistas por ano. Patrimônios da humanidade em outros países recebem cinco milhões por ano”, lamenta.

A arqueóloga explica que os turistas chegam ao parque pelo aeroporto de Petrolina (PE), a 350 km, mas as estradas são péssimas. Há cada quatro anos, sempre às vésperas de eleições, é comum os políticos citarem a situação dos cerca de 40 km entre Dirceu Arcoverde, no Piauí, e Remanso, na Bahia.

Penúria

Ao longo dos quase 20 anos de construção do aeroporto, com paralisações, o parque Serra da Capivara foi perdendo turistas e se degradando pela carência de recursos. Segundo Niède, dos 270 funcionários que existiam no parque, hoje restam apenas 30 e todos já estão sob aviso de serem demitidos, porque o governo federal interrompeu o repasse de recursos.

De 28 guaritas, postos de segurança no interior do parque, apenas quatro estão funcionando. Dos cinco carros outrora utilizados para percorrer a região e fazer manutenção restam apenas dois. O sítio arqueológico recebia doações de diversas empresas brasileiras, incluindo a Petrobras, que dava R$ 1,6 milhão por ano. Com a crise decorrente do petrolão, a estatal prometeu doar R$ 800 mil em 2015. Mas se passou um ano e nada do dinheiro.

Já o aeroporto, obra faraônica, corre o risco de se tornar um veado branco em meio à escaldante caatinga. Caso uma solução não seja encontrada, nenhuma empresa aérea conseguirá se manter operando entre São Raimundo Nonato e Teresina sem receber subsídios do governo estadual.

Sem verba, parque que abriga vestígios dos primeiros homens das Américas corre risco de fechar

 

Mais sobre crise brasileira

Mais sobre gestão pública

Continuar lendo

Assine e obtenha atualizações em tempo real em seu dispositivo!