A política na roda do samba

Fábio Góis

No início do ano, elas surpreenderam o público inglês ao abrir um show da primeira turnê internacional com versão samba de Satisfaction, clássico dos Rolling Stones. E é justamente essa versão que o público vai poder conferir no dia 1º de dezembro, na sede da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), em Brasília, durante a cerimônia de entrega do Prêmio Congresso em Foco 2008.

Trata-se da “banda de sambão” – como elas mesmas definem – Samba de Rainha, formada por Núbia Maciel (vocal), Aidée Cristina (surdo), Erica Japa (rebolo), Gadi Pavezi (pandeiro), Naná Spogis (violão), Sandra Gamon (tamborim e repinique) e Thais Musachi (cavaco). Aliás, o nome do grupo é uma homenagem às musas do samba, como Clara Nunes, Clementina de Jesus, Jovelina Pérola Negra.

“Naná chegava ao ensaio e ficava tocando Tracy Chapman [cantora norte-americana], uns roquinhos muito loucos. Foi quando teve a idéia de tocar Satisfaction. Aí uma já ia acompanhando com o pandeiro, outra já entrava com outro instrumento, e aí ficou legal”, contou a vocalista Núbia Maciel.

Essa combinação de sons e ritmos dará o tom à premiação dos 42 parlamentares que, na avaliação de jornalistas que cobrem o Congresso, mais se destacaram no exercício do mandato este ano. A ordem de classificação dos finalistas será dada pelo internauta, que tem até a próxima quinta-feira (20) para votar.

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Sambão

“Vamos trazer [a Brasília] muito sambão. Mas não vamos só tocar o que tem no nosso CD [Vivendo o samba, recém-lançado], ninguém está a fim de escutar só música que não conhece. E tocaremos cinco ou seis músicas de nosso CD, porque também queremos mostrar nosso trabalho”, resumiu Núbia, acrescentando que não faltarão versões “de Rainha” para músicas consagradas por nomes como Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Leci Brandão, Fundo de Quintal, enfim, muita gente bamba.

“E vai ter Satisfaction também!”, emenda a vocalista, antes de recordar a reação do público londrino com a surpresa brasileira preparada por elas.

“Quando começamos a tocar, a platéia deve ter pensado: ‘Ah, não, elas vão tocar rock’n’roll? Quando começou o sambão, o público delirou”, relatou Núbia, referindo-se ao refrão – quando, quase que imperceptivelmente, os acordes roqueiros dão lugar ao frenético compasso da percussão brazuca. “Esse é o Samba de Rainha // Que faz um samba bem legal // A mulherada é do rock // Mas é do fundo de quintal”, diz trecho da música.

Lupa

Núbia revela que o grupo está entusiasmado com a possibilidade de participar, pela primeira vez, da premiação dos melhores parlamentares.

“Estou falando contigo arrepiada. Vai ser uma honra muito grande, vamos estar em um dia de alegria. É uma alegria poder premiar pessoas que estão fazendo um bom papel no Congresso, aqueles que são honestos”, declarou a cantora, em sintonia com o propósito da premiação, que é justamente incentivar o desempenho dos bons políticos e mostrar à opinião pública brasileira que nem tudo é falcatrua, descaso ou incompetência na política nacional. “Chega de tanta gente sendo comprada.”

Segundo Núbia, há paralelo entre o trabalho de interesse público realizado pelo site e a trajetória da banda, que tem cinco anos de estrada.

“A gente faz nosso trabalho com verdade, e é isso que faz a gente ter sucesso. E nos admiramos muito umas às outras. A gente também tem um pouco de irreverência”, disse. Assim como o prêmio, que está em sua terceira edição, novos trabalhos estão a caminho, lembra a vocalista. “O terceiro CD com certeza já está na cabeça. E o DVD, que é muito caro”, emenda.

Lançado em 2005, o primeiro disco da banda, chamado Isso é Samba de Rainha, foi produzido de forma “meio caseira”, explica Núbia. “Foi meio fundo de quintal, para os amigos.” Ela diz que a escolha do nome do segundo trabalho, Vivendo o samba, tem uma explicação lógica. “Porque agora a gente vive disso.”

Samba de sala

Tudo começou com uma despretensiosa reunião de amigas em uma cobertura do Morumbi, bairro nobre de São Paulo, propriedade de uma companheira de batuque – que, curiosamente, preferiu não trilhar o caminho da música, e não integra mais o grupo.

“Na verdade, começou como uma brincadeira, porque nenhuma de nós era musicista. Nessa bagunça os homens também tocavam, mas foram ficando só as meninas”, disse Núbia, lembrando que um dos primeiros shows ocorreu em uma festa de aniversário. “Depois tocamos em alguns bares, e começaram a pagar cerveja pra gente tocar. Aí começou a melhorar, né?”, brincou.

Hoje, com a experiência acumulada em cinco anos, e depois da turnê que chegou à capital da Inglaterra e a oito cidades de Portugal – como Lisboa, Porto, Braga e Estoril –, Samba de Rainha tem a agenda lotada até o final do ano, com shows marcados para Fortaleza (CE) e compromissos fixos em casas de São Paulo. E em Brasília, no dia 1º de dezembro, claro.
 
As influências? Clara Nunes, Jovelina Pérola Negra, Clementina de Jesus, Beth Carvalho. Mas também há espaço para homens bambas, como Ary Barroso e Ataulfo Alves – aqui entram as reminiscências da infância de Núbia, “carioca-paulistana” – como ela mesma se define – de Teresópolis (RJ), cujos pais lavradores organizavam troças de carnaval da roça embaladas pelas marchinhas dos dois mestres.

“A gente cantava muito do que conhecia, mas a maioria de nós não nasceu no meio do samba. A gente vai a boates”, declarou a vocalista, revelando o caráter urbano da música do Samba de Rainha, cujas componentes não têm como negar a brasilidade registrada no estilo samba de raiz. “Qual é o brasileiro que nunca escutou samba?”

Entretanto, a despeito da qualidade da música e da “fidelidade” aos grandes mestres da chamad

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