Suplicy questiona Dilma se alguém no Planalto não quer que se encontrem

Em apelo final para ser recebido pela presidente até sábado, senador se compara a Evo Morales, que tentou sem sucesso ser recebido pelo Vaticano durante dez anos e pergunta se alguém do Planalto se opõe ao encontro dos dois. Veja a íntegra da carta

No último apelo dirigido à presidente Dilma Rousseff para ser recebido por ela pela primeira vez antes do término do seu mandato no Senado, neste sábado (31), o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) levanta a suspeita de que alguém no Planalto não deseja que os dois se encontrem. Sem resposta para o pedido que encaminhou ao palácio há um ano e meio, Suplicy compara sua situação à do presidente boliviano, Evo Morales, que tentou sem sucesso, por dez anos, ser recebido no Vaticano. “Todas as vezes que ele tentava, a Cúria na Bolívia se movimentava para que não acontecesse”, escreveu o senador na carta enviada ao Planalto na última terça-feira (27) e reenviada por email nessa quinta-feira (29). Nenhum retorno até o momento.

Em viagem para um compromisso na Universidade Federal do Maranhão, o petista admite voltar às pressas para Brasília ainda no sábado, apenas para ser recebido pela presidente. Primeiro senador eleito pelo PT, Suplicy deixa o Senado após 24 anos de mandatos. Jamais foi recebido por Dilma. Apesar do silêncio do Planalto nas horas que antecedem sua saída do Congresso, ele não perde a esperança. “Seria justo que ela pudesse me receber. Estou nessa expectativa”, disse ao Congresso em Foco (leia mais).

Confira a íntegra da última carta de Suplicy a Dilma, na última tentativa de ser recebido por ela.

"Querida Presidenta Dilma Rousseff:

Estou em Brasília de hoje a 28 de janeiro na enorme expectativa do que Vossa Excelência me disse no dia de sua diplomação, quando a cumprimentei. Que achava mais do que justo que eu pudesse ter uma audiência com Vossa Excelência ainda antes de terminar o meu mandato, neste próximo dia 31 de janeiro. Conforme expliquei ao Dr. Beto Vasconcelos e à Dra. Daisy Barreta, nos dias 29 e 30 deverei estar na Universidade Federal do Maranhão, em São Luís, para uma palestra e participar da banca de tese  de doutoramento do estudante Waltemar de Andrade Braga sobre “O Bolsa Família em Guaribas e Acauã (PI). Estudo sobre o Desenvolvimento e o significado de experiências pioneiras”, sob a orientação da Profª Maria Ozanira Silva e Silva. Estar nessa banca tem, para mim, um significado especial, pois estive presente nas duas cidades, quando do lançamento do programa pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo Ministro José Graziano da Silva.

Portanto, a não ser que Vossa Excelência venha a me convidar para encontrá-la no sábado, os últimos dias que restam de meu mandato de 24 anos de Senador do PT/SP aqui em Brasília são hoje, 27, e quarta, 28 de janeiro.

Ainda no sábado, quando encontrei o Presidente Lula na Festa dos imigrantes bolivianos, no Parque D. Pedro, em São Paulo, ele me afirmou de sua convicção de que conseguirei obter a audiência. Também no sábado, no Encontro dos Amigos do MST na Escola Florestan Fernandes, em Guararema, conversei sobre a dificuldade que eu estava tendo com Leonardo Boff e sua esposa Márcia, com João Pedro Stedile, o Deputado Paulo Teixeira e outros amigos que estavam na mesa. Chegaram a comentar que eu deveria me postar no Palácio até ser recebido. Relataram-me um episódio interessante de que o Presidente Evo Morales, por cerca de dez anos tentou obter uma audiência junto ao Papa. Ele queria muito conversar, uma vez que justo na Igreja Católica da Bolívia havia forte oposição a ele.  Souberam que todas as vezes que ele tentava, a Cúria na Bolívia se movimentava para que não acontecesse. Aconteceu, então, que o Papa Francisco resolveu ter um encontro com os líderes dos movimentos populares de todos os países, cerca de cem entre os que mais se destacavam, dentre os quais João Pedro Stedile, do MST. Como Evo Morales era um importante líder das comunidades indígenas na Bolívia, aqueles líderes resolveram convidá-lo para participar do Encontro Mundial dos Movimentos Populares, em 27-29 de outubro de 2014, em Roma, portanto não como Presidente. Nessa qualidade, o Presidente Evo Morales participou. Quando o encontro estava para ser encerrado o Papa Francisco tocou o ombro do Presidente Evo Morales e lhe disse; “Ven a cenar conmigo”. E assim aconteceu o diálogo de ambos.

Fiquei, então, pensando e até relatei ontem esta reflexão ao Ministro Secretário Geral da Presidência, Miguel Rossetto: será que há pessoas no Palácio que não querem que eu tenha a audiência com a Presidenta Dilma? O ministro me garantiu que isso não acontece e que ele iria falar com Vossa Excelência.Estou no aguardo, no Palácio do Planalto, pois acredito firmemente na sua palavra.

Ontem houve importante notícia. A vitória do partido Syriza na Grécia, o qual tem no seu programa o objetivo de instituir, por etapas, a Renda Básica Incondicional, conforme registra o Boletim da BIEN, disponível no link a seguir: link. Portanto, tal como o Presidente Tabaré Vásquez, no Uruguai, e o Podemos, na Espanha.

O tema sobre o qual proponho dialogar refere-se ao apelo dos 81 senadores para que seja formado um Grupo de Trabalho para estudar as etapas previstas na Lei 10.835/2004, aprovada por todos os partidos, sancionada pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva há onze anos. Todos os especialistas que mencionei que poderão fazer parte desse Grupo de Trabalho reconhecem os méritos do Programa Bolsa Família que obviamente perdurará e poderá ser aperfeiçoado até que o Brasil reúna as condições para efetivar a Renda Básica de Cidadania para todas as pessoas.

Respeitosamente, o abraço amigo,

Senador Eduardo Matarazzo Suplicy"

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