“PT não pode ser tratado como organização criminosa”, diz deputado

Para o petista Wadih Damous, partido precisa se renovar, buscar novas lideranças e não se resumir a Lula como única opção à sucessão de Dilma. Veja a segunda parte da entrevista do ex-presidente da OAB-RJ

Congresso em Foco – Quais são suas primeiras impressões sobre a Câmara. O que o surpreendeu positiva e negativamente?
Wadih Damous –
Positivamente, vou ter de me esforçar muito para apontar algo. Negativamente é fácil. Pelo que observei no primeiro mês, há uma discussão política rebaixada. Vejo que as bancadas fundamentalistas, a partir do presidente da Casa, ganharam espaço desmesurado. Há manifestações diárias, diuturnas, de intolerância e ódio, sobretudo, em relação aos segmentos LGBT. O debate fica rebaixado à troca de acusações. Estou mal impressionado com o que estou vendo aqui. Reconheço que, ao contrário do que se pensa lá fora, aqui se trabalha muito, a qualquer momento as comissões estão reunidas. As votações em plenário, embora esteja prevalecendo uma pauta conservadora, têm acontecido. Mas, no geral, a impressão é negativa.

Por que a bancada conservadora veio mais forte nesta legislatura?
São os tempos conservadores que estamos vivendo. Acho que a própria grande imprensa contribui para isso ao dar grande destaque e ao advogar causas conservadoras. A redução da maioridade penal é um exemplo. Existe por parte da grande imprensa uma pressão para que a redução da maioridade penal seja aprovada aqui. Ao mesmo tempo, fazem vista grossa às arbitrariedades que essas bancadas cometem, como esses atos de intolerância, de manifestação de ódio. Além disso, tem o problema do poder econômico. Tentamos mudar isso na chamada reforma política, que não tem nada de reforma.

A reforma aprovada na Câmara piora o sistema eleitoral?
Chegou um momento aqui que só torcíamos para não piorar. Não tínhamos mais nenhuma esperança de que alguma coisa que prestasse fosse aprovada. Nada do que foi aprovado pode ser considerado positivo. A única questão positiva foi que não entrou o distritão, que conseguimos derrotar. No mais, foi aprovada uma série de questões que poderiam ser tratadas por lei, no plano infraconstitucional. Há uma tendência de mexer na Constituição, o que é um absurdo. Banalizaram a mexida na Constituição casuisticamente. Este é outro risco que a democracia corre. O que se vê aqui é um rebaixamento do nível político muito preocupante.

Qual a saída para mudar esse cenário?
Que nas próximas eleições o próprio eleitor corrija as anomalias. O Dr. Ulysses Guimarães respondia, quando reclamavam que o Congresso estava muito ruim: é porque você não viu o próximo. Não consigo imaginar alguma coisa pior do que isso aqui neste momento.

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, tem feito uma gestão de embates. O que tende a acontecer no restante da presidência dele?
O deputado Eduardo Cunha é o comandante da maior bancada da Câmara. A bancada dele é maior do que a do partido dele, o PMDB. Ele é a expressão desse contingente. E, ao mesmo tempo, esse contingente é a expressão dele. Estão afinados ideologicamente.  Ele se comporta hoje de maneira hostil ao governo e ao PT. Não deixa escapar nenhum momento para manifestar seu desapreço e desprezo tanto pelo PT quanto pelo governo. Talvez queira afirmar uma liderança para o futuro. Não sei o que ele pleiteia, se outros cargos no futuro, depois de terminar o mandato como presidente da Câmara. Mas é um fator de retrocesso, uma ameaça de regressão às conquistas democráticas consolidadas. Do ponto de vista dos segmentos progressistas, ele vai deixar marca negativa na trajetória da Câmara.

Por que ele cresceu tanto? O governo falhou com ele?
É coisa de bastidor que não sei. Alguns dizem que o PT não deveria ter lançado candidato contra ele, mas era um direito do partido. Dizem que o ressentimento dele com o partido começou aí. Outros dizem que ele atribui ao governo o fato de estar sendo investigado. Mas o próprio governo está sendo investigado. Mas aí caímos na esfera do subjetivismo.

Eduardo Cunha também contribui para a imagem negativa do governo Dilma, que, segundo ele, chegou ao fundo do poço?
Contribui muito com suas pautas conservadoras, seus ataques, suas afirmações negativas em relação ao governo e ao PT. Ele é um fator que contribui para essa imagem. Mas, independentemente disso, o governo tem seus erros. Mas tem muito tempo para recuperar. Dilma vai completar seis meses de mandato. Há tempo suficiente para corrigir os rumos da política e da economia.

Quais foram esses erros?
A presidente sinalizou mal. Na questão do ajuste econômico, ela sinalizou que os penalizados seriam apenas os mais pobres. Não adotou medidas compensatórias, como taxação de grandes fortunas e reforma tributária progressiva. Algo que sinalizasse que o sacrifício seria dividido por todo mundo. Que os que podem mais arcariam com maiores custos. Dilma perdeu uma base de apoio importante que foi decisiva para sua reeleição. Mas há tempo para recuperar. Espero que o governo tenha consciência do que está se passando no país. Como está não pode ficar.

Falta interlocução do governo com o Congresso?
Infelizmente, não há interlocução. Este é outro erro do governo. Não há uma interlocução mais constante e produtiva. A presidente tem um estilo, que não é como o do ex-presidente Lula. Ela não gosta de fazer política. É uma pessoa mais fechada. O problema é que ela não delega. Ainda que não goste ou não saiba, ela poderia delegar. Não delega. O governo fica isolado no Planalto, não há diálogo com o parlamento, com o PT, com a base aliada. Isso acaba contribuindo também para as coisas chegarem a esse ponto.

Mas essa crítica já era feita no primeiro mandato dela. Parlamentares do PT acreditavam que isso fosse mudar no segundo governo. Seis meses depois não mudou. O que o faz acreditar que será diferente?
Não mudou. Tem tempo para mudar, pouco mais de três anos. É preciso esforço, vontade política, perceber onde está errando e procurar corrigir. Tempo tem, agora se a correção de rumos vai acontecer... Não considero popularidade um dado definitivo, porque sobe e desce.

O PMDB fala em anunciar este ano candidatura própria ao Planalto em 2018. Isso complica a relação com o PT?
Todo ano o PMDB fala isso, depois se alia com um ou outro partido. É direito deles ter candidato próprio. Se vão ter ou não, é um direito do PMDB.

O governo está nas mãos do PMDB? Ficou prisioneiro de Renan Calheiros e Eduardo Cunha?
Não sei se prisioneiro. Mas há uma dependência muito forte, com as duas Casas pressionando o governo e os dois presidentes investigados na Operação Lava Jato. Percebe-se que há uma dificuldade do governo em aprovar medidas aqui dentro. Estar na mão talvez seja um termo muito forte, mas há dificuldade muito grande de relacionamento. Isso é perceptível.

O governo e o PT deveriam tentar recompor com uma base mais à esquerda?
Mas a esquerda no Parlamento é muito diminuta. O governo tem de buscar articulações fora do Parlamento, com os movimentos sociais. A presidente está sinalizando com um fator positivo, que é o plano de reforma agrária. Ela deu prazo para o ministro Patrus Ananias apresentar um plano de assentamentos. Com isso, é possível reconquistar aliados históricos, como os trabalhadores rurais, o MST. Por isso digo que tempo tem, agora é adotar a política correta. Ficar só na dependência do PMDB é o caminho para o precipício. O PMDB não quer mergulhar conosco no precipício. Tem muito jogo para ser jogado.

O ex-presidente Lula defendeu revolução e renovação no PT. Disse que o partido só quer cargos e perdeu a utopia. Ele tem razão?
Compartilho integralmente. Perdeu, sobretudo, quando chegou ao governo. O PT não é diferente de outros partidos com o mesmo perfil popular e esquerda progressista que, quando chegaram ao governo, em nome da governabilidade, resolveram assumir posições pragmáticas. Muitas delas contrárias aos seus princípios e valores. O PT não foi diferente. Aconteceu. É tempo de voltar e refletir sobre o papel do partido. Não pode ser correia de transmissão do governo. É o partido de apoio ao governo, mas não a qualquer preço, não é apoio acrítico. É um apoio que tem de ser negociado. Um apoio que muitas vezes critica. Apoiar não é só bater palma.

Mas como se muda isso?
Tem de renovar direção e quadros. O PT está muito burocratizado. Não é mais aquele partido de rua, de massa, dinâmico, criado como a novidade da política brasileira. O PT é patrimônio da política brasileira. Não pode ser tratado como organização criminosa como tem sido tratado nos últimos anos. Parte disso tem de ser recuperada. Claro que governar é uma coisa e ser oposição é outra. Ninguém vai se comportar como oposição no governo. Temos de encontrar uma justa medida que não descaracterize o partido como nos últimos anos.

Mas Lula ainda é o nome mais forte do partido para 2018. Não é contraditório ele defender renovação?
Ele acaba sendo paradoxalmente exemplo do que ele diz. O presidente Lula é a maior liderança do partido, fundador do PT. E quando se pensa em candidatura para 2018, só se pensa nele. O PT tem de preparar novas lideranças, tem de dar chance, abrir caminho. É o que ele está dizendo. Lula não é eterno. PT não pode se resumir a ele. Ele continua sendo maior do que o PT. Não é bom que assim seja. Para 2018, Lula continua a ser o candidato mais forte do partido, mas pode ser que ele não queira ser. Então quem vai ser o candidato? Quem o PT está preparando?

Quem? Não tem?
Que me ocorra espontaneamente, não, porque Lula continua sendo não a maior, mas a única expressão social do PT com essa magnitude, conhecido nacionalmente. A presidente Dilma mostra claramente sua inapetência para a política. Ela não gosta, não se sente à vontade, não tem prazer, diferentemente de Lula, que adora conversar, fazer política. É um perfil.

Na crise, ela colhe o que plantou de certo modo?
Se ela delegasse, mas não delega. Não sei, só a presidenta Dilma pode esclarecer, não sei.

Parlamentares do PT que se expõem na defesa do governo, contrariando a opinião pública muitas vezes, se sentem sozinhos?
A conduta da bancada acaba sendo reflexo do que está acontecendo com o governo e o partido. Está faltando orientação, rumo, linha de atuação. É preciso ter clareza de enxergar o que está acontecendo na conjuntura. É preciso diálogo, conversa, reunião. Precisamos conversar mais.

Há parlamentares históricos do partido insatisfeitos, falando até em deixar o PT. O senhor teme alguma debandada?
Vejo uma ou outra defecção. Debandada em curto prazo não vejo. O partido precisa reassumir as rédeas da sua orientação partidária, ter maior clareza, começar a reagir ao que está acontecendo. Uma boa parte desses parlamentares era militante, depois se tornaram parlamentar. Eles têm princípios ideológicos. O PT não é sigla de aluguel. Há insatisfações. Até eu me sinto muitas vezes frustrado, mas não a ponto de querer mudar de partido. É o maior partido brasileiro, tem mais de 1 milhão de filiados. É um patrimônio. Temos de pensar nesses milhares de filiados.

O sentimento de antipetismo não cria receio no parlamentar de não se reeleger?
Cria. Eu, particularmente, se tivesse ido para outro partido, teria pelo menos o dobro de votos. Estava consciente de que me candidatando pelo PT corria o risco de não me eleger. Existe essa ligação ideológica e de princípios com o partido. Não é só a questão eleitoral que preside as atitudes desses parlamentares. Agora, o partido tem de dar resposta também.

A possibilidade de impeachment ainda é um tema que preocupa o PT?
Com esse clima de ódio e de antipetismo que se procura generalizar, essa questão do impeachment estará sempre latente. Em alguns momentos mais escondido. Vamos ter de conviver até o fim do governo. Agora, não há elementos para o impeachment. A Constituição não prevê impeachment por insatisfação com o governo. Quando você está insatisfeito, o que a democracia preconiza é que você espere pacientemente o fim do mandato e vote em outro partido ou candidato nas próximas eleições. Este é o jogo democrático. O impeachment teve apelo maior no início do governo. Até algumas lideranças da oposição mais responsáveis dizerem que este não era o caminho. Se já foi superado, só o tempo vai dizer. Neste cenário, essa questão vai estar sempre latente. Pode aflorar mais forte ou não, sempre estará ali. Mas este é um problema do país. O eleitorado não tem grandes referenciais na oposição. Qual é o projeto que eles têm para o país? A única coisa que a oposição faz é atacar moralmente o governo e o PT. Não apresenta um projeto para o país, não propõe um debate sério, aprofundado. É um risco para a democracia.

Quem faz oposição com eficácia no Brasil?
Quem faz oposição com eficácia aqui é a grande imprensa, a grande mídia. Este é o maior partido de oposição, e o mais eficiente. Mas esses não podem se eleger. Os donos de empresas jornalísticas não são até agora candidatos. Os partidos de oposição também não são referência para a população. Até porque alguns deles também estão envolvidos em investigações.

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