“Eu passei vergonha porque não sabia escrever”, diz aluno de 64 anos

Escolas para jovens e adultos mudam a realidade de pessoas que não tiveram a oportunidade de aprenderem a ler e escrever na infância

 

Por Claudia Sigilião, da Agência UniCeub

“Eu passei uma vergonha muito grande lá no banco porque não sabia escrever”. A declaração do auxiliar de serviços gerais Manoel Coelho Braga, de 64 anos, e estudante da Educação de Jovens e Adultos (EJA) surge de forma tímida. Ele explica que quando foi fazer uma negociação bancária e o gerente pediu que ele preenchesse um documento, sentiu que não tinha autonomia para lidar com essa situação. Ficou tão desnorteado que foi para casa contar para a esposa o que tinha acontecido. Disse que há muito sua esposa o incentivava a voltar para a escola. Nesse dia ele decidiu voltar à sala de aula.

Quando questionado sobre o que quer aprender ainda, Manoel enfatiza que “falta aprender mais caligrafia e matemática”. Ele acredita que é péssimo em matemática: “Apanho que só”. Com tranquilidade, brinca “(Agora) o caixa não não me passa pra trás”, referindo-se ao fato de se sentir seguro ao fazer compras.

Manoel Coelho Braga é um exemplo de quem conseguiu construir seu conhecimento e já tem autonomia para preencher formulários de banco e fazer suas compras. Assim como ele, os idosos se socializam, aprendem conteúdo e ganham independência no seu retorno aos estudos. Há uma mudança no perfil desses alunos que procuram a escolarização, mesmo que tardia.

Claudia Sigilião/Agência UniCeub
Claudia Sigilião/Agência UniCeub
A professora Sofia de Brito Ferreira (foto abaixo), 25 anos, da Escola Classe do Varjão, a 15 quilômetros do centro de Brasília, dá aulas na EJA há três anos e conta que no primeiro segmento da EJA “o objetivo do aluno é individual”. Desde querer voltar para a escola para tirar carteira de motorista com o objetivo de trabalhar em empresa, até buscar a realização de um sonho que pode ser o de fazer compras sozinho. A professora ressalta que esse segmento é constituído de “pessoas mais velhas que buscam correr atrás do prejuízo”.

Leis

De acordo com o artigo 230 da Constituição da República Federativa do Brasil (1988), “a família, a sociedade e o Estado têm o dever de amparar as pessoas idosas, assegurando sua participação na comunidade, defendendo sua dignidade e bem-estar e garantindo-lhes o direito à vida.”

A Lei n. 10.741/2003 do Estatuto do Idoso estipula em seu artigo 21 que o Poder Público deve criar “… oportunidades de acesso do idoso à educação, adequando currículos, metodologias e material didático aos programas educacionais a eles destinados”. Ressalta ainda que os cursos devem incluir conteúdo relativo às técnicas de comunicação, computação e demais avanços tecnológicos, visando a integração dos idosos à vida moderna.

Mundo Virtual

A emprega doméstica Maria Áurea, 60 anos, diz que sua matrícula na EJA não foi para aprender a ler e escrever, pois, trabalhando em casa de família, estava acostumada a fazer compras. Na verdade, ela queria se familiarizar com a tecnologia usada pelo serviço bancário. “Tinha coisas que eu ia fazer no banco, no caixa eletrônico, e eu não sabia”, conta Maria Áurea.

Introvertida, relata que é mãe de um casal de filhos e que sua filha não concorda que ela estude na EJA. Como mora distante do Varjão, todos os dias vai sozinha para a Escola no período da noite. Sua filha fica preocupada com sua segurança, mas Maria Áurea diz que não vai desistir.

Leia a íntegra da matéria na Agência UniCeub

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