“Ditadura gay eu não aceito”, diz Ronaldo Fonseca

Candidato à presidência da Câmara, pastor critica projeto que torna crime a discriminação de homossexuais e diz que evangélicos têm de demonstrar força

Nesta parte da entrevista, Ronaldo Fonseca (PR-DF) diz que parlamentares que defendem os direitos dos homossexuais não querem votar projetos que afetam a comunidade LGBT por temerem a derrota. “Temem a derrota porque o Parlamento brasileiro é tradicional e conservador e somos um país cristão.” Ele também ataca o projeto que torna crime a homofobia, em tramitação no Senado.

Congresso em Foco - A bancada evangélica está fechada com o senhor?
Ronaldo Fonseca - Fechada não é a palavra. Nem o Henrique tem bancada fechada. O PMDB está dividido. Mas tenho apoio porque sou da bancada. Tenho relacionamento com os parlamentares há muitos anos. É diferente.

Os evangélicos sentem falta de ter um representante na presidência da Casa?
Claro. É interessante para o segmento mostrar força. Que voto nós temos aqui? Se o segmento vota dividido, a gente perde força. Acho que dei um xeque-mate. Não estou pedindo declaração de voto, não fechei com a frente parlamentar evangélica, até porque há gente de partidos diferentes, não quero constrangê-los. Quero voto na urna. Sou um candidato sem ansiedade. Os outros têm mais que eu. Não tenho obrigação de ganhar, tenho a expectativa de ganhar. Obrigação tem o Henrique.

Que argumento o senhor tem utilizado para convencer os evangélicos?
No Parlamento brasileiro, que é democrático, vale a força do voto. Vence quem tem mais votos. Você tem de ter força política para pautar. Se eu não fosse candidato a presidente, você não estaria aqui. Isso é política. A frente parlamentar evangélica tem de conquistar espaço político, e não andar a reboque como hoje, correndo atrás de prejuízo. Já participei de outras eleições aqui, até quando não era deputado. A gente pedia: ‘Nós queríamos que o senhor, como presidente, não pautasse um projeto que afeta a frente parlamentar sem nos consultar’. O candidato respondia: ‘Claro, nunca vou fazer isso’. Aí ele se elege e bota projeto de surpresa para votar. Houve alguns até que perdemos em comissão.

Em vez de pautar, a frente atua para derrubar projetos?
Exatamente. Uma frente com 74 parlamentares tem de correr atrás do prejuízo.

Na presidência, que projetos que agradam à bancada evangélica que o senhor gostaria de pautar?
Não são projetos que agradam, mas aqueles que desagradam. Esses são os mais sérios. Aqueles que ferem princípios e a consciência do deputado. Sou amante do debate. Esses projetos têm de ir para o debate, só que não podemos ser pegos de surpresa. Eles têm de ser discutidos e votados.

Quais projetos, por exemplo?
Casamento gay, que é uma coisa que mexe muito. Por que engavetar? Não sou um cara que, se for presidente da Câmara, não vai botar pra votar. Você tem de ser leal com as frentes, inclusive, as outras, como a de apoio à comunidade LGBT. O Parlamento não pode ser dominado por grupos. Vamos discutir, vamos chamar a frente: ‘Quero avisar vocês que vamos começar o debate desse projeto aqui’. Se for para derrotar, que seja no voto. Comigo é assim, é no voto. Eles não querem. Esses grupos já pegaram vício do Parlamento. Eles fazem barulho, barulho. Quando propomos ir ao plenário, aí não querem, porque sabem que vão ser derrotados. Temem a derrota porque o Parlamento brasileiro é tradicional e conservador e somos um país cristão. A frente parlamentar evangélica não pode ser tratada como ninguém aqui dentro. Ela tem de ser respeitada como outras frentes, que pautam ideologicamente esta Casa. O parlamento é conservador.

O senhor colocaria em votação propostas como a descriminalização do aborto, o casamento gay e a legalização da prostituição?
Claro que eu colocaria. Primeiro, daria privilegio para o debate. Deputado não pode ir para o plenário sem saber o que está votando. Vamos para o debate e votar. A sociedade brasileira quer a prostituição profissionalizada? Então vamos para o voto, ampliar o canal de acesso da sociedade com a Câmara. Quero ouvir a sociedade. Quem ganhar, levou, meu amigo. Democracia é isso. Tem tantas leis votadas aqui e que afetam a gente na rua e que as pessoas não queriam, como a criação de imposto. Passa no Congresso e a gente se submete. Que história é essa que questões éticas e morais não podem passar aqui? Sou amante do debate, não corro do debate. Sou um deputado de opinião e pautei meu mandato em defesa de valores morais e éticos em que acredito. Tive embates sérios com o Jean Wyllys, por exemplo, em que deixei sempre claro que quero votar.

Como o senhor avalia a atuação do primeiro parlamentar brasileiro gay assumido a defender os direitos LGBT no Congresso?
Acho que ele faz um excelente trabalho como representante LGBT. Não concordo com as propostas dele, mas ele faz um excelente trabalho, mostra a cara. O parlamentar tem de mostrar a cara, isso que é bonito numa democracia. Agora, ditadura gay eu não aceito. O Jean, quando perde o argumento, parte para a questão da religião. Sou autor de uma ação popular contra o ministro da Fazenda, Guido Mantega, por autorizar a inscrição de parceiros gays no abatimento do Imposto de Renda. Perdi a ação, ela está tramitando, mas por conta do voto do STF, quando admitiu a união estável, perdeu o objeto. Embora de forma atabalhoada, equivocada, absurda, legislando, o que não poderia acontecer. Mas tudo bem, fez. É o Supremo Tribunal Federal. Mas, no meu argumento, se você pegar a peça, não há nada de religião. Não é justo pegar um parceiro gay e inscrevê-lo como dependente do Imposto de Renda quando um irmão maior de idade, que seja imputável, não possa fazer. Não é justo. Aí ele morre e você não tem direito à pensão do irmão.

Por que o senhor critica o projeto que torna crime a homofobia?
Acho dispensável e desnecessário, porque o Código Penal já cumpre o papel.

Mas e a violência contra os homossexuais?
Qual o problema? O Código Penal disciplina isso, você tem os agravantes. Eles querem ser especiais aonde? A homofobia, como eles dizem, ela não existe. Isso é uma ficção. A homofobia, para eles, é quem é contra a prática deles. Eles me chamam de homofóbico. Devo ser um dos maiores homofóbicos do Brasil hoje, para eles. Mas tenho familiar que é gay e que me respeita para caramba. E vice-versa. Na igreja, tenho fieis gays. Como sou homofóbico? Não uso de violência nem de preconceito. Querem tipificar a homofobia? Vamos tipificar. Mas o que é homofobia? É você, por medo do outro, agir de violência e preconceito. Aí é homofobia. Só digo que não concordo com a prática dele, porque, para mim, por questão de fé, é pecado como a prostituição e o adultério. É pecado e eu não aceito. Isso não quer dizer que você não possa ser gay. É problema seu. Não posso impor para você uma conduta.  E você não pode impor para mim. Eu tenho direito de dizer que não concordo e não aceito. Aí dizem: você é homofóbico. Isso não é homofobia. Não pode é incitar a violência. Mas isso o Código Penal já disciplina. É burrice, besteira. Querem transformar isso em crime inafiançável, querem me tirar o direito de opinião. Não posso, publicamente, dizer que homossexualismo é pecado, que não aceito nem quero para a sociedade o homossexualismo. Essa é a sociedade em que vivo. Eles não aceitam. Teve um gay que tuitou: ‘deputado Ronaldo Fonseca quer ser presidente da Câmara, se ele ganhar, nós vamos ter de mudar para o Uruguai’.

E vão precisar mesmo?
Isso é uma brincadeira, uma piada. Não existe isso. Não vou sair na caça às bruxas, impedir que os projetos deles tramitem de forma legal e objetiva. Não serei um presidente engavetador. Chegou aqui, vai ser discutido e votado. Chegou, vai ser pautado. Não tem negócio.

A sua visão religiosa não vai determinar a pauta da Câmara?
Não tem lógica. Isso aqui não é igreja. Meu nome parlamentar não tem pastor. Nós temos bispo, pastor e padre aqui. Também não usei isso na campanha como pastor. Não tenho essa necessidade.

Há preconceito em relação aos evangélicos e aos parlamentares evangélicos?
Não me sinto vítima de preconceitos. Eu sinto o seguinte: como somos um grupo muito forte no Brasil, aquilo que eu defendo para a sociedade não é muito simpático para grupos que controlam e dominam parcialmente essa sociedade. A mídia, por exemplo, o Judiciário. Eles querem outra coisa.

Mas eles querem o quê?
Não dão espaço necessário para que você consiga ampliar isso. Só que nós estamos fazendo o trabalho formiguinha. O brasileiro não tem preconceito contra evangélico, em termos de fé. O Brasil hoje tem uma tolerância religiosa muito grande. Acho que tem, sim, uma diminuição de espaço. Mas eu não me sinto vítima de preconceito. Acho que tenho que trabalhar mais que os outros, ser mais sábio que os outros, mostrar mais transparência que os outros.

Cometer menos deslizes?
É. Por obrigação, não posso apenas ser honesto, tenho que parecer honesto. Sou mais vigiado. Só que eu sou cidadão posso pecar também, posso errar também, como qualquer cidadão. Mas acho que tenho que ter uma transparência maior. Mas isso é bom. Sou homem público não de agora, não. Eu como pastor, quando eu comprava um carro, eu ia para o púlpito dizer que tinha comprado um carro: ‘Comprei um carro assim, assim, assim’.

E essa coisa de determinadas igrejas evangélicas serem vistas como casa de arrecadação?
Sou contrário a isso.

Mas o senhor acha que isso existe ou é uma visão equivocada?
Tem sim. Tem empresas que os caras montam com o nome de igreja. Mas se você buscar a Assembleia de Deus, que é uma igreja histórica, com mais de 100 anos no Brasil, você vai ver que essa não é nossa prática. Nós gozamos de um respeito na sociedade nesse particular.

Mas na frente parlamentar, na bancada, tem representantes dessas igrejas. Isso não cria constrangimento?
Tem. Mas o nosso perfil é conviver sem atacar. Não atacar, sem mostrar podridão de ninguém. Inclusive estou trazendo isso para a política. Na política falta muita honestidade, lealdade. Eu vim para mudar o modelo. Por isso, estou fora de traição. Até hoje a minha palavra valeu, quero que ela continue valendo. Se eu falar que vou votar em você, falo que vou votar. Se eu fizer um acordo político, esquece que eu vou cumprir. Morro, mas eu cumpro. Política tem muita traição, falta de lealdade, jogo de interesses. A gente tem que mudar esse conceito. Vou mudar com uma gota no oceano, através do meu testemunho, no relacionamento com outros parlamentares. Não acuso companheiros, mas não concordo com eles, não compactuo com eles, não fico descobrindo coisas erradas de companheiros, para ficar me mostrando.

Tem parlamentar que usa isso a religião como escudo, mas tem uma prática condenável?
Eu não quero entrar nisso. Eu renuncio à política, faço qualquer coisa, mas não faço isso. Quero que a minha palavra continue valendo, como cidadão. Agora, não estou dizendo que não possa cometer erros. Como pastor, cometi erros. Todo mundo comete seus erros. Não estou dizendo que não possa cometer no futuro. Agora, mesmo se futuramente cometer algum erro, porque sou pessoa, não me eximirei e correrei de ser tratado, de querer um tratamento justo. Como pastor, sempre mostrei para meus fieis que sou homem. Não tem uma auréola na minha cabeça. Não sou papa. Pastor tem essa tentação, de querer que ele está acima de tudo e acima da média. Eu aprendi diferente. Acho que eu sou a média. E político é a mesma coisa. Não sou o melhor, não sou o mais puro. Hoje sou um político e que, nesses dois anos, tem tido bom êxito político de ser confiável. Defendi o Agnelo na CPI claramente e politicamente, porque eram uma covardia que estavam fazendo com ele – foi provado agora – e não sou do PT. Tenho tentado me pautar assim. E, como presidente da Câmara, quero colaborar com isso. Por isso sou candidato hoje para esse debate.

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