‘País não pode ser entregue a um ladrão como Cunha’

Em entrevista ao Congresso em Foco, Clarissa Garotinho diz ter “vergonha” de deputados que silenciam sobre denúncias de corrupção contra o presidente da Câmara. “Ele mentiu na CPI da Petrobras, e isso é quebra de decoro parlamentar”

O mandato da deputada Clarissa Garotinho (PR-RJ) tem sido um verdadeiro pesadelo para o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Nas últimas semanas, Clarissa tem sido uma das poucas vozes que se levantam na Casa para lembrar, às vezes com cartazes em plenário, que seu comandante está formalmente denunciado ao Supremo Tribunal Federal (STF) na condição de um dos principais personagens da Operação Lava Jato. Para citar um episódio recente, ela se uniu a manifestantes e conseguiu pôr fim a uma coletiva de imprensa que Cunha tentava conceder na entrada de seu gabinete, interpelando-o com perguntas desconcertantes.

Nesta entrevista ao Congresso em Foco, Clarissa definiu com clareza como vê Eduardo Cunha no comando da Câmara. Instada a comentar a hipótese de o PMDB chegar ao poder com uma eventual queda da presidenta Dilma Rousseff, a deputada não mediu palavras. “Em hipótese alguma o Brasil pode ser entregue nas mãos de um ladrão como Eduardo Cunha”, fustigou a congressista, que desembarcou na Câmara com 335.061 votos para seu primeiro mandato. “Cem mil votos a mais do que Eduardo Cunha”, fez questão de frisar, afastando a tese de que sua postura se deve ao fato de ser adversária do deputado no Rio de Janeiro.

Filha dos ex-governadores do Rio de Janeiro Rosinha e Anthony Garotinho e evangélica como Cunha (e também os próprios pais), Clarissa não é vista em cultos frequentados pelo desafeto na Câmara. Ciente de que o peemedebista dispõe de uma verdadeira tropa de choque parlamentar, grupo formado por laços religiosos, a deputada diz sentir “vergonha” dos colegas que mantém “silêncio” diante das evidências de corrupção contra Cunha.

“Ele abriu essas contas com o passaporte diplomático dele. Além de contas no nome dele, ele tem contas em nome da esposa e da filha. Ele mentiu na CPI da Petrobras, e isso é quebra de decoro parlamentar. É inadmissível esse silêncio que a Câmara tem feito”, acrescentou, referindo-se à acusação de que o parlamentar mantinha contas secretas no exterior por meio das quais, segundo investigadores da Suíça e do Brasil, movimentou milhões de dólares e francos suíços. Os valores, segundo delatores da Lava Jato, são fruto de propina desviada de contratos de empreiteiras com a Petrobras.

Neste vídeo abaixo, gravado pela reportagem na quarta-feira (4), Clarissa diz que Cunha mentiu à CPI da Petrobras, em 12 de março, quando espontaneamente compareceu ao colegiado e disse jamais ter aberto conta bancária no exterior. A deputada garante tem um vídeo provando que ela mesmo provocou Cunha a dar a resposta que, segundo representação por quebra de decoro parlamentar no Conselho de Ética, é suficiente para cassar seu mandato.

 

Grávida de dois meses, a deputada concedeu entrevista ao site logo depois de descer da tribuna do Plenário da Câmara, na última quarta-feira (4), de onde fez um discurso de 25 minutos com críticas severas a Cunha – sem que o alvo da fala estivesse à Mesa Diretora. Antes do pronunciamento, recebeu acompanhamento médico, conversou com alguns colegas e se preparou para a fala que, segundo ela, foi evitada durante três meses por Eduardo Cunha, por meio de manobras regimentais que a impediam de falar no chamado “grande expediente” de plenário.

Confira os principais trechos da entrevista:

Congresso em Foco: A senhora pertence a um grupo minoritário de deputados que enfrentam Eduardo Cunha na Câmara. Por que esse grupo é a minoria? É uma tarefa inglória se opor a Cunha?

Clarissa Garotinho: É uma vergonha que a Câmara, nesse momento, se cale diante do Eduardo Cunha. Por que se calam? Primeiro, porque existem outros deputados que estão na mesma situação que ele, denunciados na Lava Jato. Outros deputados, do PT, que temem o impeachment e, mesmo envergonhados, calam-se e não enfrentam o deputado Eduardo Cunha. Há os deputados da oposição que, de maneira oportunista, também não enfrentam o Cunha porque querem que ele assine o impeachment, que é uma grande incoerência – porque, se você combate a corrupção, você não pode tolerá-la em nenhuma esfera. Acaba sendo uma grande incoerência a oposição querer combater essa corrupção instalada no governo federal se para a que está aqui, perto deles, na Câmara, eles fazem vista grossa. Não é simples [ser adversária de Cunha]. Todo mundo sabe que Eduardo Cunha tem mania de perseguir seus adversários políticos. Não é fácil fazer parte dessa minoria. Mas me orgulho de fazer parte dessa minoria, porque é fundamental que, de alguma maneira, o Congresso se manifeste. A Câmara não pode ficar calada diante dessas denúncias – que não são apenas denúncias. Qualquer um pode ser denunciado e tem o direito de defesa. Acontece que quem enviou toda a documentação afirmando que ele possui contas na Suíça que não foram declaradas foi o Ministério Público da Suíça. Ele abriu essas contas com o passaporte diplomático dele. Além de contas no nome dele, ele tem contas em nome da esposa e da filha. Ele mentiu na CPI da Petrobras, e isso é quebra de decoro parlamentar. É inadmissível esse silêncio que a Câmara tem feito.

Ele insiste em dizer que provará, no Conselho de Ética, que “não faltou com a verdade” ao negar na CPI da Petrobras que mantinha contas bancárias no exterior...

Ele não vai fazer mágica alguma. Só espero que o Conselho de Ética não vire o “Conselho da Vergonha”. E que, realmente, apure a fundo e não faça apenas uma reunião de amigos. Que não seja aquela vergonha que a gente viu se transformar a CPI da Petrobras.

Há quem diga que, regimental ou juridicamente, ele tem o trunfo de dizer que não negou ter contas em nome de terceiros, como empresas, por exemplo...

Eu mesma questionei sobre contas abertas por offshore, e ele negou. Ele não pode usar esse trunfo. Eu o questionei. Tenho esse vídeo, inclusive, questionando se ele tinha contas no exterior no nome dele ou por meio de offshore. Ele negou as duas coisas. Então, ele mentiu na CPI da Petrobras. Ele mente e senta na cadeira de presidente com um cinismo... Como se absolutamente nada estivesse acontecendo. Isso é inadmissível. Alguém que declarou, fora do Brasil, um patrimônio 37 vezes maior do que declarou à Justiça Eleitoral brasileira... Isso, por si só, é motivo de perda de mandato, quanto mais continuar presidindo a Casa.

Em declarações sobre sua situação, Cunha costuma dar recados, ironicamente, a deputados com problemas judiciais. É uma demonstração de que muitos têm pendências com ele, como se comenta nos bastidores?

Qualquer deputado pode ser denunciado por qualquer questão. Um processo por calúnia e difamação contra um deputado federal sobe para o Supremo Tribunal Federal. Qualquer coisa que envolva um deputado federal sobre para o STF; isso é obrigatório. Não quer dizer que todos os deputados que estejam lá cometeram crimes contra a ordem público, contra a administração, contra o país, como ele cometeu. Todos têm o direito de defesa, mas no caso dele está comprovado [o crime]. É uma questão de tempo, está comprovado! A gente pode aceitar [o ex-deputado pernambucano] Severino Cavalcanti ter renunciado à Presidência da Câmara porque foi acusado de receber um mensalão de dez mil reais; e, agora, o Eduardo Cunha, com mais de quatro contas milionárias no exterior, bancando despesas pessoais, com contas abertas com seu passaporte diplomático, continue na Presidência da Câmara?

O deputado Silvio Costa, um dos principais adversários de Cunha na Câmara, pediu à PGR o afastamento dele da Presidência da Câmara? A senhora não vai pedir também?

Eu acho que a PGR deverá fazê-lo. Estou aguardando o posicionamento da PGR e espero que ela o faça – porque, se depender da Câmara, sinceramente, tenho poucas esperanças.

A senhora teme que o Conselho de Ética livre Cunha?

Todas as manobras que ele pode fazer no Conselho de Ética ele vai fazer. Sempre há o risco de terminar em pizza, como terminou a CPI da Petrobras.

Há quem diga que a senhora enfrenta Eduardo Cunha porque seu pai, o ex-governador fluminense Anthony Garotinho, é adversário regional dele. Isso procede?

Tem tantos outros deputados que são do Rio de Janeiro... Por que eu não estou batendo de frente com esses outros deputados? Fui eleita com uma votação muito superior à do deputado Eduardo Cunha. Tenho 100 mil votos a mais do que ele, não estou disputando absolutamente nada com ele. Ele é deputado há vários mandatos; eu vim para a minha primeira eleição e já cheguei com 100 mil votos a mais do que ele. Então, não tenho nada de pessoal contra ele. Nas minhas falas, inclusive, eu nunca abordei nenhuma questão pessoal. Eu abordo aquilo que outros deputados aqui não têm coragem de abordar. O que eu abordo é o que está dito pelo procurador-geral da República. Os fatos que eu tenho abordado são aqueles que estão narrados pela imprensa diariamente. Não existe nada de pessoal.

O PMDB, hipoteticamente, poderia ser alçado ao poder com uma eventual queda da presidenta Dilma. Que situação a senhora prefere? Dilma ou o grupo de Cunha no comando do país?

Não tenho que preferir absolutamente nada. A presidente Dilma foi legitimamente eleita. O governo tem sérios problemas. Se nós tivermos que avaliar isso lá na frente, no momento adequado, eu farei a minha avaliação. Agora, em hipótese alguma o Brasil pode ser entregue nas mãos de um ladrão como Eduardo Cunha.

Além de Cunha, outros caciques do PMDB enfrentam problemas na Justiça – como o próprio presidente do Senado, Renan Calheiros. Com tantos políticos de expressão no comando do país, a senhora vê alguma saída?

Acho que a Operação Lava Jato serviu primeiro para acabar com a crença da impunidade. Até aqui muita gente agia de maneira incorreta, confundia o público com o privado e achava que nenhuma punição aconteceria. Só que, desde o mensalão, quando [o publicitário] Marcos Valério acabou ficando preso e todos os políticos ficaram soltos, os empresários envolvidos resolveram aderir à delação premiada, porque não queriam se tornar um novo Marcos Valério. A partir de agora, muita coisa da política nacional está sendo revelada, coisas que viviam nos bastidores, o oculto da política brasileira. É preciso mudar, sim, o jeito de fazer política, repensar o financiamento da política. Não ser, de maneira alguma, conivente com aqueles que misturam o público com o privado, usam o dinheiro público para fazer patrimônio. Isso é inadmissível, inaceitável. A partir dessas investigações nós podemos ter, pela primeira vez, esperança de que alguma coisa vai mudar.

Há, no Congresso, um movimento persistente de políticos que querem o impeachment de Dilma – um painel chegou a ser posto na Câmara para colher assinaturas com esse propósito. A senhora vai se juntar a eles?

Isso deve ser avaliado no momento oportuno em que vier ao Congresso. Não é alguém fazendo ali um painel simbólico que vai, efetivamente, dizer o que deve ou não acontecer com o futuro do país, efetivamente. Se chegar o momento em que a Câmara tenha que avaliar isso, eu farei minha avaliação no momento oportuno. Não com essa antecedência. Até porque aqueles que montaram esse painel, porque não montaram outro pedindo a renúncia de Eduardo Cunha? Essa é a incoerência que eu cobro.

Esses deputados a que a senhora faz referência compõem partidos como o PSDB, partido ao qual a senhora cogitou se filiar...

Realmente, nós tivemos conversas com o PSDB muito em função do PSDB local. O PSDB é um partido grande, forte nacionalmente, mas esfacelado no Rio de Janeiro. Há muitos anos não vence nenhuma eleição presidencial, só tem um deputado federal, não tem prefeitos. É um partido que, hoje, perdeu toda a sua significância no Estado do Rio de Janeiro. Mas essa conversa não foi adiante porque o único deputado federal do partido, Otávio Leite [presidente da estadual legenda], não permitiu. Mas isso não faz com que eu não veja as incoerências. Eu vejo incoerências no meu próprio partido; vejo incoerências no sistema político; vejo incoerências, também, nessa postura do PSDB, de buscar denunciar a corrupção existente no governo federal, mas de tapar os olhos para os crimes cometidos pelo Eduardo Cunha, que está aqui na nossa frente.

Está de saída do PR? Quer ser prefeita do Rio?

Um dia.

O PR aceita indicar a senhora para a disputa? Não lhe parece que esteja em curso o contrário?

De maneira alguma. Eu teria a legenda do PR, sem nenhum problema, para concorrer à Prefeitura do Rio. Eu é que, provavelmente, não concorrerei, porque estou grávida – vou estar com um bebê bem novinho [nas eleições municipais do próximo ano], com três meses na época da campanha.

Então, por ora, não pensa em sair do PR agora?

Não. Agora, não.

Voltando à questão de Eduardo Cunha, a senhora teme que o processo no Conselho de Ética se arraste até o fim do mandato dele? O caso do ex-deputado petista André Vargas consumiu cerca de oito meses, e ele nem era presidente da Câmara. Como pretende reagir a um possível retardamento proposital dos procedimentos?

Olha, eu tenho reagido isoladamente, da maneira que posso. Com meus discursos, minhas falas, nas minhas atitudes. Agora, eu não sou membro do Conselho de Ética. O podemos fazer é pressionar o Conselho de Ética a fazer um trabalho sério, é denunciar qualquer iniciativa que a gente possa perceber de livrá-lo, por qualquer outro tipo de pressão que possa existir aqui dentro. O que podemos fazer é buscar nos unir a outros parlamentares – e são poucos – que também têm denunciado essas práticas. É esperar que a Procuradoria-Geral da República realmente possa torná-lo réu nessas ações; que o STF – quem sabe? – peça o afastamento dele. Não tem muito o que fazer como deputada, isoladamente. Tudo o que eu posso fazer eu faço.

Em um dos protestos contra Cunha, a senhora expôs um cartaz com dizeres nada amistosos logo atrás dele, no lugar ocupado pelo presidente da sessão na Mesa. Ele ordenou que os policiais legislativos a retirassem do local?

Foi. Ele chamou a segurança e pediu: “Retire-a daqui”. Não tem problema. O recado já estava dado.

Muitos vibram com esse tipo de manifestação...

O que eu acho é que as pessoas vibram porque esperam que o Congresso reaja. Não esperam esse silêncio que a Casa tem manifestado. Por isso, tenho recebido manifestações de apoio de gente de todo o Brasil, não apenas do meu estado. Nas redes sociais, nos e-mails, eu tenho recebido mensagens de gente da Bahia, de São Paulo, de Minas Gerais, do Sul, de todos os lugares dizendo: “Olha, é importante o que você está fazendo. Não podemos deixar que isso passe em branco, alguém tem que enfrentar o presidente da Câmara, ele se acha um todo-poderoso”... O que eu posso dizer a essas pessoas é que ele não é o todo-poderoso; aqui, ele é mais um deputado, e ele terá que responder pelos crimes. E que eu não darei sossego. Minha voz ele não vai calar.

Aliados de Cunha, como Paulinho da Força (SD-SP), agora retaliam também com representações no Conselho de Ética. O deputado Chico Alencar (Psol-RJ) é um dos alvos...

São os aliados do Eduardo Cunha querendo empurrar pessoas sérias, de bem, para o Conselho de Ética apenas para jogá-los na vala comum. Para dizer: “Olha, o presidente não é o único que está no Conselho de Ética”. Isso é um absurdo! É lamentável essa postura.

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