Sob questionamento, institutos defendem pesquisas

Estrelas da eleição, as pesquisas eleitorais estiveram longe de retratar a realidade em alguns estados, como na Bahia. Especialistas defendem que o objetivo dos levantamentos não é projetar resultados futuros

Entra pleito e sai pleito, lá estão elas a cada dois anos, a tentar desenhar o cenário político. O fato é que as pesquisas eleitorais realizadas e fartamente divulgadas, principalmente aquelas dos institutos Ibope e Datafolha, cada vez mais têm pautado a eleição.

E a dose parece ter transbordado o limite no pleito deste ano. Na reta final do primeiro turno, pesquisas chegaram a ser atualizadas a cada dois dias, com a devida exploração pelos jornais em suas manchetes do dia seguinte. O mesmo aconteceu com as revistas semanais. Além do noticiário em tempo real, por meio dos principais sites, portais e redes sociais etc. Diante de tantos números, percentuais e estatísticas, e em tão curto espaço de tempo, surgem algumas inquietações. O eleitor precisa disso? Até que ponto o voto é decidido com base nas pesquisas? A quem serve tamanha numerária?

“Para minimizar erros, desde 2002 trabalhamos com a média das pesquisas dos principais institutos. Acredito que a liberdade de informação deve ser preservada a qualquer preço. As pesquisas devem ser realizadas e amplamente divulgadas”, disse ao Congresso em Foco o cientista político Murillo de Aragão, fundador da Arko Advice Pesquisas e Análise Política e acostumado com o universo dos percentuais.

Doutor em Sociologia e ex-professor da Universidade de Brasília, Murillo acredita que, no caso das pesquisas, o excesso é melhor do que a escassez. “Pior seria se tivéssemos apenas um instituto fazendo pesquisas”, disse o especialista, autor do livro Reforma Política – O Debate Inadiável (Civilização Brasileira, 2014).

Recorrência de erros sobre a sucessão

Uma certeza é recorrente quando se trata de pesquisa eleitoral: haverá erros de previsão – alguns até grosseiros. E muita polêmica quanto à eficácia dos números, à lisura dos trabalhos e às chamadas “margem de erro” e “taxa de confiança”. Enseja-se também a questão: a metodologia atual é mais adequada?

Neste ano, a quantidade – e o tipo – de erros foi significativa. E não só tiveram Datafolha e Ibope como protagonistas. Em um universo de 140 milhões de eleitores, com uma pluralidade continental em termos de ideologia, classe social, orientação religiosa e outros fatores, é mesmo uma tarefa complexa tentar saber como votará cada um deles. Afinal, com uma média de dois ou três mil entrevistados, as pesquisas retratam, como os institutos gostam de ressalvar, apenas uma tendência altamente fracionada e momentânea. Essas amostragens abrangem menos de 0,01% da população, uma ínfima representação de nosso povo.

Os principais erros ocorreram nos levantamentos sobre intenção de voto para a Presidência da República e, na corrida aos governos estaduais, na Bahia, no Rio de Janeiro, no Rio Grande do Sul e em São Paulo. Cabe ressaltar que os acertos dos institutos foram menores do que os erros – estes, no entanto, um tanto comprometedores quanto à credibilidade dos prognósticos.

No sábado (4 de outubro), véspera da eleição, o Datafolha contabilizou 44% dos votos válidos para a candidata do PT, Dilma Rousseff, conferindo 24% para Aécio Neves (PSDB) e 22% para Marina Silva (PSB). Depois de abertas as urnas, a realidade foi outra: Dilma com 41,59%, Aécio com 33,55% e Marina com 21,32%. Considerada a margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos, apenas Marina está dentro das previsões. Aécio, no entanto, ficou 7,5% pontos além da margem de erro para cima – o que equivale a 8,6 milhões de um total de 115,1 milhões de eleitores que registraram votos válidos.

Também o Ibope apresentou problemas na última pesquisa antes do primeiro turno: Dilma aparecia com 46% dos votos válidos, Aécio com 27%, Marina com 24% – a única previsão que quase se confirmou, por apenas 0,68 pontos percentuais fora do limite superior da margem de erro. Também com dois pontos de margem de erro, a pesquisa mostrou Dilma com 2,1% pontos abaixo da margem inferior, enquanto Aécio ficou 4,5% pontos acima da margem superior – um erro de 5,2 milhões de eleitores.

Tanto o Datafolha quanto o Ibope dizem considerar um “nível de confiança” de 95%. Traduzindo: se a pesquisa for reaplicada por 100 vezes consecutivas, em 95 ocasiões os resultados ficariam dentro da margem de erro (dois pontos percentuais, para cima ou para baixo). No caso do Ibope, portanto, os números referentes a Dilma e Aécio estão acolhidos nas cinco exceções entre 100 ocorrências.

Tudo dentro da normalidade, defende a CEO do Ibope Inteligência, Márcia Cavallari. “Toda pesquisa realizada através de amostragem faz estimativas dos resultados e o  nível de confiança é a probabilidade de que o parâmetro esteja dentro do intervalo de confiança. Sempre há uma probabilidade de que o intervalo de confiança não contenha o verdadeiro parâmetro da população”, disse, em entrevista ao Congresso em Foco. “O objetivo da pesquisa não é projetar resultados futuros. Portanto, não há que se falar em disparidades.”

Procurado por e-mail e telefone para falar sobre o assunto, o instituto Datafolha não se pronunciou até o fechamento desta reportagem.

Dúvidas sobre próximos gestores

Tanto as pesquisas feitas antes da votação quanto a chamada “boca de urna” – desde 2006 o Datafolha não faz essa modalidade de consulta, por considerá-la “informação de vida curta” – revelaram a fragilidade da metodologia empregada pelos institutos. Em nove estados ficou clara a disparidade entre previsões e números consolidados – houve imprecisões de mais de dez pontos percentuais em alguns casos, tanto na pesquisa prévia quanto na conferência de votação junto às seções eleitorais.

Foi na corrida ao Governo da Bahia que houve um dos mais surpreendentes resultados do primeiro turno com números que desconcertaram os institutos de pesquisas. No início da campanha, o petista Rui Costa estava em larga desvantagem em relação ao líder das sondagens, Paulo Souto (DEM). Com a ajuda do atual governador, Jaques Wagner, Rui foi eleito em primeiro turno.

A boca de urna do Ibope, por exemplo, mostrou Rui com 49% dos votos válidos, contra 39% de Paulo Souto – logo, com decisão em segundo turno. Mas a peleja acabou no primeiro turno, mesmo: o petista alcançou mais de 50% dos votos e, com 54,5% das preferências, derrotou o adversário (37,3%) sem necessidade de novo confronto.

Outro caso que saltou aos olhos foi a pesquisa Datafolha, para o posto de governador do Rio Grande do Sul, divulgada em 4 de outubro. O candidato petista Tarso Genro tinha 36% das intenções de voto, com José Ivo Sartori (PMDB) e Ana Amélia (PP) na sequência, ambos com 29%. Mas Sartori venceu a disputa com 40,4% dos votos, 11,4% além da sondagem da véspera. Tarso alcançou 32,5% votos e está no segundo turno (3,4% a menos do que a previsão), mas Ana Amélia foi alijada do pleito, com 21,7% das preferências (7,2% abaixo do que o Datafolha indicou).

O Ibope também errou no Rio de Janeiro. O candidato do PMDB, Pezão, obteve 34% das consultas de boca de urna. Garotinho, na segunda posição, recebeu 28%, enquanto Marcelo Crivella (PRB) ficou em terceiro lugar, com 18% das respostas. O resultado da votação foi outro, levando a disputa para o segundo turno: Pezão vai com 40,6% para a segunda etapa, com o candidato que era apontado como terceiro lugar na escolha do eleitorado: Crivella, com 20,2% dos votos. Garotinho, com 19,7%, ficou de fora.

O Ibope também deslizou na boca de urna em São Paulo. O instituto divulgou pesquisa com possibilidade de vitória em primeiro turno no limite da margem, conferindo 52% dos votos para Geraldo Alckmin (PSDB). Mas o tucano acabou reeleito com 57,3% – 5,3% a mais do que foi sinalizado à beira da urna, encerrando a disputa. Paulo Skaf (PMDB), com 22%, e Alexandre Padilha (PT), com 20%, oscilaram dentro da margem de erro (21,5% e 18,2%, respectivamente).

Erros que, para o Ibope, fazem parte do processo. “Toda eleição é um novo aprendizado e aprimoramentos metodológicos são feitos”, declarou Márcia Cavallari, instada a comentar a eficácia da metodologia das pesquisas. “A pesquisa não é um oráculo, não dita a última palavra, não substitui a eleição.”

Modelo em cheque

Se pesquisas de boca de urna obviamente não interferem no resultado, o mesmo não pode ser dito em relação a levantamentos que, anteriores à votação, são divulgados em nível nacional e com frequência crescente na medida em que o pleito se aproxima. É consenso entre especialistas que, quando são divulgados, tais dados despertam mais do que interesse: alteram estratégias de campanhas, interferem no humor do eleitorado e da militância, são levados em conta quanto ao repasse de doações e considerados na composição de palanques e coligações.

Essas pesquisas, em geral, costumam variar entre duas e três mil consultas. Mas, a despeito desse universo restrito, pretendem retratar o mais fielmente possível a pluralidade do povo brasileiro. Para tanto, são respeitados critérios como idade, sexo, classe socioeconômica e região residencial. A partir daí, pesquisadores passam a procurar nos municípios eleitores que se enquadrem nas condicionantes pré-fixadas.

Mas há quem defenda as consultas aleatórias, sem pré-definição de critérios. Há países que se valem do método probabilístico, que consiste em colher a intenção de voto, por exemplo, por meio de mensagens de celular para um universo de adultos que tenham o aparelho – atingindo-se, assim, quase a totalidade desse tipo de eleitor em centros urbanos. Há estatísticos que veem mais eficácia nesse modelo, desde que os institutos prezem pela clareza e pela neutralidade das perguntas, bem como pela facilidade oferecida aos eleitores quanto ao sistema de envio das respostas.

Outra controvérsia diz respeito às amostras. Atualmente, as amostragens (estratificação de grupos populacionais em perfis determinados) são reorganizadas a cada levantamento. A ideia é que, a cada rearranjo, uma radiografia mais abrangente do povo seja alcançada. Por outro lado, há especialistas que preferem o reaproveitamento de dados de pesquisas anteriores – as chamadas séries temporais –, empregando-se mecanismos estatísticos que descartam informações sem relevância sequencial.

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