Ex-candidata do PSL diz que ministro do Turismo a chamou para ser laranja e desviar dinheiro de campanha

A ex-candidata a deputada estadual Zuleide Oliveira implicou diretamente o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, no esquema de desvio de dinheiro público por meio de candidaturas laranjas do PSL, partido do presidente Jair Bolsonaro. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Zuleide diz que se encontrou com Álvaro Antônio em seu escritório parlamentar, em Belo Horizonte, em 11 de setembro, na companhia do marido e de um amigo. E que, na ocasião, ele a chamou para ser candidata laranja com o compromisso de que ela devolvesse ao partido parte do dinheiro público do fundo eleitoral.

"Eu não entendia de nada, eles que fizeram tudo [para registrar a candidatura], eu não tirei uma certidão minha, eles tiraram por lá, eu só enviei meu documento e eles fizeram tudo. Acredito, sim, que fui mais uma candidata-laranja, porque assinei toda a documentação que era necessária e não tive conhecimento de nada que eu estava fazendo (...) Fui usada, a minha candidatura foi usada para fazer parte de uma lavagem de dinheiro do partido", afirmou ela.

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Zuleide fez denúncia sobre a oferta à Justiça eleitoral em 19 de setembro, mas recebeu de volta apenas uma resposta protocolar. A reprodução da denúncia foi publicada pela reportagem. Ela conta que foi instada pelo hoje ministro, então candidato à reeleição na Câmara e presidente do diretório estadual do PSL a assinar requerimento de solicitação da verba, endereçado ao então presidente nacional do partido, Gustavo Bebianno.

"Ele [ministro] disse pra mim assim: 'Então a gente vai fazer o seguinte: você assina a documentação, que essa documentação é pra vir o fundo partidário pra você. (...) Para o repasse ser feito, você tem que assinar essa documentação. E eu repasso a você R$ 60 mil, e você tem que repassar pra gente R$ 45 mil. Você vai ficar com R$ 15 mil para sua campanha. E o material é tudo por nossa conta, é R$ 80 mil em materiais'", afirma Zuleide. A ex-candidata diz que não sabe se algum dinheiro foi depositado porque o controle das contas bancárias ficou com os dirigentes do partido.

A Folha teve acesso a e-mails e mensagens de áudio trocadas por ela com cinco dirigentes do PSL mineiro, incluindo um recado escrito por Rodrigo Brito, então assessor parlamentar de Marcelo Álvaro Antônio. "Marcelo [Álvaro Antônio] ofereceu um monte de coisa", diz Zuleide, afirmando que o hoje ministro prometeu que ela ganharia uma vaga na Funai ou na secretaria de Saúde da região.

A Justiça eleitoral, porém, negou o registro de candidatura de Zuleide por causa de uma condenação transitada em julgada, em 2016, por uma briga com outra mulher. "Eles já sabiam que não ia dar em nada [a candidatura, por ser ficha suja]. Hoje eu sei que eles sabiam que não iam aparecer meus votos, que eu não ia conseguir concorrer às eleições porque eu estava com os direitos políticos suspensos. Eles sabiam de tudo isso. Ele quis falar para mim que não ia dar em nada [a condenação não seria problema] pra mim poder preencher a chapa”, contou.

Segundo a reportagem, Zuleide disse que foi convidada por uma assessora de Álvaro Antônio para disputar a eleição e que teve o primeiro com o então deputado na convenção que confirmou sua candidatura em 28 de julho. Ele era o responsável pela montagem da chapa e pela distribuição das verbas da legenda aos candidatos. Foi reeleito com a maior votação da bancada federal mineira.

De acordo com o jornal, ela diz que recebeu 25 mil santinhos, em que divide espaço com Marcelo Álvaro Antônio, em 25 de setembro. Nem o PSL de Minas nem o PSL nacional declararam à Justiça gastos com a candidata.

Ministro rebate acusações

Série de reportagens da Folha mostrou que um grupo de quatro candidatas do partido recebeu R$ 279 mil, tendo tido votação ínfima. Parte desse dinheiro voltou para empresas de pessoas ligadas ao gabinete do hoje ministro. Uma quinta candidata afirmou ter sido pressionada por dois assessores de Álvaro Antônio a devolver parte dos R$ 60 mil que recebeu da verba do PSL e que o ministro sabia de tudo.

O ministro diz não se lembrar dos encontros com Zuleide. Ele nega ter oferecido dinheiro do fundo partidário à ex-candidata. "Em setembro, Marcelo Álvaro Antônio recebeu diversos pré-candidatos e eleitores na sede do PSL. Ele não se lembra ter se reunido especificamente com a sra, Zuleide. O ministro jamais ofereceu ou pediu a devolução de qualquer valor, seja do fundo eleitoral ou de qualquer outra fonte, à sra. Zuleide", respondeu.

Marcelo Álvaro Antônio também acusou o jornal de fazer “campanha político-partidária” contra ele. "A campanha político-partidária da Folha de S.Paulo contra o ministro Marcelo Álvaro Antônio, citado em mais de 100 matérias desde 04 de fevereiro, ultrapassou todos os limites do razoável. Ao julgar, condenar e atacar a honra do ministro, o jornal e os jornalistas agiram de forma leviana e, por isso, estão sendo processados."

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