Crise elétrica ameaça eleição de irmão de Davi Alcolumbre em Macapá

A crise de energia no Amapá, após apagão em todo o estado iniciado no último dia 3, gerou na capital um clima de confronto que tem ameaçado a eleição do irmão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), à prefeitura de Macapá.

Apesar de bem colocado nas pesquisas de intenção de voto, o novato Josiel Alcolumbre (DEM) pode perder a dianteira abatido pela crescente aversão da população a políticos tradicionais. Pesquisa Ibope divulgada nesta quarta-feira (11) pela Rede Amazônica mostra que ele continua na liderança, mas perdeu nove pontos percentuais, caindo de 35% para 26%, considerando os votos válidos. Além disso, houve um significativo aumento da rejeição a seu nome entre o eleitorado, que agora atinge a marca de 36%.

Protestos, repressão e ameaças: Amapá em caos após uma semana sem luz. Assista

Uma semana após um blecaute deixar todo o estado sem luz, protestos irromperam em várias partes da capital, inclusive nos bairros nobres. Em municípios vizinhos, há também relatos de ameaças e assédio por parte de policiais militares, bem como ocorrências de assaltos. Isso porque o fornecimento ainda não foi restabelecido completamente em todo o estado.

Na condição de chefe do Legislativo federal, Davi se reuniu com o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, e tenta mostrar que deu sua cota de contribuição para a liberação de recursos federais para o enfrentamento do apagão. Além disso, Davi defendeu a cassação da concessão da empresa Isolux, concessionária responsável pela subestação de energia elétrica no Amapá.

Em live nesta quinta-feira (11), o presidente Jair Bolsonaro citou a participação do presidente do Congresso no restabelecimento da energia. Segundo ele, Davi “se movimentou bastante e também colaborou bastante no que foi possível”.

Na avaliação de opositores, porém, os esforços de Davi têm sido pouco producentes. Em meio a uma crise sem precedentes, a família Alcolumbre sai chamuscada.

“O discurso central da campanha do Josiel foi atingido em cheio. Num momento como esse, quem está no poder é cobrado. Então, o governador é cobrado, o prefeito é cobrado e o presidente do Senado é cobrado”, disse o deputado federal Camilo Capiberibe (PSB-AP), filho do principal adversário de Josiel na disputa, o ex-governador e ex-senador João Capiberibe (PSB).

Suplente de Davi no Senado, o empresário Josiel apresenta seu irmão como principal cabo eleitoral. O empresário atua nos negócios da família no estado, em postos de combustíveis, fazendas e comércios. Com atuação nos bastidores da política, o irmão mais velho de Davi é também proprietário da TV Macapá, afiliada da Rede Bandeirantes. Josiel tem apoio de uma ampla frente partidária, da qual participam o atual prefeito de Macapá, Clécio Luis (sem partido), e o governador do estado, Waldez Góes (PDT).

Adiamento do pleito

Líder da oposição no Senado, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), defendeu o adiamento do pleito sob alegação de que não há condições de prosseguir com a campanha sem o restabelecimento pleno da energia. Ele é aliado de Capi e está rompido com o presidente do Senado.

Em trajetória de alta, Josiel classificou como “oportunismo” a ideia levantada por alguns candidatos de adiar a eleição. “Há (sic) 10 dias do pleito, e vendo os números desfavoráveis, me parece oportunismo, a ideia só levantada agora por alguns candidatos”, escreveu ele no Twitter no dia em que a crise de energia foi iniciada.

Oposicionistas garantem que o pedido de adiamento não é de agora. “A nossa preocupação sobre adiamento de eleição é anterior ao apagão. É relativa à questão da segunda onda da covid”, disse o deputado federal Camilo Capiberibe. Segundo ele, o apagão já tem gerado muitas aglomerações e a realização do pleito pode agravar a situação. “A nossa preocupação, que já era grande antes, tornou-se maior agora.”

No fim de outubro, a taxa de ocupação dos leitos de UTI da rede pública de saúde do estado, que vinha se mantendo abaixo dos 50% nos meses anteriores, subiu para 86%.

O próprio Capi cobrou as autoridades para que resolvessem o problema da falta de energia com mais agilidade. “O Amapá tem o presidente do Senado, ainda assim estamos sem energia, sem água e sem comunicação. Se fosse em outro estado do Brasil muito provavelmente essa questão já teria sido resolvida. Pra que serve tanto poder?”, questionou.

O deputado estadual Dr. Furlan (Cidadania), que aparece entre a terceira e a quarta colocações nas pesquisas, também mostrou preocupação com as condições sanitárias. “Como médico e candidato a prefeito de Macapá tenho que pedir o adiamento das eleições. Não temos condições sanitárias de atender esta segunda onda”, disse ele em vídeo divulgado no início da semana passada.

TRE no Amapá diz que apagão não vai afetar eleições municipais

Apesar dos apelos, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) garantem que há condições para realização do pleito. Na última segunda, o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso, afirmou, em vídeo, que todos os eleitores amapaenses devem comparecer às urnas no próximo domingo (15).

“Tudo que era possível fazer para todo o país para assegurar eleições sem risco de contaminação, especialmente agora em relação ao Amapá, está sendo feito. Portanto, gostaria de convocar todos os eleitores do Amapá a comparecerem às urnas”, disse Barroso.

Nova política x velha política

Com as campanhas de rua interrompidas desde a semana passada e um clima de revolta aumentando, a preocupação de grupos tradicionais da política amapaense é que um outsider acabe conduzido para a prefeitura de Macapá.

A inquietação foi expressada por Capi nas redes sociais. “Em meio a pandemia e o apagão, a poucos dias das eleições municipais, viraliza a descrença na política. O povo desesperançado não ver (sic) saída, desconfia de tudo e de todos, ocupa as ruas para descarregar sua revolta, a polícia reprime, aumenta a tensão”, escreveu ele.

Uma das candidatas que tenta colar sua imagem à da dita “nova política” é Patrícia Ferraz (Podemos), que disputou uma cadeira na Câmara dos Deputados em 2014 e 2018, conseguindo apenas a suplência em ambas as tentativas. Recentemente, ela vem colando sua imagem à do presidente Bolsonaro. Filiada ao Podemos, ela reproduz o discurso lavajatista.

“O apagão tem nome e sobrenome. Você sabe quais são. Não vote neles. Vote na mudança!”, escreveu em uma postagem nas redes sociais no fim de semana. No vídeo que acompanhava o texto, havia fotos de Waldez, Clécio, Davi, Josiel e Capi.

O Congresso em Foco tentou contato com a campanha de Josiel Alcolumbre, mas até o momento não teve respostas. O espaço permanece aberto para eventuais manifestações.

Pesquisas

Josiel lidera a última pesquisa de intenção de voto do Ibope, divulgada nesta quarta (11), mas teve um recuo de nove pontos percentuais, indo de 35% para 26%, considerando os votos válidos. Em relação à pesquisa anterior, de 28 de outubro, houve mudanças na ordem dos demais candidatos: Capi, que estava na segunda colocação, com 17% das menções, passou para o quarto lugar, com 13%. Patrícia Ferraz (Podemos), que tinha 13%, agora tem 18% e Dr. Furlan (Cidadania), que também tinha 13%, aparece com 17%.

Como a margem de erro da pesquisa é de quatro pontos percentuais, Capi, Patrícia Ferraz e Dr. Furlan estão em empate técnico. Por sua vez, a candidata do Podemos também encosta em Josiel no limite da margem da erro.

Os demais candidatos têm menos de 10% das intenções de voto. Os postulantes mais rejeitados pelo eleitorado são Capi (53%), Josiel (36%) e Patrícia Ferraz (26%). A rejeição de Josiel foi a que mais subiu em relação ao levantamento anterior, quase dez pontos percentuais  – na pesquisa passada, 27% dos eleitores declararam que não votariam nele de jeito nenhum.

Levantamento da RealTime Big Data/CNN, divulgado na última sexta (6), mostrou números mais promissores para Josiel, que despontou com 37% das intenções de voto, seguido por Capi, com 19%, Patrícia Ferraz, com 10% e Dr. Furlan, com 9%.

Até a véspera do pleito, devem ser divulgados novos levantamentos do Ibope e do RealTime Big Data, que devem captar melhor os efeitos do apagão na intenção de voto da população.

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