Mercado de concursos vira opção para professores

No desvalorizado mercado do ensino, a preparação para a cada vez maior demanda por cargos públicos passa a ser uma opção. Seja como renda alternativa para servidores, seja como solução de trabalho para docentes em áreas como o português, por exemplo

Marcela Thaís Panke,
Especial para o SOS Concurseiro/Congresso em Foco

A preparação para um concurso público exige dedicação, disciplina e muito estudo. O professor, nessa jornada, é um aliado fundamental. Em todo o país, centenas de cursos preparatórios preocupam-se em buscar profissionais qualificados e experientes que possam garantir a aprovação de seus alunos. O perfil dos professores, em geral, é de servidores públicos com mestrado e doutorado, e com experiência na arte de ensinar. A remuneração varia bastante, conforme o domínio da disciplina, a localização do curso e do posicionamento do profissional no mercado. Segundo pesquisa feita pelo SOS Concurseiro/Congresso em Foco, os valores podem chegar a R$ 1 mil a hora/aula.

O Cetec, curso preparatório sediado em Porto Alegre é exemplo. Os professores da escola especializada em concursos apresentam as características comuns aos profissionais dos preparatórios. O coordenador do curso, o oficial de Justiça e professor Paulo Marques trabalha na preparação de candidatos desde a década de 1980 e explica que a escolha dos docentes privilegia a cultura, a sabedoria, a didática e o reconhecimento nas respectivas áreas de atuação. “O nível de escolaridade é invariavelmente de formação superior. São pessoas de larga experiência em suas áreas de atuação. Os professores de língua portuguesa e informática atuam exclusivamente na preparação para concursos. Já os professores de legislação são advogados, juízes, promotores de justiça, servidores públicos, procuradores da União, Estado e Município”, detalha.

Paulo Marques ressalta a importância da opinião do aluno na escolha do corpo docente. “Geralmente, eles [os concurseiros] indicam, pois já foram alunos dos professores em outros cursos, sejam presenciais ou em ensino a distância. Entre os critérios para a nossa escolha está o comprometimento com o aluno, ou seja, o professor não pode sair do foco e desprezar o que efetivamente interessa para a aprovação e classificação dos maiores interessados”.

A procuradora federal Adriana Mallmann exemplifica o perfil dos professores de cursos preparatórios para concursos no país. Ela atua neste mercado há sete anos, e, hoje, dá aulas de direito administrativo e constitucional no Universitário Concursos, em Porto Alegre. O fato de ter um professor que também é servidor público, para Adriana, tende a ajudar o aluno. “Acredito que concurseiro se identifica mais com o professor que já passou pelo caminho que ele está trilhando. Só quem já estudou para concurso sabe as dificuldades e o esforço que é necessário empregar para alcançar o objetivo final. Durante as minhas aulas procuro mostrar que ser aprovado é questão de disciplina e perseverança. Fiz muitos concursos em que não passei, mas nem por isso desisti. O importante é ter foco, saber o que se quer e correr atrás do objetivo almejado. O conhecimento é sedimentado com o tempo.”

Para a professora, além de transmitir o conteúdo, o professor tem também a função de lembrar ao aluno que mesmo diante das dificuldades, a aprovação é possível e que as adversidades fazem parte do processo. “O estudo para concurso público é diferente do estudo da graduação ou do mestrado. Como o concurso exige muita memória, é preciso muita repetição para que o aluno consiga gravar as informações. Justamente por essas peculiaridades, penso que os cursos preparatórios específicos dão preferência para professores com experiência na área”.

Marcelo Tannuri é professor do curso Ponto dos Concursos e é auditor fiscal de tributos municipais em São Paulo. Além de também marcar presença em salas de aula e elaboração de conteúdos, ele é concurseiro e admite ter paixão pelo tema concursos públicos. “Eu vibro com o assunto ‘concurso público’. Quando oriento a preparação de um aluno, coloco-me em seu lugar. Sei o que ele está sentindo e, com uma rápida conversa, consigo interpretar as falhas de sua preparação. Conheço todas as sensações do concurseiro: medo, ansiedade, derrota e vitória. Sei como ele deve contornar armadilhas. Conheço as estratégias de estudo: passei por isso também”.

O grupo Universitário, no qual a professora Adriana Mallmann trabalha hoje, tem tradição em cursos técnicos e pré-vestibular em Porto Alegre. Há pouco mais de dois meses, inaugurou a modalidade para atender aos concurseiros. A gestora desta unidade, Ingrid Vieira, explica que o curso teve a preocupação de buscar bons professores antes de iniciar as atividades em um mercado crescente, porém concorrido. Segundo ela, os professores são “altamente qualificados, em sua maioria com mestrado ou doutorado”. Ingrid reforça que a escolha dos profissionais também leva em consideração a competência e a experiência de mercado. “A maioria dos professores têm outra ocupação, como promotor de justiça, procurador federal, juiz federal, procurador estadual, além de darem aulas em outros lugares, como escolas, faculdades e em outros cursos preparatórios”, diz.

Há cinco anos no mercado de preparação para concursos, o fundador e coordenador do site Eu Vou Passar, João Antonio, diz que embora não exija pós-graduação, a maioria dos seus professores tem a qualificação, além de experiência. De acordo com o coordenador, boa parte deles ensinava ou ainda ensina em outros cursos. No caso do Eu Vou Passar, que oferece vídeoaulas, João Antonio tem outras exigências na contratação de um professor. “Ele precisa dominar o assunto, ser didático e se adaptar ao estilo das aulas em vídeo, já que alguns professores bons em sala de aula não se adaptam ao vídeo. Além disso, é preciso muita coragem para responder aos inúmeros e-mails a ele direcionados. Levamos em consideração, em princípio, a opinião dos alunos para contratar novos professores, e a necessidade do conteúdo que o professor ministra”, explica.

Experiência

Experiência não falta para o professor de português Albert Iglésia, que hoje leciona somente na área de concursos. Sua história começou em 2001, no Rio de Janeiro, após receber o convite para fazer a substituição em uma aula, caso que se repetiu algumas vezes até que ele assumisse integralmente a primeira turma. “Depois disso, eu não parei mais”, conta.

Professor do Ponto dos Concursos, Albert explica porque escolheu atuar exclusivamente em cursos preparatórios. “Escolhi essa área porque percebi a valorização que as instituições e os alunos dão ao professor. Todo profissional almeja ser reconhecido pelo seu trabalho. A situação das nossas escolas e universidades é deprimente. As políticas públicas para o setor educacional são desestimulantes. Como professor e cidadão, lamento muito ter que admitir isso. Mas posso dizer que me sinto realizado dando aulas em cursos preparatórios”, reconhece.

Salários atraentes

O aumento das vagas em concursos públicos em todos os níveis, escolaridades e âmbitos do poder fertilizaram o terreno de cursos preparatórios e, por consequência natural, o número de interessados em ministrar aulas sobre as mais diversas disciplinas. O retorno financeiro da dedicação em compartilhar conhecimentos tão específicos motiva muitos profissionais, servidores públicos ou não, a encarar a sala de aula em posição de destaque. Quem está no início desta trajetória encontra oportunidades com remuneração de R$ 200 a R$ 400 a hora/aula, que pode ser de 40 ou 50 minutos. Já aqueles professores mais experientes, com mais tempo de estrada, obras publicadas e referência no assunto que domina podem embolsar até R$ 1 mil no mesmo período. Em geral os cursos incluem um pacote de aulas gerando salários bem interessantes.

Conciliar as duas carreiras - de servidor público e professor em cursos preparatórios, no entanto, tem seu ônus. Professor desde 2010 em cursos à distância e presenciais no Rio de Janeiro, o servidor público federal Marcelo Camacho garante que o desafio não é fácil: “Exige planejamento, dedicação e acordos com a família, mas traz compensação financeira e satisfação pessoal ao ajudar outras pessoas a conquistarem seus sonhos. Sou professor por convicção. Naturalmente, um professor que já foi aprovado em diversos concursos públicos passa maior segurança aos alunos, pois ele sabe como é o processo de preparação e entende a dinâmica das bancas”.

Saiba mais sobre concursos públicos no SOS Concurseiro

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