Grupo de professores conservadores da UnB tenta emplacar nome no MEC

Em meio à disputa entre as alas do governo sobre o sucessor de Abraham Weintraub no Ministério da Educação, três professores vinculados à Universidade de Brasília (UnB) são indicados pelo movimento Docentes pela Liberdade (DPL), de perfil conservador e alinhado ao presidente Jair Bolsonaro, para comandar o MEC. A lista é encabeçada pelos professores Mauro Rabelo, Ricardo Caldas e Antonio Flávio Testa.

Depois da saída conturbada de Carlos Alberto Decotelli, que nem tomou posse, Bolsonaro tem procurado um substituto que seja bem aceito pelos vários grupos internos do governo, como os militares, os evangélicos e os seguidores do escritor Olavo de Carvalho, os chamados olavistas. Essa disputa levou o secretário da Educação do Paraná, Renato Feder, a recusar o convite para o cargo.

O sociólogo e cientista político Antonio Flávio Testa foi professor da UnB e de outras instituições de ensino superior. Analista político e servidor público, trabalhou no Governo do Distrito Federal, na Fundação Nacional do Índio (Funai), no Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro) e no Senado Federal. Com conexões militares e bom trânsito no meio político, Testa integrou a equipe de transição de Bolsonaro, no fim de 2018, a mesma equipe da qual Decotelli também fez parte.

Nos bastidores, Testa é tido como “eterno cotado”. No início do governo, ele seria o secretário-executivo da pasta, mas às vésperas da posse acabou descartado por Ricardo Vélez Rodriguez, o primeiro ministro da Educação de Bolsonaro, que o acusou de ter conspirado contra ele.

O economista e professor do instituto de ciência política Ricardo Caldas confirmou ao Congresso em Foco que foi sondado pelo governo. “Eu sou servidor público, eu sempre estou à disposição. Servidor público tem que estar à disposição”, disse Caldas, que é evangélico.

Com doutorado em relações internacionais pela University of Kent at Canterbury, na Inglaterra, Caldas apareceu na tela da CNN Brasil nas últimas semanas como comentarista. Ele prestou serviços de consultoria para partidos políticos e dirigiu o Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (CEAM) de 2010 a 2014.

Já o nome do professor do Departamento de Matemática Mauro Rabelo passou a circular desde a semana passada. Ele foi secretário de Educação Superior na gestão Vélez. Anteriormente, no governo Michel Temer, Mauro atuava na secretaria como diretor de Desenvolvimento da Rede de Instituições Federais de Ensino Superior.

De perfil técnico, Rabelo não possui trajetória política. Ele foi diretor do Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (Cespe), responsável pela aplicação de diversos concursos públicos. Também foi decano de Ensino de Graduação da UnB e diretor do Colégio de Pró-reitores de Graduação da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes).

O nome dele também tem sido lembrado para a secretaria-executiva da pasta caso Bolsonaro escolha o reitor do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), Anderson Ribeiro Correia, como novo ministro. Evangélico, Anderson Correia tem o aval tanto da ala ideológica quanto da ala militar, porém ele teria que desistir do comando do ITA.

A gestão do ex-ministro Weintraub foi marcada por embates com as universidades federais. Em 2019, ele anunciou o contingenciamento de verbas para as instituições de ensino superior. Além disso, chegou a acusar os estudantes da UnB de “balbúrdia” e disse reiteradas vezes que havia plantação de maconha nas universidades.

Docentes pela Liberdade

Fundado em maio de 2019, o DPL reúne professores de viés de direita de instituições de ensino superior públicas e privadas do país. Idealizado pelo professor Marcelo Hermes, o grupo busca “recuperar a qualidade da educação no Brasil, romper com a hegemonia da esquerda e combater a perseguição ideológica”, segundo informações de seu site. Em novembro do ano passado, o grupo foi prestigiado pelo presidente, que recebeu Hermes em audiência no Palácio do Planalto.

Professor de bioquímica na UnB, Marcelo Hermes acumula polêmicas. Crítico à política de cotas, ele foi acusado de perseguição a estudantes indígenas. Hermes é defensor do uso da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19 e diz que a esquerda odeia o medicamento. “A esquerda tomou o lado do vírus, porque a esquerda quer que o vírus detenha a economia. (...) A esquerda faz tudo para que o antídoto anticrise não funcione”, diz ele em um vídeo divulgado nas redes sociais.

O grupo de docentes foi procurado pela reportagem para comentar, mas até a última atualização não havia enviado posicionamento. O espaço permanece aberto.

Outros cotados

O presidente Bolsonaro ainda não bateu o martelo sobre o novo ministro da Educação. Outros nomes cotados são o do secretário de Alfabetização, Carlos Nadalim, da secretária de Educação Básica do MEC, Ilona Becskehazy, e do reitor da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc), Aristides Cimadon. Este último foi recebido pelo presidente Bolsonaro nesta segunda-feira (7).

Também é apontado para o cargo Marcos Vinícius Rodrigues, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), engenheiro e ex-presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Segue na lista o advogado Sérgio Sant´Ana, que já foi assessor do MEC. Segundo auxiliares, o nome do novo ministro pode ser anunciado esta semana.

No fim de semana, o nome do secretário de Educação do Paraná, Renato Feder, foi descartado poucos dias depois de despontar como favorito ao posto. Sua indicação chegou a ser dada como certa na manhã de sexta-feira (3), mas depois de sucessivos ataques, interlocutores disseram que seu nome havia sido descartado por Bolsonaro. No domingo (5), Feder disse ter declinado o convite do presidente.

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