Negar holocausto é desinformação e irresponsabilidade, diz cientista político

O que levou um grupo de brasileiros a contestar o regime nazista e o holocausto foi, na visão do economista e doutor em Ciência Política, Ricardo de João Braga, a falta de conhecimento, uma atitude irresponsável e o “calor das disputas” eleitorais desse ano. Como este site mostrou ontem (segunda, 17), causou polêmica nas redes a resistência de brasileiros a um vídeo da Embaixada da Alemanha no Brasil explicando o que foi o nazismo e pedindo cuidado com “extremistas de direita”.

“[O que leva as pessoas a contestarem a história] é a falta de conhecimento, uma atitude ruim, mas acho também que é o calor dessas disputas entre os dois radicais, irresponsáveis e inconsequentes que estamos tendo na cena pública hoje. De um lado são os defensores acríticos desse legado petista e, do outro, os defensores acríticos das propostas insustentáveis, não responsáveis e não tolerantes do candidato do PSL”, disse Ricardo, que vive na Alemanha, ao Congresso em Foco.

“Infelizmente, as pessoas acham que qualquer assunto universal está disponível para uma briga de quem grita mais alto no período eleitoral”, sintetiza o especialista, doutor em ciência política e professor do Mestrado Profissional em Poder Legislativo da Câmara dos Deputados.

Depois do vídeo do governo alemão, um grupo de brasileiros contestou a história e gerou uma discussão acalorada nos comentários da postagem – o material foi veiculado nas redes sociais da embaixada. Alguns comentaram que o holocausto, que matou mais de 6 milhões de judeus durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), foi uma fraude, enquanto outros brasileiros pediam desculpas pelas contestações.

“Extremistas de direita? O partido de Hitler se chamava Partido dos Trabalhadores Socialistas. Onde tem extrema direita?”, contestava um dos comentários.

Ricardo, que mora na Alemanha desde o ano passado, explica que os movimentos que surgiram na Europa no século XX – fascismo, comunismo e nazismo – têm em comum o fato de serem movimentos totalitários. Ele diz ainda que a discussão entre ser um regime de direita ou esquerda não se aplica. “No sentido primordial, eles são idênticos. Tanto no nazismo, quanto no comunismo, você tem a supressão da liberdade”, aponta.

O que poderia caracterizar um regime como de esquerda ou direita é a questão da propriedade privada, continua o cientista político. O comunismo que se instaurou na União Soviética tinha como premissa instituir a propriedade coletiva, enquanto o nazismo permitiu a continuidade do regime de propriedade privada, excluindo alguns grupos desta lógica, como os judeus.

Para Ricardo, a discussão não tem sentido nos dias de hoje, porque ambos os regimes suprimiam a liberdade e tinham vários aspectos em comum – por exemplo, líderes autoritários e o controle da vida dos cidadãos por parte do Estado. “Essa discussão posta nos dias atuais parece muito mais uma discussão sobre palavras de ordem e símbolos de direita e esquerda que para as pessoas, hoje, pode ter algum sentido, mas que naquele contexto eram diferentes.”

Sobre a palavra “socialista” no partido do líder nazista Adolf Hitler – o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães –, o cientista explica que é muito mais uma questão de retórica do que identificação com um projeto que fosse de esquerda.

“O termo socialista é muito mais uma retórica no sentido que buscou valorizar a ideia das pessoas como importantes para o regime político, mas buscou também se afastar da ideia do socialismo tradicional da União Soviética, agregando a essa discussão a palavra 'Nacional'. Então você tem um regime alemão nacional, que valorizava a participação das pessoas”, explica Ricardo.

Educação é uma saída

No vídeo, a embaixada diz que os alemães não escondem o passado e, muito pelo contrário, “desde cedo são ensinados a confrontar os horrores do holocausto”. Diante dos comentários que negaram a existência do holocausto, o doutor em Ciência Política diz acreditar que há “falta de conhecimento” e “atitude irresponsável” das pessoas.

A primeira razão para os comentários é a falta de conhecimento. “Acho que muitas pessoas não têm informação e isso se deve, basicamente, à nossa pobreza em termos de formação e educação.”

Ricardo lembrou que crianças alemãs têm política como disciplina nas escolas não para concordar com ideologias de partidos, mas para entender como o sistema funciona, os papeis das instituições e o que é representação. “O Brasil está muito atrasado em termos de educação cívica e histórica”, conclui.

Além disso, observa Ricardo, trata-se de “atitude irresponsável” o fato de internautas opinarem sobre tudo sem sequer conhecer a história. “Temos que discernir o que é uma opinião. Você pode dar opinião se concorda ou não por uma questão de valores, mas o que as pessoas estão fazendo nesse caso específico é atentar contra fatos da realidade”, lamenta.

“O astrônomo americano Carl Sagan dizia que nós vivemos em uma adolescência tecnológica. Com isso, ele queria dizer que temos acesso a tecnologias muito avançadas, mas não temos aprendizado moral para lidar com elas. Em certo sentido, o que se vê no mundo e no Brasil é uma certa adolescência como sociedade para lidarmos com as esfera pública criada pela internet”, acrescenta Ricardo.

Ele alerta para o risco de se repetir os erros que a humanidade já cometeu como “os erros de ver as pessoas como diferentes e inferiores e, por isso, poderem ser destruídas por um projeto político”.

“Nós precisamos de mais conhecimento que passa pelo estudo, mas que também passa por uma discussão sobre a atitude das pessoas. Porque um tipo de comentário desses é irmão, em termo da sua essência, das tais fake news”, disse o também economista.

Vídeo educativo

O vídeo foi publicado no Facebook da Embaixada da Alemanha como reação às manifestações de grupos de extrema direita e neonazistas na cidade de Chemnitz, leste da Alemanha, entre o final de agosto e o início de setembro deste ano. Em um trecho do filmete, a embaixada mostra um cartaz em oposição às manifestações antissemitas dizendo que “quem protesta contra os nazistas não é de esquerda, mas normal”.

O curta também traz a fala do ministro de Relações Externas do país, Heiko Maas, pedindo cuidado com grupos extremistas. “Devemos nos opor aos extremistas de direita, não devemos ignorar, temos que mostrar nossa cara contra neonazistas e antissemitas”, diz Maas.

Na Alemanha, é crime negar o holocausto, exibir símbolos nazismos e fazer e saudação “Heil Hitler” – saudação àquele líder nazista. Além disso, crianças começam a estudar sobre a história do nazismo e do holocausto aos 13 anos.

 

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